Tesouro Direto vale a pena se Selic for a 6,75% em 2018?

14/12/2017 18:26:12

Por: Flavya Pereira / Agência CMA

São Paulo – O ciclo de afrouxamento monetário parece não ter chegado ao fim, mesmo após o Banco Central (BC) ter cortado a Selic (taxa básica de juros) em 7,25 pontos percentuais desde outubro de 2016, a 7% ao ano – uma mínima histórica.

Com a afirmativa do Comitê de Política Monetária (Copom) de que “é apropriado uma redução moderada na taxa” na reunião de fevereiro, a aposta do mercado é de um novo corte, de 0,25 ponto percentual, a 6,75% aa, e a depender do cenário político mais uma redução em março, a 6,5%. E no que diz respeito aos investimento a pergunta é: como fica a rentabilidade com títulos públicos no primeiro semestre de 2018?

“Há uma falsa sensação de que com a Selic caindo, investimentos de renda fixa, como o Tesouro Direto, não têm bons rendimentos. E não é por aí”, comenta a especialista e finanças, Betty Grobman.

O gestor de investimentos da Longea Capital, Alfredo Cunha, salienta que o investidor precisa ter em mente que o ciclo de corte da taxa básica de juros está chegando ao fim e não há o que temer quanto à rentabilidade. “Por mais que a Selic chegue a 6%, por exemplo, não vai fazer diferença na rentabilidade porque o corte grosso já foi”, avalia.

Neste cenário, os títulos pré-fixados [LTN – Letras do Tesouro Nacional e NTN-F – Notas do Tesouro Nacional série F] ainda podem render mais que os títulos pós-fixados (indexados à inflação) e a própria poupança. “A NTN-F continua interessante pela rentabilidade líquida, descontando tudo. Já a LTN (indexada à taxa Selic) é um título de conveniência para o cliente que precisa de liquidez diária e resgatar a qualquer momento. Este não é o mais recomendado para investir uma vez que a Selic tende a cair”, explica Grobman.

Os especialistas chamam a atenção para outro indicador que também vem acumulando quedas e têm peso no rendimento de alguns títulos: a inflação (prevista para fechar o ano em 2,88%, segundo o último boletim Focus, do Banco Central).

“Como está tendo uma queda simultânea da expectativa de inflação e dos juros (tanto a Selic como os de mercado), os pré-fixados captam as duas quedas.

Os indexados à inflação [NTN-B e NTN-B Principal – Notas do Tesouro Nacional série B] só capturam a queda dos juros reais, ou seja, daqui pra frente, eles tendem a render menos com a queda da inflação também”, destaca o estrategista da Mont Capital Gestão de Fundos, Marcelo Cypriano.

O gestor da Longea Capital calcula que até novembro, a Selic teve taxa média de 9,36% no ano, juros reais de 6,69% e gerou um retorno líquido (descontados o Imposto de Renda e a inflação) de 4,87% aos títulos, valor acima do registrado em 2016, quando a média da taxa básica de juro foi de 14% e o retorno líquido de 4,62%. “Queda da Selic não é necessariamente queda dos rendimentos”, pondera.

Para 2018, com a média da Selic em 6,50% e juros reais de 2,50%, o rendimento líquido pode chegar a 1,25%. Mas esse cenário pode mudar. “O mercado futuro indica que a taxa básica vai voltar a subir. O ciclo de redução dos juros vai ficar para trás, tanto aqui como no exterior. Quando isso acontecerá é impossível prever, mas o investidor deve ter ciência dos riscos”, salienta Cunha.

Mais do que se preocupar com a rentabilidade do título, o economista da Guide Investimentos, Ignácio Crespo Rey, reforça que o investidor precisa saber distribuir os recursos, uma vez que a Selic e a inflação devem voltar a subir. “Neste momento o mais importante é saber como alocar os recursos.

Títulos pré e pós-fixados têm características diferentes, o que pode ser feito é fatiar a destinação do dinheiro a ser investido. Saber em qual título aplicar”, orienta o economista, que também recomenda menos aplicações nas NTN-Bs (pós-fixado) por causa queda da inflação.

Poupança

Para quem ainda não investe, ou tem poucos recursos para aplicar no Tesouro Direto, sempre fica a dúvida de qual vale mais a pena: títulos públicos ou caderneta de poupança. A impressão é de que a rentabilidade dos dois investimentos está próxima, mas Grobman ressalta que “a poupança está com uma taxa bruta interessante. Porém, quando se desconta a inflação no período da aplicação, o rendimento fica pequeno”, diz.

“Considerando o rendimento líquido, com todos os descontos, tem título do Tesouro Direto rendendo 4,68% no período, enquanto que a poupança rende 1,24%. São nesses cálculos que a gente avalia quem rende mais até porque a caderneta não tem cobrança de Imposto de Renda como os títulos têm”, sustenta a especialista em finanças.

Para o estrategista da Mont Capital, caso algum investidor esteja pensando em migrar para a poupança “no primeiro semestre, os títulos pré-fixados ainda vão render mais. Os prêmios pagos a eles vão sofrer consequências da Selic abaixo do 7% mais para a frente, a partir do segundo semestre”, comenta.

O cenário político e a reforma da Previdência devem interferir não só na taxa Selic e na inflação, como consequentemente, na rentabilidade dos títulos. “2018 é ano eleitoral e a volatilidade será presente em todos os investimentos. Com os títulos do Tesouro não será diferente e se a reforma da Previdência também não for votada no ano que vem, os títulos devem ser impactados”, lembra os analistas.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

 

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