Voto aberto pode redirecionar presidência do Senado

05/12/2018 12:10:51

Por: Álvaro Viana / Agência CMA

Brasília – A “nova política”, defendida por Jair Bolsonaro e por novos parlamentares que desbancaram caciques nas urnas nessas eleições e fazem parte da nova composição para 2019 – pode renovar também a presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, informaram especialistas à Agência CMA.

Nesse quadro de incerteza para o governo Bolsonaro, as eleições para presidência das duas Casas servirão como o primeiro termômetro real, a curto prazo, do poder de articulação do governo de Jair Bolsonaro.

Nesse contexto, a figura dos presidentes das duas Casas pode ser uma peça importante no poder de articulação do próximo governo. “Não tem dúvida de que a eleição para as duas Casas Legislativas é o principal termômetro no curto prazo para medir o grau de harmonia entre os Poderes Executivo e Legislativo no início da nova administração do Bolsonaro”, afirma o cientista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez.

“Os presidentes tanto da Câmara quanto do Senado são figuras chave nessa articulação do governo. Chamam os partidos, os líderes e negociam. A estratégia para o governo, hoje, na minha visão, seria apostar em dois caras experientes. Aí eu falo o nome do Rodrigo Maia e o Renan Calheiros para o Senado”, explica o cientista político André César, da Hold Assessoria.

Segundo César, ninguém anunciou sua candidatura para a presidência da Casa, nem mesmo Maia, mas ele ainda larga como favorito por ser o atual presidente. “Em tese, hoje, ele é o favorito e, dado esse quadro de incerteza geral do país que vai ser o governo Bolsonaro, pode ser uma figura fundamental para o Bolsonaro tentar avançar seus temas, por exemplo a reforma da Previdência”.

“O desafio (de articulação) é enorme, porque a bancada que chega com Bolsonaro é uma bancada muito forte, mas de primeiro mandato. O desafio vai ser muito grande no sentido de você criar maioria em apoio ao governo. Tudo vai depender de quem Bolsonaro escolher para líderes no Senado e na Câmara”, detalha o assessor parlamentar Márcio Coimbra.

Coimbra acredita que apoiar o nome de Rodrigo Maia, para Bolsonaro, não seria a melhor estratégia. “O mais inteligente para o governo vai ser apoiar um nome que não seja o Rodrigo Maia para conseguir tocar uma pauta mínima dentro da Câmara dos Deputados, porque Rodrigo também é um parlamentar muito polêmico dentro da Casa. Tem muitas pessoas que não confiam que ele possa realmente estar alinhado com o governo”, diz. Isso se dá por Maia também ter apoio de parte de parlamentares da esquerda, segundo Coimbra.

“Ele vai ter que escolher um lado. Um é estar mais próximo ao governo, o outro é pagar a fatura da oposição que tem que apoiá-lo. A situação na Câmara é um pouco mais intrincada do que a do Senado”, acrescenta Coimbra.

Em relação às pautas, André César acredita que Maia seria um bom aliado para Bolsonaro. “Vai ter uma agenda pesada, pensando pela ótica do Maia. Vai ter uma agenda com questões de comportamento, morais, escola sem partido e por aí vai. Nesse sentido ele é um bom condutor nesse processo. É melhor ter um cara assim do que uma figura que você não sabe o que vai fazer. A experiência, os anos de casa, a interlocução que ele tem com os colegas, então isso é um grande acervo político”, explica.

Em relação ao perfil político de Rodrigo Maia, César destaca as que considera principais características do deputado: “A experiência, os anos de casa, a interlocução que ele tem com os colegas resultam nesse grande acervo político”.

Cortez argumenta que Bolsonaro tem uma dificuldade significativa nas duas Casas. No caso de apoiar Maia à presidência da Câmara, seria mais um movimento favorável ao DEM. “O DEM já ocupou e ocupa um espaço relativamente grande nos ministérios, e, portanto, seria uma concentração de poder razoavelmente grande de um partido só. Não é por acaso que o próprio Maia tenta desvincular essas nomeações ministeriais do DEM da sua eventual candidatura de reeleição à Câmara”, explica.

“É um cenário muito difícil para o Rodrigo Maia. Se tem uma lição que os parlamentares, sobretudo os do baixo clero, aprenderam ao longo dos últimos anos, é que organizada a maioria faz a diferença. Portanto, deve ser um quadro de forte disputa no interior da Câmara”, acrescenta Rafael Cortez.

“Câmara é um pouco mais complicado do que o Senado porque o Rodrigo Maia tem apoio de partidos de esquerda que são partidos da oposição ao governo Jair Bolsonaro. Se Maia tiver apoio dessa esquerda para chegar à presidência da Casa, ele provavelmente não terá uma pauta simpática ao governo na condução da Casa. Isso é um problema para o novo governo”, explica Márcio Coimbra.

“O Rodrigo Maia e o Renan (Calheiros) estão muito ligados à velha política e ao establishment que foi derrotado nas últimas eleições”, acrescenta.

SENADO

Outro fator que pode servir de preocupação para o governo de Jair Bolsonaro é o espaço deixado por Romero Jucá (MDB-RR), após não ter sido reeleito para o Senado. O senador trabalhou como líder dos três últimos governos e participou de acordos importantes para a aprovação de matérias como o que possibilitou a agilidade na aprovação da reforma trabalhista, por exemplo, mediado pelo próprio Jucá.

“Senado é uma Casa em que os partidos maiores ainda têm o poder mais relevante. Ainda tem uma tradição de ser uma Casa mais conservadora, de tal modo que esse movimento de emergência de uma nova elite política não deve se manifestar no Senado, que deve vir com nomes já conhecidos do grosso do eleitorado brasileiro (para a eleição do presidente da Casa)”, esboça Rafael Cortez.

Márcio Coimbra analisa o contexto para o Senado de outra forma. Para ele, o resultado da eleição para a presidência da Casa dependerá de como será feita a votação no plenário, em voto secreto ou aberto.

“Lasier Martins está pregando o voto aberto para as eleições do Senado. Se houver um voto aberto, nós temos 60% dos senadores novos que estão chegando, e que foram eleitos exatamente pela rejeição à política tradicional”, explica. Nesse sentido, o discurso da “nova política” teria mais uma vez um impacto prático.

“No voto aberto o Renan Calheiros leva muita desvantagem porque os novos senadores não vão querer estar ligados à figura de um homem que representa a ‘velha política’, considerando que eles foram eleitos pelo voto que queria renovação. Então eles já começariam o mandato mal. Se o voto realmente for aberto, a eleição do Renan fica praticamente inviável”, diz Coimbra.

“Não é uma questão de pauta. É uma questão de modo de fazer política. O Renan vai querer nomear pessoas para o governo em troca de apoio no Congresso. E isso o Bolsonaro não quer fazer. Não existe uma diferença de pauta ideológica, existe uma diferença de alinhamento ao governo”, explica.

Num cenário em que o voto seja aberto, os nomes mais fortes seriam o de Tasso Jereissati (PSDB-CE) e o de Davi Alcolumbre (DEM-AP). Tasso é respeitado por todos os lados, segundo Coimbra, e teria qualificação para a presidência. “Num terceiro vértice, tem Davi Alcolumbre, que é um senador jovem, que está identificado com essa renovação e por conta disso tem muita chance também”.

“A chegada desses novos entrantes no status quo nem sempre é harmoniosa”, explica Rafael Cortez ao comentar a relação dos paladinos da “nova política” que formarão a nova composição no Congresso.

“Num certo sentido, o sistema político brasileiro vinha num movimento de aumentar a descentralização desse poder de agenda, ou seja, a presidência da República hoje é mais fraca no sistema político do que foi nas eras FHC e Lula. Então a tentativa dessa nova elite política de não apenas ficar com a presidência, mas ocupar as duas casas legislativas é bastante ambiciosa.”

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

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