Previdência e exterior podem levar dólar a patamar inédito

Por Flávya Pereira

São Paulo – Há um mês, o dólar se sustenta acima do nível de R$ 3,90, chegando a romper o patamar de R$ 4,00 por três vezes neste período exibindo a força do dólar frente a moeda local. Em meio a eventos externos e internos, economistas começam a traçar o caminho da moeda estrangeira em um ambiente de incertezas com a reforma da Previdência e apostam que, sem aprová-la, o dólar pode chegar a níveis nunca vistos antes.

Para os analistas, é importante considerar o impacto fiscal que o texto aprovado causará, uma vez que a equipe econômica do governo promete economia de R$ 1,0 trilhão em 10 anos. “O razoável seria uma economia em torno de R$ 700 a R$ 800 bilhões. Se a proposta for aprovada até agosto com esse valor, há espaço para recuos no preço chegando a R$ 3,70 com a entrada imediata de investimentos. Caso contrário, a gente pode testar níveis ainda não vistos no câmbio”, avalia o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo.

Considerando o mesmo montante, o economista da Tendências Consultoria, Sílvio Campos, acredita em uma reação bastante favorável do mercado, o que poderia levar o câmbio para a faixa de R$ 3,60. “Porém, se o texto remanescente levar a uma economia abaixo de R$ 500 bilhões, os mercados devem reagir de forma neutra, sem uma melhora em relação ao quadro atual”, aposta.

Segundo o economista da Órama, o atual patamar do dólar, que oscila entre R$ 3,90 e R$ 4,00 desde 16 de abril, é sustentado por ruídos vindos da base do governo de Jair Bolsonaro, pelo clima de “arquibancada” em relação à tramitação da reforma da Previdência no Congresso Nacional e a “clara” falta de articulação do governo em relação a proposta de reforma, além de eventos externos. “A situação global e a percepção de que a reforma será bem mais difícil de ser aprovada do que se esperava levaram o dólar a R$ 3,90”, comenta.

Porém, não são apenas os conflitos domésticos que pesam nos negócios. O acirramento na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China deixa investidores apreensivos e corrobora para a sustentação da moeda no atual nível.

Na semana passada, os Estados Unidos aplicaram sobretaxas à US$ 200 bilhões em bens chineses, elevando a alíquota de 10% para 25%. O presidente norte-americano Donald Trump declarou que a China recuou do acordo firmado entre os países e que retaliações “piorariam a situação”. O governo chinês respondeu aos Estados Unidos anunciando que elevará taxas em até 25% sobre US$ 60 bilhões de produtos chineses a partir de junho.

“A gente ainda está sem saber se Trump está blefando, se a situação entre eles e a China está bem ou não. Porque se a relação deles piorar, a situação da economia global vai mudar e será para pior”, alerta Espírito Santo. Campos ressalta que a volta das tensões comerciais entre as duas maiores economias globais eleva a aversão ao risco e prejudica ativos de países emergentes.

“Para o curto prazo, a tendência é que o câmbio siga pressionado por essas razões. Por aqui, as incertezas em volta da Previdência, principalmente, o receio com uma diluição excessiva da proposta, devem manter os investidores cautelosos e o dólar deve seguir nas proximidades de R$ 4,00 por alguns dias ou semanas. A relação entre Estados Unidos e China seguirá no foco, sendo um direcionador fundamental dos ativos,”, reforça o economista da Tendências.

A expectativa em torno da aprovação da Previdência é alta e o mercado é enfático em defender uma “boa reforma”. Para Campos, será pouco provável um cenário de melhoras sem a reforma, e o cenário pode piorar com uma eventual saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, em caso de “fracasso do governo em aprovar a medida”.

Espírito Santo lembra que os indicadores de atividade e a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) também devem ser observados. Nesta semana, o Boletim Focus do Banco Central (BC) reduziu a estimativa para o crescimento da economia brasileira pela décima primeira vez seguida apostando em alta de 1,45% ao fim de 2019.

Segundo ele, se os investidores estrangeiros começarem a perceber que o PIB ficará fraco tendo chance de uma recessão em 2020, “ninguém vai querer investir aqui, mesmo que a gente tenha reserva cambial alta. O dólar ficará ainda mais pressionado”, diz. Para Campos, se crescer a percepção de fracasso na reforma da Previdência, ou apostas de uma reforma excessivamente diluída, não haverá meios de evitar uma reprecificação dos ativos.

“No câmbio, o limite será dado pela posição sólida das contas externas brasileiras e pelo sentimento de que, apesar do problema fiscal ligado à uma reforma fraca ou à ausência dela, ao menos a gestão macroeconômica tende a seguir responsável. A taxa deverá permanecer acima de R$ 4,00, mas sem uma alta desordenada”, aposta.

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