Risco do Brexit aumentou, mas acordo ainda é provável

03/10/2018 15:52:18

Por: Pâmela Reis / Agência CMA

(Foto: freestocks.org/Flickr)

São Paulo – As chances de que o Reino Unido se separe da União Europeia (UE) sem um acordo para reger os termos do divórcio e a futura relação bilateral aumentaram significativamente, uma vez que a proposta britânica para o pacto foi recusada pelos parceiros europeus. Ainda assim, a maior parte nos analistas acredita que alguma espécie de separação negociada deva prevalecer, ainda que ela não amorteça todos os impactos econômicos que serão causados pelo “Brexit”.

Em setembro, a primeira-ministra britânica, Theresa May, afirmou que as negociações com a UE chegaram a um impasse. Numa cúpula de líderes europeus em Salzburg ela apresentou as propostas do seu país para finalizar o acordo, mas o plano foi rejeitado pelos membros do Conselho Europeu – grupo de presidentes e primeiros-ministros da UE -, que não aceitaram pontos ligados à futura relação comercial.

Ao sair do bloco europeu, o Reino Unido deixará de fazer parte do mercado único, onde transitam livremente bens, serviços, pessoas e capitais. Londres quer um acordo de livre-comércio que mantenha a maior parte de seu acesso a este mercado, mas os europeus insistem que não é possível desfrutar da livre circulação de bens e serviços sem aceitar a livre circulação de pessoas algo que o Reino Unido quer barrar.

A situação das duas Irlandas é outro ponto problemático. A Irlanda do Norte é parte do Reino Unido e deve sair da UE, enquanto a República da Irlanda pertence ao bloco europeu. Os dois países dividem a mesma ilha e não há fronteira física entre eles, como parte de um acordo de paz que encerrou o conflito civil na região. Nem britânicos nem europeus querem construir uma nova fronteira, mas os dois lados não se entendem sobre como controlar o fluxo entre os países no futuro.

Tanto europeus quanto britânicos estipularam outubro como prazo para finalizar as negociações, a tempo de que um acordo seja ratificado pelos respectivos parlamentos antes de março de 2019, data oficial da separação. O próximo encontro do Conselho Europeu acontece em 18 de outubro, mas após o impasse travado em Salzburg os líderes já preveem uma reunião extraordinária em novembro para finalizar o pacto. Os economistas, por sua vez, preveem uma conclusão apenas dezembro, na última reunião do ano.

“A probabilidade de uma saída sem acordo aumentou para cerca de 40%”, disse Michael Hewson, analista-chefe da CMC Markets. “Não apenas esse evento seria altamente perturbador, como também não teria um resultado binário. As consequências seriam ruins para a economia britânica, mas também seriam significativas para França, Alemanha e Irlanda, que fazem comércio com os britânicos”.

TRÊS CENÁRIOS

Brian Hilliard, economista-chefe do banco Société Générale no Reino Unido, traça três quadros possíveis para a separação: um “soft Brexit”, que significa uma saída tranquila com acordo entre as partes; um “hard Brexit” que significa um acordo parcial, englobando o comércio de bens, mas com lacunas na parte de serviços; e um rompimento total, sem acordo, depois do qual os dois lados passariam a negociar sob as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Hilliard chama este cenário, considerado o mais grave, de “Brexit OMC”.

“Vemos probabilidade de 80% de que haja algum acordo e de que ele seja ratificado pelos parlamentos. Esperamos que o resultado final seja uma forma de união alfandegária para bens uma associação mais frouxa em serviços”, afirma ele em relatório sobre o Brexit.

Raj Badiani, diretor econômico da IHS Markit na Europa, corrobora esta previsão, mas alerta que um acordo excluindo serviços seria muito preocupante, já que o setor de serviços representa 80% da economia do Reino Unido. Ele afirma que a probabilidade de um rompimento total, sem nenhum acordo, subiu de 20% para 25% depois da rejeição do plano de May.

Hilliard acrescenta que a primeira-ministra terá que equilibrar dois fatores complexos e diretamente opostos. “O maior risco vem da votação no Parlamento Britânico. Quanto mais Theresa May ceder nas negociações com os europeus, maiores as chances de ela conseguir um acordo, mas mais difícil será convencer o parlamento a aprová-lo”, afirmou.

IMPACTOS ECONÔMICOS

Caso o cenário mais pessimista se concretize e o pacto não seja alcançado, todos os economistas preveem um impacto significativo na economia britânica, incluindo a possibilidade de uma recessão. “Se o Reino Unido romper com a UE, o efeito seria súbito e dramático. Neste caso, esperamos que o Banco da Inglaterra (BoE) responda rapidamente com afrouxamento monetário”, prevê Hilliard.

Os economistas projetam mais depreciação da libra esterlina, embora a moeda já tenha perdido valor desde o plebiscito em 2016, o que poderia alimentar a inflação britânica. Raj Badiani calcula depreciação de 15% no valor da libra no primeiro ano após o Brexit sem acordo, seguido de 5% no segundo ano.

Ele também alerta que o país pode enfrentar escassez significativa de bens duráveis e não-duráveis devido aos problemas que surgiriam nos portos, por onde passa 95% do comércio internacional do Reino Unido. Além disso, os britânicos enfrentariam novas tarifas a 90% dos bens exportados para a UE.

Vale destacar que em um ambiente de crescente protecionismo, seria mais difícil para o Reino Unido negociar rapidamente acordos comerciais com outros países, a fim de compensar a redução do comércio com a UE.

“Esperamos que a economia fique em recessão ao longo de 2020 e 2021 na ausência de um acordo, com a maior queda do Produto Interno Bruto (PIB) sendo de cerca de 3,0% em meados de 2020”, afirmou Badiani. “Até o último trimestre de 2021, o BoE deve cortar sua taxa referencial dos 0,75% atuais para 0,25%, e depois deve passar a aumentá-la progressivamente”.

NOVO PLEBISCITO?

Diante destes riscos, os economistas acreditam que europeus e britânicos acabarão cedendo. “Os custos econômicos de um Brexit sem acordo estão se tornando cada vez mais aparentes para os dois lados, o que significa que concessões provavelmente serão feitas”, disse James Knightley, economista-chefe internacional do banco ING.

O medo das consequências fez ressurgirem entre os membros do Partido Trabalhista, que faz oposição ao governo, pedidos de um novo plebiscito. A ideia seria convocar nova votação caso o governo atual não consiga fechar o acordo. No entanto, os analistas acreditam que um pleito neste momento é altamente improvável.

“A legislação para o primeiro plebiscito levou seis meses para ficar pronta e, depois, uma campanha ainda precisa ser organizada. Se houvesse um novo plebiscito, o voto só aconteceria depois que já estivéssemos fora da UE [isto é, depois de março de 2019]”, disse Hilliard, do Société Générale.

Os analistas também questionam qual seria a pergunta feita pelo plebiscito. Haveria uma opção de permanecer na UE? Ou a população votaria apenas sobre o tipo de Brexit que prefere: um mais ameno, com amplas concessões à UE, ou um Brexit brusco, com rompimento total?

E o mais grave, acrescenta Michael Hewson, da CMC: “O que aconteceria se o novo plebiscito não tiver o resultado que os políticos querem?”. Certamente, um novo voto popular a favor do Brexit complicaria ainda mais a posição dos britânicos, e isso em um cenário sem acordo e a poucos meses do rompimento efetivo com o bloco europeu.

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