Taxa Selic deve cair, mas momento é de prudência do BC

Por Flávya Pereira e Daniele Fonseca

São Paulo – O mercado aposta alto em corte da taxa básica de juros (Selic) na próxima semana quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) se reunirá para definir se mantém a taxa em 6,50% ao ano pela décima primeira vez ou se inicia um ciclo de afrouxamento monetário.

A dúvida é de quanto seria o corte, uma vez que a maioria do mercado vê espaço para uma queda de 0,50 ponto percentual (pp), indo a 6,00% ao ano, após a aprovação do texto-base da reforma da Previdência em primeiro turno no plenário da Câmara dos Deputados. Mesmo com a aprovação da reforma encaminhada na Câmara dos Deputados – ainda falta a votação em segundo turno antes de a proposta ser encaminhada ao Senado Federal – analistas pedem prudência ao BC e questionam se este é o momento para reduzir a Selic.

Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, “é momento sim” para corte pelo cenário de atividade econômica fraca e com o discurso do governo federal de que é preciso estimular a economia. “Com a reforma da Previdência encaminhada, o BC se sente mais confortável para reduzir os juros já nesta reunião”, comenta.

O economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, pondera que, ainda que resistam dúvidas quanto à eficácia de cortes de juros aqui, dada uma série de fatores, o corte de 0,50 pp até o fim do ano seria protocolar. “Até para atender aquilo que a autoridade monetária tem pregado desde a mudança do colegiado em 2016, que cortes necessitam de reforma. Com a nova Previdência aprovada, o BC precisa ao menos testar o cenário de juros ainda mais baixos, dada a atual atividade econômica e a inflação controlada”, ressalta.

No comunicado da última reunião, no mês passado, o Copom indicou que poderia haver corte de juros no futuro caso fossem observados avanços concretos nas reformas e ajustes esperados para a economia. Porém, deixando claro, que o BC preferia manter a Selic “intacta” em 6,50%.

O economista-chefe da Necton, André Perfeito, vê o Banco Central mais cauteloso no afrouxamento monetário uma vez que não houve sinalizações em comunicados anteriores de que um corte “mais agressivo” poderia vir no curto prazo. “Pelo tom em entrevistas, o perfil do Campo Neto [Roberto, presidente do BC] é de cautela. Não sei se ele apostaria em corte 0,50 pp nesta reunião”, diz.

Perfeito acrescenta que cortar juros não significa que o País atrairá investimentos, como muitos acreditam, e que haverá melhora do cenário econômico. Para ele, o problema da “nossa” economia não é juro alto, mas outros componentes de curto prazo.

“Estruturalmente, a economia está fraca e caiu no colo do BC fazer coisas que ele não tem que fazer, que é estimular a economia. Mas vejo como prudente um corte de 0,25 pp na semana que vem. Não tem necessidade de correr com essa queda da taxa”, diz o economista.

Em relatório divulgado nesta semana, o Bank of America Merrill Lynch (BofA) aposta em Selic a 4,75% até o fim do ano, projeção que foi rebatida por analistas. O economista da Toro Investimentos, Rafael Winalda, vê como uma aposta “bem agressiva”, uma vez que o Banco Central não teria espaço para promover tal corte, de 1,75 pp em quatro reuniões, até dezembro.

O gestor de investimentos, Paulo Petrassi, endossa que o atual presidente do BC não tem “perfil agressivo”, enquanto o economista da Necton reitera que o “mesmo mercado” que pressiona para uma queda de juros, pressionará mais tarde para uma alta de juros. “Eu não sei se comportaríamos uma Selic tão baixa”, diz.

Já o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas, questiona se o Banco Central tem condições para promover o corte. “A economia precisa de outros estímulos e não somente baixar juros. O caminho é avançar em reformas”, reforça. Ele chama a atenção também para as condições externas, como a decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

“Há reuniões em que a decisão é previsível. Nesta, porém, o Copom vai definir no dia da reunião. Os comunicados já vêm falando que é preciso considerar os efeitos externos também. Será dia de Fed e a gente precisa ver se eles vão reduzir juros. Tem que avaliar o risco global porque isso pode nos afetar lá na frente”, destaca Tingas.

Sobre o Fed, Perfeito acrescenta que a leitura de corte na próxima semana é unânime, porém, pairam dúvidas sobre a magnitude da queda da taxa, se será de 0,25 pp ou de 0,50 pp. “Existe espaço para um afrouxamento monetáriono mundo. Porém, se acumulam evidências de que existe limite para esses afrouxamentos”, diz.

Em meio à apostas ainda indefinidas de qual será a Selic até o fim do ano, o relatório de mercado Focus do Banco Central, manteve as projeções do mercado financeiro de taxa de juros em 5,50% até o fim do ano, queda de 1,00 ponto percentual. O economista da Necton ressalta que é preciso ficar atento se o comunicado do Copom sinalizará mais cortes e a magnitude deles. Além de observar os movimentos no exterior, onde a tendência é entrar na rota de corte de juros.

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