TESOURO DIRETO: Número de investidoras sobe 445% em 3 anos, mas ainda é baixo

08/03/2018 15:00:36

Por: Flávya Pereira / Agência CMA

(Foto: Marcos Santos
/ USP Imagens)

São Paulo – O número de investidoras no Tesouro Direto não chega a um terço (27,9%) quando comparado à quantidade de homens, apesar de ter quintuplicado nos últimos três anos. Em janeiro de 2015 eram 97,9 mil investidoras contra 533,8 mil em janeiro deste ano, um salto de 445% no período. Hoje, ao todo, são 1,915 milhão de aplicadores – 572.182 ativos, sendo 30,9% mulheres, enquanto em janeiro de 2015, o percentual chegava a 23,2%.

Entretanto, por que, ainda assim, o número de mulheres ainda é tão baixo neste e até em outros investimentos? Segundo especialistas, vários motivos levam a estes números. Um deles é o processo histórico da inserção da mulher no mercado de trabalho.

“Por muitos anos, ela não estava dentro do mercado e as decisões financeiras eram tomadas por homens, pelos maridos. Elas não tinham acesso a informações sobre o mercado financeiro e nem motivos para ir atrás disso”, explica a sócia e analista de investimentos da Levante, Marcela Kasparian.

A especialista em finanças, Betty Grobman, pondera, no entanto, que grande parte dos investidores do sexo masculino lista como os primeiros titulares das contas de investimentos cujos valores, “na verdade, são frutos de poupança e acumulação familiar ou em conjunto com as mulheres. Logo, o investimento está no CPF do homem, mas o dinheiro é conjunto”, explica.

Já a educadora financeira, Andreza Stanoski, observa que, por terem um perfil conservador, as mulheres ainda aplicam em poupança por falta de
informações. “A falta de conhecimento ainda é um grande entrave, e isso gera medo de investir, o que também justifica ter um número ainda baixo de
investidoras”, reforça.

A renda é outro fator que tem grande impacto nesses números. “A mulher só teve acesso a uma renda para investir há pouco tempo. É um fator
histórico o homem ser um investidor. Além disso, o mercado financeiro ainda tem uma representatividade feminina baixa”, salienta a professora do Insper, Juliana Inhasz.

A professora do Insper ainda lembra que a remuneração da mulher – menor que as dos homens em 23,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – também reflete nos números atuais de investidoras não só no Tesouro Direto, como também no mercado acionário.

Em fevereiro, o número de mulheres na bolsa de valores brasileira, a B3, chegou a 144.493, 22,08% do total de 96,77% de investidores pessoas físicas.
Diferentemente do Tesouro Direto, o número de investidoras no mercado de ações acumula cinco anos de queda, que chega a quase 3%.

“A renda conta muito e se a mulher ganha um salário menor, consequentemente, ela terá menos dinheiro para investir. Além de a mulher se
expor menos ao risco que o homem”, justifica Inhasz. Porém, a educadora financeira rebate que “para investir é preciso guardar dinheiro. E isso
depende de uma reorganização financeira”.

Entre estes e outros motivos para o número de investidoras em títulos públicos ainda ser baixo, também está relacionado ao pouco esforço dos
investimentos em atrair o público feminino. “Falta muito incentivo para a mulher investir. Se ela tem um perfil mais conservador, faltam produtos
específicos para este público e informações específicas para atraí-la”, pontua a professora.

Grobman, por sua vez, acredita que é preciso ter ações mais efetivas para atrair novos investidores, “independentemente de gênero” e sem segmentar os produtos. “É preciso ampliar as ações de educação financeira e de marketing por parte do Tesouro, divulgação em massa, com propaganda na TV,
durante o intervalo da novela das nove. Ele tem potencial para ter muito mais investidores”, endossa.

Contribuir com uma linguagem simples e acessível para quem ainda está aprendendo a investir é a aposta da analista de investimentos da Levante e da
educadora financeira.

Segundo a gerência de relacionamento institucional do Tesouro Direto, algumas ferramentas têm sido desenvolvidas para atrair novos investidores,
principalmente, mulheres e jovens. No ano passado, foi criado um simulador de como investir nos títulos públicos, além de cursos para explicar o
funcionamento do programa. Nesta semana, foi lançado um aplicativo para facilitar a operação dos investimentos. Entre as ações, está o atendimento
virtual feito por uma gerente, já com o intuito de criar uma aproximação com o público feminino.

Títulos para investir

Considerando que as mulheres têm perfil conservador, as especialistas recomendam uma diversificação entre os títulos e uma análise sobre os
objetivos da investidora. “Uma parte do dinheiro pode ir para o Tesouro Selic [LFT – Letras Financeiras do Tesouro], daí, dá para ter segurança por ser
possível de resgatar em curto prazo”, sugere Kasparian, da Levante.

Enquanto para o longo prazo, a analista sugere investimentos em NTN-B [Nota do Tesouro Nacional série B] com vencimento em 2035, “aproveitando a tendência de queda da Selic [taxa básica de juros], vai gerar bons rendimentos”, reforça. Já a especialista em finanças indica os títulos de
longo prazo para quem tem planos acima de cinco anos de investimentos e para mulheres que têm filhos.

“Recebo muitas consultas sobre como planejar o futuro financeiro dos filhos. Títulos longos são bons para esse objetivo, como também, alternativa
à acumulação de recursos para aposentadoria futura, já que não tem taxa de administração, caso o investidor opte por um agente que não cobre pela
custódia”, ressalta Grobman. Stanoski, por sua vez, lembra que a mulher precisa focar nos sonhos, “só aí, é possível saber qual o investimento
fazer, qual trará o retorno que ela precisa”.

Longe de ocupar a fatia de, ao menos, um terço dos investidores, já que o caminho parece ser longo, as especialistas mantêm o otimismo de que o cenário está mudando e a chegada das mulheres aos investimentos será gradual. “Os títulos públicos são para todos os bolsos, mas será um processo natural e gradativo. Acredito que nos próximos 10 anos, tende a ter um crescimento forte. Esperamos por isso”, finaliza a professora do Insper.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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