Reserva cambial é seguro e redução gera risco, diz Campos Neto

Por Gustavo Nicoletta e Priscilla Oliveira

O novo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, durante cerimônia de transmissão de cargo. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

São Paulo – A reserva cambial do Brasil funciona como um seguro para o País e a redução dela traria um risco que precisa ser avaliado antes de qualquer decisão neste sentido, afirmou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

“Eu costumo mencionar que as reservas foram um seguro muito importante para o País. Quando começou o movimento de normalização de juros, medo de que juros no mundo desenvolvido fossem subir, extração de liquidez de emergentes como o Brasil, os países com poucas reservas foram os primeiros a sofrer”, disse ele em audiência na Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso.

Ele afirmou que o custo de manter este seguro para o Brasil está em níveis mínimos e que, nos últimos 10 anos, o País na verdade ganhou dinheiro com as reservas, principalmente por causa da valorização dos ativos mantidos pelo BC com esta finalidade.

“O custo da reserva é um quarto do que era”, disse ele, referindo-se ao diferencial entre os juros que o Brasil recebe em dólares pela manutenção das reservas internacionais e os juros que o País paga na emissão das próprias dívidas.

“Imagina que a reserva é um seguro de carro e que vocês pagassem R$ 1.000. Imagina que o seguro foi para R$ 200. Para não renovar o seguro, tem que ter muita certeza que o risco de sinistro caiu muito. O seguro está muito mais barato e temos que avaliar o quanto vale para nós em termos de seguro e o quanto vale para nós pagar o custo de carregamento”, avaliou.

Em relação ao questionamento sobre porque o governo não usava as reservas cambiais para cobrir parte do rombo da Previdência, Campos Neto afirmou que isso reduziria a credibilidade do governo e do BC rapidamente. “Seria uma forma rápida e ligeira de perder credibilidade. Não podemos tomar solução de saída fácil”.

REFORMAS

O presidente do BC também disse que os agentes econômicos estão esperando as reformas econômicas prometidas durante a campanha eleitoral – entre elas medidas que ajustem o quadro fiscal e tributário – para fazer investimentos e, com isso, reativar a economia.

“O mercado está nesse processo de esperar as reformas. Não só fiscal, como de produtividade, tributária. Viemos de um mundo de grandes incertezas no ano passado, mas não conseguimos nos livrar das incertezas. Continuam no ar. Isso explica um pouco o adiamento da decisão de investir”, disse Campos Neto.

Ele ressaltou que o tripé macroeconômico dita a necessidade de câmbio flutuante e metas de inflação – algo que está sob o controle do Banco Central – e uma política fiscal saudável – eixo que depende essencialmente do controle do orçamento, algo relegado ao Congresso e ao Poder Executivo.

Segundo Campos Neto, reformas como a da Previdência ajudariam a corrigir a trajetória fiscal brasileira – que é negativa porque o país ainda gasta muito mais do que recebe. “Ninguém gosta de emprestar dinheiro para quem não paga a conta”, disse o presidente do BC.

COMPROMISSADAS

Segundo Campos Neto, o BC está em busca de alternativas para diversificar as operações compromissadas, e uma delas poderia ser a utilização dos depósitos remunerados – quando os bancos recebem uma remuneração por deixar o dinheiro parado no Banco Central.

O presidente também ressaltou que uma inflação controlada é o “melhor caminho” para uma expansão estável da economia brasileira e que permitir uma inflação alta em troca de crescimento da atividade é algo que não funciona.

CENÁRIO ECONÔMICO

Durante a audiência na CMO, Campos Neto repetiu a avaliação econômica apresentada na última ata do Copom, divulgada na terça-feira. Segundo ele, o cenário externo permanece desafiador, mas apesar das incertezas o Brasil tem capacidade de absorver possíveis revezes no cenário internacional.

Ele disse que a economia brasileira sofreu diversos choques ao longo de 2018 e, apesar destes choques, o BC teve atuação firma e transparente possibilitando a manutenção dos mercados e o amortecimento dos impactos desses choques sobre os preços permitindo a consolidação da inflação em torno da meta, a manutenção da taxa de juros em níveis baixos e a expectativa de retomada de crescimento da economia.

Campos Neto ressaltou que os choques de 2018 ainda refletem hoje na economia e que a incerteza em relação ao futuro – especialmente a aprovação das reformas propostas pelo governo no Congresso – também afetam a atividade econômica, o que fez com que o processo de recuperação da economia tivesse uma parada.

“Avaliamos que o processo de recuperação gradual da atividade econômica sofreu interrupção no período recente, mas o cenário básico do BC contempla sua retomada adiante. Essa hipótese se sustenta, entre outros fatores, no crescimento da confiança empresarial, medida pela Fundação Getulio Vargas – FGV, na tendência gradual de recuperação do investimento, conforme indicam dados do IBGE, no patamar estimulativo da política monetária e na recuperação observada no mercado de crédito”, declarou.