Sob comando de Lagarde, BCE deve manter política de afrouxamento

Por Carolina Gama

São Paulo – Os investidores reagiram positivamente ao anúncio de que a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, pode substituir Mario Draghi como presidente do Banco Central Europeu (BCE) a partir de novembro deste ano. A expectativa de que ela mantenha uma aproximação mais favorável ao afrouxamento monetário (dovish) na eurozona explica o otimismo dos investidores, segundo analistas consultados pela Agência CMA.

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. (Foto: Divulgação/FMI)

“A nomeação [de Lagarde] nos deixa ainda mais confiantes de que o BCE irá reiniciar suas compras de ativos líquidos antes do final deste ano”, disse o economista da Capital Economics, Hubert de Barochez.

O BCE acabou com seu programa de compra de ativos (QE, na sigla em inglês) em dezembro de 2018, mas diante da deterioração econômica global e da fragilidade da inflação na eurozona, deixou a porta aberta para o uso de ferramentas de afrouxamento caso seja necessário.

No caso dos juros, o BCE vem mantendo a taxa básica em zero, a taxa de depósitos em -0,4% ao ano e a taxa da linha mantida com bancos comerciais para concessão de liquidez de curto prazo em 0,25% ao ano. Recentemente, o banco sinalizou que os juros serão elevados em 2020, ante previsão anterior de alta no final de 2019.

“Não esperamos que Lagarde seja mais dovish ou mais dura. Notamos, no entanto, que o FMI geralmente apoia a abordagem mais ativa do BCE, ao mesmo tempo em que enfatiza os riscos para a estabilidade financeira de manter juros baixos por mais tempo”, disse o economista sênior para a Europa do Société Génerale, Anatoli Annenkov.

Ele lembra ainda que Lagarde será apenas um dos 21 membros votantes no conselho do BCE. “Por isso vemos poucas chances de a política do BCE mudar substancialmente devido à sua chegada”, acrescentou.

AS BOAS-VINDAS DO MERCADO

No mercado de câmbio, o euro pouco se moveu ante o dólar norte americano desde o anúncio de que Lagarde pode comandar o BCE. Segundo os especialistas, esse comportamento reflete, em parte, o fato de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter indicado no mesmo dia dois membros ao conselho do Federal Reserve (Fed, o banco central norte americano) que provavelmente acelerarão a mudança para o afrouxamento da política monetária dos Estados Unidos.

No entanto, no mercado de dívida europeu houve muito mais reação. Os juros dos títulos de dívida de dez anos do governo francês e do governo espanhol caíram cerca de 0,05 ponto percentual (pp), enquanto na Itália a queda foi superior a 0,20 pp.

“Em nossa opinião, a reação positiva do mercado de títulos se deve ao fato de que as perspectivas para a política monetária não mudarão muito sob a administração de Lagarde. Portanto, sugere que não haverá como evitar novos estímulos este ano na região”, acrescentou Barochez, da Capital Economics.

VIÉS POLITICO NO BCE

Apesar da boa receptividade do mercado a Lagarde no BCE, sua formação, com grande influência política, é vista com cautela. O estrategista chefe do Rabobank, Elwin de Groot, acredita que, por Lagarde ter formação de advogada e já ter ocupado o cargo de ministra das Finanças da França, sua familiaridade com a política monetária não é ampla.

“Seu passado político traz experiência à mesa, mas também certos riscos, uma vez que poderia acabar com qualquer recomendação ao estilo Draghi para políticas nacionais e europeias ou comprometer a independência do BCE. Ao mesmo tempo, sabendo disso, poderia fazer Lagarde se sentir mais pressionada a forjar certas decisões politicamente sensíveis”, afirmou De Groot.

“Mas parece justo supor que sua nomeação significará uma continuação da postura dovish do BCE sob o comando de [Mario] Draghi. Podemos dizer agora que, no mínimo, a sua indicação retirou quaisquer preocupações no mercado de que o BCE assumiria uma direção mais dura sob a nova presidência”, acrescentou.

Segundo a economista chefe da Nordea, Tuuli Koivu, a postura de Largade em relação à política monetária ainda é desconhecida. “Muitos analistas acreditam que ela dependerá mais da análise que a equipe do Eurosistema fornecerá. O sistema de tomada de decisão coletiva do conselho do BCE reforça ainda mais a opinião de que Lagarde não irá alterar a linha geral do BCE nas primeiras reuniões, pelo menos se não houver surpresas econômicas”, afirmou.

Koivu acredita ainda que o papel do economista-chefe do BCE, Philip Lane, e do chefe de operações de mercado, Benoit Coeuré, que permanece no cargo até o final de 2019, pode aumentar.

UMA MULHER FRENTE A CRISES

Lagarde se tornou a primeira diretora gerente do FMI em julho de 2011 em meio a duas grandes crises. A primeira era econômica: a crise da dívida europeia estava em alta e o FMI era um ator central em uma série de resgates financeiros. Ela liderou o fundo por meio de importantes programas de resgate na Grécia e atuou na sustentação da economia argentina.

A segunda crise teve a ver com a liderança do próprio FMI: o antecessor de Lagarde, Dominique Strauss-Kahn, renunciou após ser acusado de agredir sexualmente uma empregada de hotel. Ela ajudou a estabelecer a organização como uma voz orientadora da ordem internacional. Lagarde foi reconduzida a um segundo mandato de cinco anos em 2016, sem oposição.

Durante seu mandato de oito anos, Lagarde ampliou o trabalho do FMI, pressionando seus programas e análises de países para incluir questões como a desigualdade de renda e a força de trabalho das mulheres em suas avaliações do progresso de uma economia.

“Lagarde sempre esteve na lista de candidatos [ao BCE], mas não entre os
favoritos. Depois que a questão sobre o equilíbrio de gênero foi trazida à
mesa, sua indicação deixou de ser uma surpresa”, disse Koivu, da Nordea.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com