Setor siderúrgico prepara missão para evitar taxação dos EUA

08/02/2018 15:58:50

Por: Danielle Fonseca / Agência CMA

Bobinas de aço. (Gregor Schläger/Worldsteel)

São Paulo – O setor siderúrgico mundial segue sob a ameaça de que os Estados Unidos possa taxar o aço importado, porém, a esperança de entidades como o Instituto Aço Brasil (IABr) é que o presidente norte-americano, Donald Trump, possa sofrer resistência dentro do próprio país e não coloque barreiras significativas ao produto. Para tentar ainda excluir o Brasil de uma possível medida, o IABr segue tentando levar uma nova missão aos Estados Unidos este mês.

No último dia 12 de janeiro, o Departamento de Comercio norte-americano finalizou um relatório que investigou se as importações de aço ameaçam a segurança dos Estados Unidos e o enviou ao Trump, que está dentro do prazo de 90 dias para decidir sobre a questão. Barreiras ao produto estão sendo analisadas dentro do âmbito do artigo 232 da Lei de Expansão Comercial, de 1962, que outorga ao chefe de Estado do país autoridade para impedir a entrada de certos produtos por razões de segurança nacional.

“Apesar do 232, no fundo o governo norte-americano quer fechar o seu mercado para proteger a indústria, mas o Brasil não é parte deste problema, já que mais de 80% das nossas exportações de aço para o país são de semiacabados, que são usados e ainda processados pela indústria norte-americana”, argumenta o presidente do IABr, Marco Polo de Mello Lopes.

Em 2017, o Brasil exportou 15,353 milhões de toneladas de aço, sendo que desse total, a maior parte, 9,757 milhões, são de semiacabados, e um dos principais destinos é os Estados Unidos.

O presidente da entidade lembra que já tentaram argumentar pela exclusão do Brasil de eventuais medidas em setembro do ano passado, quando o IABr promoveu uma visita aos Estados Unidos que contou com representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) e de empresários brasileiros. A missão participou de uma série de reuniões com representantes do congresso norte-americano e entidades de produtores e consumidores de aço do país.

Também houve uma tentativa de articular junto ao governo brasileiro uma nova missão em outubro de 2017, mas que não ocorreu por problemas de agenda.

Com isso, a previsão é que isso possa ocorrer agora em fevereiro. “Estamos tentando consolidar uma segunda ida com o ministro [do Mdic] para conversar com Wilbur Ross [secretário de comercio norte-americano]”, contou Lopes à Agência CMA.

Apesar dos esforços do setor no Brasil, o presidente do IABr tem esperança de que Trump desista de colocar barreiras contra o aço ou coloque barreiras menos agressivas diante da pressão de indústrias locais que precisam importar aço e do receio de retaliação de outros países, principalmente da China.

É o que ressalta o diretor superintendente da consultoria especializada em comércio exterior Barral M Jorge, Wagner Parente. Na avaliação dele, a China seria a primeira a retaliar os Estados Unidos no caso de novas medidas contra o aço e barraria produtos norte-americanos. “Há muito espaço para os chineses retaliarem, seja em produtos agrícolas, como carne, ou em manufaturados, como em áreas como aviação”, afirmou.

Outra possível consequência seria algum país questionar a decisão na Organização Mundial de Comércio (OMC), que abrira uma consulta sobre a questão e poderia resultar na abertura de um painel.

Para evitar grandes reflexos, Parente avalia que Trump pode optar também por colocar barreira somente sobre o aço importado de determinados países e escolher o tipo de barreira, seja uma sobretaxa, sejam cotas, entre outras ações. Porém, destaca que o presidente tem adotado uma postura claramente protecionista e historicamente o setor siderúrgico é alvo de medidas como antidumping.

Segundo um estudo do IABr, os produtos siderúrgicos são alvo de um terço das medidas de defesa comercial no mundo e esse movimento pode continuar ocorrendo, já que ainda há um excedente de aço no mundo, mesmo com a China, maior produtor mundial, tendo reduzido sua produção recentemente em função de regras antipoluição.

Para os analistas do banco UBS, Andreas Bokkenheuser e Marcio Farid, a aposta é que a China voltará a aumentar as exportações de aço ao longo de 2018. “Nossa equipe na China espera que as exportações de aço cresçam novamente este ano conforme a demanda por aço no país decline moderadamente”, afirmaram. A previsão é que ocorra uma desaceleração do setor de construção chinês e aumento da oferta no mundo, o que ainda pode refletir nos preços do produto.

Edição: Eduardo Puccioni (e.puccioni@cma.com.br)

 

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