Sem Merkel na CDU, Alemanha pode ter eleições em 2019

14/11/2018 13:47:38

Por: Paulo Jaschke / Agência CMA

Angela Merkel, chanceler alemã (Divulgação/Conselho da União Europeia)

São Paulo — A saída de Angela Merkel da presidência de seu partido, a União Democrata Cristã (CDU, na sigla em alemão), deve desestabilizar o ambiente político da Alemanha e pode provocar novas eleições já em 2019, caso a chanceler decida deixar também seu posto no governo antes do fim do mandato.

Merkel anunciou em outubro que não buscará a reeleição como presidente da CDU na convenção do partido em dezembro, após uma série de resultados fracos da legenda em eleições estaduais, principalmente na Baviera e em Hesse, coração financeiro da Alemanha.

Na Baviera, os resultados mostraram que a União Social Cristã (CSU, partido coligado à CDU) perdeu a maioria absoluta dos votos, ficando com 37,4%,o pior resultado desde 1950. Em Hesse, por sua vez, a CDU obteve 27% dos votos, onze pontos percentuais a menos do que nas últimas eleições, o que acabou colocando em xeque o futuro da legenda no governo federal.

Os pleitos regionais são um reflexo da perda de popularidade de Merkel iniciada em 2015, quando ela adotou a política de portas abertas para os refugiados, o que culminou no pior desempenho da história da CDU durante as eleições gerais de 2017. Desde então, ela vem governando com uma coalizão frágil com o Partido Social-Democrata, conhecido como SPD.

Apesar de deixar a liderança de seu partido, Merkel afirmou que continuará como chanceler até 2021 e que não concorrerá a nenhum cargo político nas eleições daquele ano. Ainda assim, analistas acreditam que a saída da presidência da CDU, onde ela estava há 18 anos, aumentará a pressão para que ela renuncie também ao cargo de chanceler.

“Não está claro quão bem Merkel trabalharia com um novo líder partidário, principalmente uma vez que o novo líder teria que afastar a nova CDU da figura de Merkel”, afirmou Anatoli Annenkov, analista do banco Société Générale. “Vemos uma alta probabilidade de que Merkel saia do governo antes de 2021, permitindo que o novo líder concorra à próxima eleição segundo seus próprios termos”.

Ralph Solveen, economista do Commerzbank, também prevê que a chanceler abandone o cargo antes das próximas eleições, uma vez que ela disse, no passado, ser contra uma separação entre a liderança do partido e do governo. “A renúncia à presidência do partido é um sinal claro de que o tempo dela como chanceler está chegando ao fim”, afirma ele. “Isso, por sua vez, provavelmente equivale ao fim da grande coalizão em Berlim. O SPD certamente usará a renúncia de Merkel como razão para deixar essa parceria problemática”.

Caso o SPD abandone a coalizão governista, a CDU perderá maioria parlamentar, o que aumenta a instabilidade política e abre três possíveis cenários.

NOVAS ELEIÇÕES

O analista do Commerzbank prevê que com o fim da coalizão e, consequentemente, da maioria parlamentar, Merkel convocará um voto de confiança do Parlamento, que provavelmente teria resultado negativo. Neste caso, o presidente da Alemanha anunciaria novas eleições.

“O resultado de uma eleição antecipada provavelmente seria outro voto dividido e o contínuo crescimento do apoio ao partido de extrema-direita Alternativa para Alemanha (AfD, na sigla em alemão), que representa uma preocupação para a imigração e as políticas de integração da zona do euro”, disse Jennifer McKeown, economista-chefe da Capital Economics para Europa. “No entanto, o AfD não pode governar sozinho e todos os outros partidos já descartaram formar coalizão com ele”.

Ela acrescenta que a CDU e sua legenda coligada CSU provavelmente se manteriam como os maiores partidos, ainda que não tenham maioria absoluta, e poderiam até reconquistar parte do apoio popular se a nova liderança da CDU for bem recebida. O Partido Verde, que tem atraído a maior parte dos votos perdidos pelos outros grupos políticos, pode acabar formando coalizão com a CDU/CSU, uma parceria que, para McKeown, seria mais estável que a atual coalizão com o SPD.

COALIZÃO JAMAICA

Outra possibilidade caso o SPD desembarque do governo é a formação de uma nova coalizão no parlamento atual, sem a necessidade de novas eleições. Os analistas veem grandes chances de parceria entre a CDU, o Partido Verde e o Partido Democrático Liberal (FDP, na sigla em alemão), apelidada de “coalizão Jamaica” uma vez que as cores dos partidos lembram a bandeira do país caribenho.

A última tentativa de formar esta coalização aconteceu após as eleições de 2017, mas acabou não se concretizando. “Os verdes e o FDP parecem dispostos a fazê-lo, embora o líder do FDP, Christian Lindner, tenha declarado, como pré-condição ao acordo, que a liderança do país não pode estar nas mãos de Merkel”, disse Ralph Solveen, do Commerzbank.

“Com Merkel fora, Lindner provavelmente estará mais disposto a juntar-se a tal coalizão, especialmente porque o Partido Verde reduziu o tom de algumas de suas políticas de esquerda e menos favoráveis aos negócios”, acrescenta Anatoli Annenkov, do Société Générale.

A terceira possibilidade prevista é um governo minoritário da CDU/CSU. A constituição alemã permite a nomeação de um chanceler pelo maior partido do parlamento, mesmo sem maioria absoluta, caso nenhum candidato consiga a maioria absoluta dentro de duas semanas. No entanto, o presidente teria que aprovar a indicação e, se ele não o fizer, novas eleições são realizadas. Para Solveen, mesmo com a aprovação, um governo minoritário seria bastante instável e teria dificuldade de se manter no poder até as eleições regulares de 2021.

CANDIDATOS À SUCESSÃO

Outra questão que fica em aberto com a saída de Merkel é escolha de um sucessor para liderar a CDU. Para os analistas, a candidata com maiores chances é Annegret Kramp-Karrenbauer, atual secretária-geral da CDU, considerada braço-direito de Merkel e cujas ideias seguem a mesma linha de pensamento da atual chanceler. “Para muitos, ela representaria uma continuação do estilo político duramente criticado de Merkel”, afirmou Solveen.

Outra possibilidade é o ministro da Saúde, Jens Spahn, representante da ala mais conservadora da CDU, em especial no que diz respeito à imigração. Um terceiro candidato seria Ralph Brinkhaus, líder de um grupo parlamentar, que  segue medidas econômicas parecidas com as de Merkel, como a prudência fiscal, mas que também adotaria postura rígida em relação à imigração.

“Caso haja uma disputa entre Kramp-Karrenbauer e Spahn, suspeito que ela levaria vantagem, especialmente porque a eleição na Baviera mostrou que o endurecimento com a imigração não atrai tantos votos como se esperava”, conclui Annenkov. “Veremos debates intensos nas próximas semanas sobre o rumo que o partido deve tomar, mas suspeitamos que as lições aprendidas com [os avanços do] Partido Verde favoreçam um candidato mais novo e voltado ao centro”.

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