Sanções ao Irã são estratégia de pressão arriscada, dizem especialistas

Por Carolina Pulice

Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo. Foto: State Department photo/ Public Domain

São Paulo – As sanções dos Estados Unidos contra o Irã são uma ameaça para o mercado de petróleo e comprometem a habilidade norte-americana de negociação com Teerã, segundo especialistas consultados pela Agência CMA.

“Essas sanções têm um alto risco de complicar as disputas e os mercados”, afirmou o pesquisador do Instituto Kroc para Estudos de Paz Internacional, George Lopez, que afirmou ainda que a política pode parecer um pouco ingênua, especialmente em relação a um país que já é afetado há décadas por sanções.

Mais cedo, o Departamento de Estado norte-americano anunciou o fim das isenções concedidas a oito países para a importação de petróleo do Irã, endurecendo as sanções econômicas como parte da campanha de pressão máxima contra Teerã.

As isenções, que expirariam no dia 2 de maio, fazem parte de uma série de medidas adotadas com o intuito de fazer o governo iraniano a voltar a negociar o fim de suas atividades nucleares. Os maiores compradores de petróleo iraniano e que podem ser os potenciais afetados pela decisão são China e India, seguidos de Japão, Coreia do Sul, Itália, Grécia, Turquia e Taiwan.

“Quais são os incentivos que a China e a Turquia têm para interromper as compras do petróleo iraniano? A China já está irritada com a guerra comercial com os Estados Unidos, enquanto a Turquia está em conflito com o Washington por conta da compra de um sistema de defesa da Rússia”, afirmou Lopez.

Em novembro, o governo norte-americano anunciou que daria 180 dias para que os oito países começassem a procurar fontes alternativas ao petróleo iraniano. A decisão de abandonar o pacto ocorreu meses após os Estados Unidos terem saído do acordo nuclear de 2015 – assinado por Irã e outras cinco potências mundiais -, com o objetivo de aliviar as sanções sobre Teerã em troca do fim das atividades nucleares.

O VALOR DO BOICOTE

De acordo com estimativas do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, as sanções custaram mais de US$ 10 bilhões ao Irã. “Antes de nossas sanções terem sido efetivadas, o Irã gerava mais de US$ 50 bilhões por ano com receitas de petróleo”, disse Pompeo mais cedo. “Hoje, estimamos que as sanções negaram ao regime a quantia de mais de US$ 10 bilhões”, acrescentou.

Para o especialista em teoria e práticas de comércio internacional, Maarten Smeets, o impacto econômico do boicote ao petróleo iraniano é considerável. “Compras de petróleo e gás são importantes atores nas variáveis macroeconômicas do país e, em última instância, no sistema político”, afirmou. “Uma redução dessas compras criam custos econômicos que atuam como incentivos em direção a um comando mais democrático”, acrescentou.

De acordo Smeets, que cita dados do governo norte-americano, a economia iraniana encolheu entre 15% e 20% com a imposição de sanções em 2012. Além disso, a campanha de sanções liderada pelos Estados Unidos entre janeiro de 2012 e janeiro de 2014 resultou na recessão iraniana, na desvalorização da moeda local e em uma taxa de desemprego de mais de 20%.

Apesar dos impactos econômicos, não foi possível ver uma abertura do governo iraniano para negociações. “As condições econômicas foram seriamente deterioradas, mas continua difícil dizer a extensão da contribuição das sanções para trazer o Irã de voltar para a mesa”, concluiu Smeets.