Ibovespa encerra em baixa, mas sobe em maio depois de 10 anos

Por Danielle Fonseca e Flávya Pereira

Após chegar a subir mais cedo, o Ibovespa fechou em queda de 0,43%, aos 97.030,32 pontos, mostrando uma realização de lucros depois de quatro pregões seguidos de alta. Na semana, porém, o índice subiu 3,63% sustentado pelo otimismo local com um ambiente mais favorável à aprovação da reforma da Previdência. A alta desta semana ajudou o índice a fechar o mês de maio com ganhos de 0,70%, contrariando a tradição de meses de maio negativos, já que o mês não fechava no azul desde 2009, quando avançou 12%. O volume total negociado hoje foi de R$ 17,4 bilhões.

Segundo o analista da Toro Investimentos, Vinícius Andrade, a Bolsa teve um “movimento de correção natural” perto do fim do último pregão do mês, interrompendo a sequência de altas desta semana.

Ações de peso para o índice, que subiam com força mais cedo, viraram para queda, caso dos papéis do Itaú Unibanco (ITUB4 -0,22%), da Petrobras (PETR4 -2,29%) e da Vale (VALE3 -2,01%). As ações da BRF (BRFS3 -4,51%) registraram a maior perda do Ibovespa, refletindo preocupações com a fusão com a Marfrig (MRFG3 0,73%). Investidores ainda aguardam mais dados sobre sinergias e integração das duas companhias. Os papéis da JBS (JBSS3-1,84%) também ficaram entre as maiores baixas, sentido a notícia da fusão de suas concorrentes.

Na contramão, os maiores ganhos do índice foram de ações do setor de energia, como Engie (EGIE3 4,61%) e Energias do Brasil (ENBR3 3,98%). Hoje ocorreu o leilão de energia para suprimento de Roraima, promovido pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE)e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com início de suprimento em junho de 2021. O leilão contratou 293,869 megawatts (MW) e movimentou R$ 1,623 bilhão, totalizando nove empreendimentos. Também ficaram entre as maiores altas ações da Ultrapar (UGPA3 3,87%) e Braskem (BRKM3 4,06%).

Apesar da queda de hoje, o Ibovespa caiu menos do que os principais mercados acionários no exterior, com bolsa norte-americanas caindo mais de 1% em função do anúncio do presidente norte-americano Donald Trump de que os Estados Unidos aplicarão uma tarifa de 5% a produtos importados do México, em novo capítulo da guerra comercial. Também pesaram no humor externo dados mais fracos da produção industrial chinesa.

Para o estrategista-chefe do Indosuez Wealth Management, Vladimir Caramaschi, essa resiliência da Bolsa brasileira se deve a uma percepção de melhora do ambiente político, após aprovações de medidas no Congresso e aproximação entre os Poderes. “É comum que se menospreze o efeito do cenário externo porque estamos muito focados na questão da Previdência e há a crença de que a China tem instrumentos para enfrentar impactos da guerra comercial. Em geral, aumentou a confiança de que o Congresso aprove alguma reforma”, disse, lembrando, porém, que não é possível saber qual será o seu tamanho.

O estrategista também ressalta que ainda é possível oscilações no ambiente político e mostra suspeitas em relação a declarações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que mostrou intenção de acelerar o andamento da reforma, pressionando para que o relatório na comissão especial possa sair na semana que vem. “Me questiono se não tem um pouco de estratégia ali. O Maia acelera a reforma, se blinda de acusações de que estão atrasando a questão, mas na hora da votação é o governo que tem que articular para aprovar. Hoje, acho que não há votos suficiente”, disse.

Na semana que vem, o mercado deve continuar atento ao andamento da Previdência, com a possibilidade de apresentação do parecer na comissão especial, além de observar outras votações de medidas provisórias, como a MP 871, sobre combate a fraudes no INSS. Na terça-feira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, deve ir à Câmara falar sobre Previdência, em uma semana também mais cheia no exterior. Na sexta-feira, devem ser divulgados os dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos, o chamado payroll, considerado o mais relevante para avaliar os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

Já o dólar comercial fechou em queda de 1,38% no mercado à vista, cotado a R$ 3,9250 para venda – renovando mínimas sucessivas – refletindo o movimento técnico de desmonte de posições e fluxos comuns em fim de mês, se descolando do exterior onde prevaleceu a aversão ao risco em reação à escalada da guerra comercial, agora, entre Estados Unidos e México após o governo norte-americano anunciar a tarifação de 5% sobre produtos mexicanos como forma de conter a imigração ilegal.

Na semana, a moeda estrangeira se desvalorizou 2,29% frente ao real. “O avanço dos trabalhos legislativos nesta semana reforçou a perspectiva mais favorável para a agenda de reformas. O desempenho da moeda brasileira refletiu esses avanços e apreciou mais do que as outras dos países emergentes”, avalia a equipe econômica do Bradesco.

Em dia de formação de preço da taxa Ptax de fim de mês e de ajustes técnicos, após exibir forte volatilidade na primeira parte do pregão, o dólar passou a cair de “forma vigorosa” motivado por interesses técnicos de investidores vendidos em contratos cambiais, a tradicional “briga da Ptax”, comenta o diretor de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik. Ele acrescenta que foi dia de o mercado não respeitar fundamentos, “com participantes mostrando força e quem estiver melhor posicionado vence o jogo, e neste mês, os vendidos foram os grandes vitoriosos”, destaca.

Ao longo do mês, a moeda norte-americana registrou fortes variações, chegando ao patamar de R$ 4,12 – nas máximas desde as eleições do ano passado – porém, fechou maio estável. “Em boa parte do mês, a gente acompanhou o mercado tendo receio com a relação entre os poderes executivo e legislativo”, avalia o analista da Toro Investimentos, Vinícius Andrade.

Ainda houve uma forte corrida por proteção “alinhada às incertezas” com a reforma da Previdência que envolvia atrasos na tramitação, aprovação de um texto diluído, além do embate entre governo e Congresso, diz o analista. Ele reforça a escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China com novos capítulos como pausa nas negociações entre os países, a cobrança de tarifas sobre produtos chineses e o tom mais elevado dos presidentes norte-americano, Donald Trump, e chinês, Xi Jinping.

Na próxima semana, com o início de um mês “crucial” para a reforma da Previdência, diz o operador de câmbio da corretora Advanced, Alessandro Faganello, o mercado deverá acompanhar a agenda do Congresso com a aprovação de mais medidas provisórias (MP) como a 871, de combate às fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que pode gerar economia de R$ 10 bilhões neste ano.

“Em junho, a depender da tramitação da reforma da Previdência, o dólar pode ter uma tendência maior de, gradualmente, dar uma recuada. Agora, precisamos saber o teor das emendas apresentadas pelos parlamentares. Porém, ressalto. O mercado quer o texto apresentado pela equipe econômica do mercado. É dela que virá a economia que o País precisa”, analisa Faganello.

Na segunda-feira, a agenda de indicadores estará mais forte com dados de atividade industrial (PMI, na sigla em inglês) nos Estados Unidos, na China e na zona do euro. Segundo o operador da Advanced, são importantes para medir os impactos da guerra comercial nos mercados.

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