Queda de juros ainda não estimula economia real

15/02/2017 12:03:55

Por: Olívia Bulla / Agência CMA

Comitê de Política Monetária (Copom). (Foto: Beto Nociti/BCB)

Comitê de Política Monetária (Copom). (Foto: Beto Nociti/BCB)

São Paulo – O ciclo de queda da taxa básica de juros, iniciado em outubro de 2016, deve ter continuidade neste mês. Mas enquanto a perspectiva de que a Selic chegará a um dígito ao final do ano agita as apostas entre os investidores, essa estimativa de juro menor ainda não se reflete na atividade, adiando para 2018 uma melhora firme da economia.

O presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, explica que essa visão ocorre porque os rendimentos financeiros seguem mais atrativos que os retornos produtivos.

“Enquanto não cruzar a curva do retorno do recurso depositado no banco com o da atividade produtiva, o dinheiro fica no banco”, diz. Velloso cita como exemplo as aplicações em Certificados de Depósitos Bancários (CDB), que hoje rendem praticamente igual à Selic, em 13%. “Enquanto a atividade industrial brasileira não der esse resultado, o dinheiro fica no CDB até o CDB não valer a pena”, completa.

O executivo avalia que o “remédio” que vem sendo usado hoje para controlar a inflação é muito mais amargo do que a dose que era dada quando a inflação estava desenfreada e chegou a superar 10,5%, em 2015. “Naquela época, o remédio utilizado foi uma Selic de 14,25%, o que dava um juro real em torno de 3,5%”, lembra.

Hoje, com a inflação em queda e controlada, rumo à convergência ao centro da meta de 4,5% ao final deste ano, o Banco Central está com uma dose de 8% de juro real, o que representa mais que o dobro. “E isso atrapalha o crescimento econômico”, conclui.

No mercado financeiro, esse discurso do setor produtivo encontra alguma ressonância. Para o consultor de investimentos da Terra Investimentos, Antenor Leão, os rendimentos em títulos públicos ainda atraem mais capital do que os investimentos na economia real. “O juro real chama mais a atenção do investidor”, resume.

Para ele, apenas quando a taxa Selic chegar próxima a 10%, o que daria um juro real ao redor do nível “neutro”, de 5%, é que os recursos podem migrar para a atividade. Nesse cenário, o investidor passa a fazer um prognóstico melhor somente a partir do ano que vem, contanto que haja um encaminhamento das reformas estruturais.

Por ora, o mesmo cenário menos otimista na indústria é observado também no comércio. Segundo a assessora econômica da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Júlia Ximenes, o segmento deve ser um dos últimos a refletir a queda da inflação e dos juros, por causa da recuperação lenta do emprego e da renda.

“A recessão forte e o desemprego alto levaram a uma restrição no consumo das famílias, que passaram a priorizar bens essenciais”, explica. Para ela, o consumidor “talvez” ainda não esteja sentindo o recuo dos preços, pois a alta em itens com grande peso no orçamento doméstico, como feijão e combustíveis, “ainda preocupa”.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

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