Autoridade minimizam impactos do coronavírus e Bolsa sobe

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São Paulo – Após forte volatilidade no último pregão de fevereiro, o Ibovespa fechou com alta de 1,15%, aos 104.171,57 pontos, na máxima do dia, mostrando maior resiliência do que as Bolsas no exterior depois que autoridades tentaram minimizar os impactos do surto de coronavírus e o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) reiterou que pode agir se necessário. Investidores locais também seguem aproveitando baixas recentes para comprar alguns papéis que ficaram mais baratos e podem ser considerados mais seguros.

Na mínima do dia, o Ibovespa chegou a perder os 100 mil pontos, chegando a 99.950,96 pontos, caindo mais de 2%. Já a máxima do dia foi atingida no ajuste após o fechamento. O volume total negociado hoje foi de R$ 40 bilhões, acima da média.

Apesar do tom um pouco mais positivo hoje, o Ibovespa caiu 8,37% na semana e 8,43% no mês, no segundo mês seguido de queda e na maior perda mensal desde maio de 2018 (-10,87%), mês marcado pela greve dos caminhoneiros.

“O momento de pânico tem um certo limite, o mercado começa a esperar fatos novos ruins para cair mais ou fatos para parar de cair”, disse o analista do banco Daycoval, Enrico Cozzolino.

Entre os fatos que ajudaram o índice a parar de cair está o comunicado do Fed divulgado nesta tarde, no qual o presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, disse que podem ser usadas ferramentas para apoiar a economia se necessário, em meio ao surto de coronavírus. Mais cedo, o conselheiro econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, também minimizou a reação dos mercados e os impactos do surto na economia, pedindo que os investidores não “exagerem”.

Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que a situação é mais grave, com casos de coronavírus já em 49 países, no entanto, negou que ela seja uma pandemia. As declarações ajudaram Wall Street a reduzir um pouco as quedas, com Nasdaq fechando em alta, embora a volatilidade tenha sido forte e a perda semanal a maior desde outubro de 2008.

Analistas e operadores também têm afirmado que investidores locais seguem dispostos a comprar Bolsa. “Tem muito dinheiro novo na Bolsa, na mão de gestores, aqui sustenta mais. Quem está com dinheiro em caixa, depois de uma abertura catastrófica, vai aproveitar e comprar”, disse o operador sênior de renda variável de uma corretora estrangeira.

Entre as ações, as maiores quedas foram da Totvs (TOTS3 -4,53%), do IRB Brasil (IRBR3 -3,54%) e da Gol (GOLL4 -3,03%). Na contramão, as maiores altas foram da MRV (MRVE3 7,26%), da RD (RADL3 5,86%) e da Cielo (CIEL3 5,54%). As ações menos dependentes do cenário externo têm mostrado desempenho melhor, caso também das ações de bancos, como do Itaú Unibanco (ITUB4 2,99%).

Na agenda da semana que vem, os destaques serão o PIB brasileiro na quarta-feira e os dados do mercado de trabalho (payroll) nos Estados Unidos na sexta-feira. Semana que vem as eleições norte-americanas também devem voltar ao foco, com a chamada “super terça”, quando ocorrerão prévias em vários estados.

Analistas, porém, destacam que deve seguir prevalecendo o noticiário em torno do coronavírus. “O mês de março ainda pode ser difícil porque o coronavírus pode continuar se espalhando e teremos resultados de primários nos Estados Unidos, mas, por outro lado, se o surto ficar mais controlado, há possibilidade a Bolsa retomar”, disse o analista do Daycoval.

O dólar comercial fechou em alta de 0,15% no mercado à vista, cotado a R$ 4,4840 para venda, e engatou a oitava alta seguida e renovou a máxima histórica de fechamento pela sétima sessão seguida, em meio ao avanço do coronavírus fora da Ásia, no qual atinge 49 países e consequentemente, eleva o temor do mercado em relação aos impactos econômicos no primeiro trimestre do ano.

Perto do fim da sessão, um comunicado emitido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) “tranquilizou” os mercados no qual o presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, declarou, em poucas palavras, que “agirá apropriadamente para apoiar a economia”.

“O mercado pediu, o Fed atendeu. O mercado deveria, no mínimo, dar uma acomodada. Os desafios estruturais ainda são altos, mas o curto prazo está exagerado”, comenta o sócio da TAG Investimentos, Dan Kawa.

Na semana mais curta, em razão do feriado prolongado de Carnaval, o dólar se valorizou em 2,04% reagindo “intensamente” ao aumento do número de pessoas diagnosticadas com o coronavírus fora da China, no que resultou em forte queda das bolsas internacionais, na elevação do risco e no fortalecimento do dólar frente à maioria das moedas, principalmente, a de países emergentes.

“Após o número de casos desacelerar na China, outros países começaram a registrar novos casos, com destaque para Coreia do Sul, Itália e Irã. No Brasil, o primeiro caso foi confirmado. A taxa de letalidade do vírus segue moderada, mas há risco de paralisação de atividades em alguns países, como já ocorrido na China, e, consequentemente, de efeitos sobre o crescimento econômico global”, avalia a equipe econômica do Bradesco.

Em fevereiro, apesar de curto, o dólar se valorizou em 4,59% influenciado pelo avanço da doença e das incertezas quanto aos impactos na atividade econômica. Com isso, a moeda acumula ganhos pelo segundo mês seguido (+11,7%).

“Se a gente pegar as moedas pares do real, veremos um comportamento semelhante, de forte depreciação. O coronavírus começou a pesar há um mês e meio e até agora as coisas só pioraram. A doença com certeza terá esse peso e impacto nos resultados das economias no primeiro trimestre do ano”, diz o economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos.

O diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer, acrescenta que o mês foi marcado pela de “mudança de cenário”, no qual as expectativas globais mudaram radicalmente influenciado pelo avanço do vírus. “É forte a expectativa de desaceleração da economia global. A situação necessita cautela e análise da disseminação da doença. A leitura é de que esse evento resultará na volta de cortes de juros dos Estados Unidos”, pondera.

Já o economista da Guide Investimentos, Alejandro Ortiz, diz que um fator que faria o dólar a voltar a perder força seria, exatamente, o Fed emitir sinais de que poderá voltar a cortar juros, mesmo após as sinalizações de que deverá manter o patamar entre 1,50% a 1,75% por algum tempo.

Se o coronavírus é o principal driver do mercado desde janeiro, a tendência é de que ele predomine também março. Na próxima semana, além de os desdobramentos da doença seguir no radar dos investidores, a agenda econômica forte poderá trazer um pouco dos resultados dos impactos da doença na atividade, como os índices dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) sobre a indústria e de serviços neste mês.

Nos Estados Unidos, saem os PMIs da indústria e de serviços, o Livro Bege – relatório da avalição econômica norte-americana – no qual deverá considerar os efeitos do coronavírus, além dos dados do mercado de trabalho no setor privado (ADP) e o relatório de emprego, o payroll, que também deverá sentir os efeitos do avanço do vírus. Dirigentes do Fed também discursarão ao longo da semana, o que deverá reacender a discussão em torno da decisão de política monetária, no qual a autoridade monetária se reunião em 17 e 18 de março para uma nova discussão sobre o assunto.

Aqui, o destaque fica a para a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2019, além do acumulado do ano. “O resultado deve pegar no mercado porque pode frustrar a expectativa”, diz Ortiz da Guide.

Além disso, tem a volta do funcionamento do Congresso Nacional após o recesso de Carnaval, com expectativa para o retorno da discussão da agenda de reformas. Para o economista da Guide, o retorno das discussões sobre as reformas é o “único alívio” no radar que poderia culminar em uma queda do dólar. “Principalmente, se tratando da reforma tributária”, comenta.