Se inflação subir até 0,48% em dezembro, BC terá de se justificar

08/12/2017 08:00:25

Por: Olívia Bulla / Agência CMA

Presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. (Beto Nociti/BCB)

São Paulo – O comportamento favorável do índice oficial de preços ao consumidor brasileiro (IPCA) em 2017 deve levar o Banco Central a uma situação inusitada. Pode ser a primeira vez desde a adoção do regime de metas de inflação no país que a autoridade monetária terá de escrever uma carta aberta à sociedade justificando porque a meta não foi cumprida e ficou abaixo do limite inferior de tolerância, de 3%.

Dados divulgados hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o IPCA acumula altas de 2,50% no ano e de 2,80% nos últimos  12 meses, até novembro. O resultado acumulado nos 11 primeiros meses de 2017 é o menor para o período desde 1998 (+1,32%), ao passo que é a quinta vez consecutiva que o indicador acumulado em 12 meses ficou abaixo de 3%.

Cálculos de economistas consultados pela Agência CMA mostram que se o IPCA subir até 0,48% em dezembro, o indicador encerrará o ano em 2,99%. “Se subir 0,49%, dá alta de 3% no ano”, prevê o economista sênior do Banco Haitong, Flavio Serrano.

O economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, também avalia que a alta do IPCA neste mês precisa ser inferior a 0,49% para que o indicador feche
o ano abaixo de 3%. “Provavelmente, o BC terá de escrever uma carta dizendo porque não cortou mais os juros”, diz, acrescentando que a expectativa de alta do IPCA neste mês é de 0,34%.

No mais recente levantamento do Banco Central junto ao mercado financeiro, a Pesquisa Focus apontou estimativa de 0,42% para o IPCA em dezembro, o que resultaria em uma alta acumulada de 3,03% em 2017. Porém, o resultado de novembro do indicador, divulgado hoje, ficou abaixo do esperado e deve provocar revisões nessas estimativas nos próximos relatórios. No mês passado, o IPCA desacelerou a 0,28%, ante previsão de +0,35%, conforme o Termômetro CMA.

A última vez que o BC teve de escrever uma carta aberta justificando o descumprimento das metas de inflação foi em 2015, quando o IPCA acumulado foi de 10,67%, bem acima do centro da meta, de 4,5%, e também do limite superior da banda de oscilação, de 6,5%. Segundo dados do BC, desde 1999, em apenas três vezes o resultado da inflação acumulada ficou próximo ao ponto central da meta (2000, 2007 e 2009).

Em todos os demais anos, a inflação encerrou o período acumulado acima da meta, sendo que em quatro deles (2002, 2003, 2004 e 2016) chegou a superar o teto vigente no ano. Para a equipe econômica do Santander, o “ineditismo” de uma carta aberta para justificar uma inflação abaixo do combinado sugere que a sociedade tem algo a aprender com a situação. “Num sistema de metas, eventuais erros não deveriam ocorrer apenas em uma direção, pois a inflação também pode surpreender para baixo”, dizem em relatório.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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