Presidente avesso a reformas prejudicaria política de juros

30/07/2018 16:29:06

Por: Priscilla Oliveira, com colaboração de Flávya Pereira / Agência CMA

Brasília – O mercado não se preocupa, agora, com uma mudança no atual patamar dos juros. Ao que tudo indica, o Comitê de Política Monetária (Copom) manterá a Selic inalterada na próxima quarta-feira. Os investidores, com receio, se atentam ao cenário eleitoral, avaliando negativamente a ideia de alguns candidatos de zerar o déficit fiscal em dois anos, o que faria disparar a inflação.

Com maior pessimismo ainda observam a possibilidade de eleição de um nome avesso às reformas econômicas, principalmente as que buscam equilibrar as contas públicas, o que pode desestabilizar a política de juros do Banco Central, avaliam alguns especialistas.

Atualmente, o mercado financeiro vê com bons olhos a atuação do Banco Central, sob o comando do presidente Ilan Goldfajn, sobre a política de juros, já que hoje a Selic está em sua mínima histórica, em 6,5% ao ano. Desde que Goldfajn assumiu o BC, em junho de 2016 – a Selic estava em 14,25% aa -, os juros caíram 7,75 pontos percentuais (pp).

Na avaliação dos analistas entrevistados pela Agência CMA, um governo descompromissado com o ajuste fiscal pode até jogar uma “pá de cal” na retomada lenta da economia brasileira, após anos de recessão, no entanto, o caminho, segundo eles não é zerar a conta tão rapidamente.

A ideia dos planos de governo de Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), mas na avaliação do mercado o discurso de pressa do peessedebista na aprovação das medidas de ajuste econômico, além do apoio dos partidos do “centrão” – DEM, PP, PR, PRB, Solidariedade, PHS e Avante, que representam um quinto do Congresso Nacional, de longe, agrada muito mais.

Os analistas consideram Alckmin como o menos prejudicial para a política monetária do País. Para o analista da H.Commcor, Cleber Alessie, “embora ele seja da velha e boa política, o que não é visto com bons olhos, ele é mais favorável às reformas, o que muito agrada o mercado, principalmente, no que diz respeito à Previdência e ao ajuste fiscal – lembrando que na campanha o tucano promete aprovar a reforma nos seis primeiros meses e (também) zerar o déficit fiscal em dois anos”, afirmou.

Na avaliação do economista chefe da Austing Ratins, Alex Agostini, é impossível zerar o déficit primário em dois anos. “Não tem como quitar a dívida… O Brasil tem 90% do seu orçamento já comprometido com despesas obrigatórias, sobra um pouco menos de 10% que são as despesas discricionárias, que ele gasta em investimentos, por exemplo, e não tem como tirar (o pagamento) disso porque hoje a dívida é de R$ 3,6 trilhões”, pontua.

“Do total do orçamento para 2019, aprovado recentemente, sobram R$ 99,0 bilhões que são as discricionárias… Qual é a mágica que ele vai fazer para quitar uma dívida de 3,6 trilhões, com R$ 99,0 bilhões? Não paga nem 1% com isso… É impossível quitar em 2 anos. A dívida é três vezes maior que o valor do orçamento”, pondera. Entre Alckmin e Ciro, ele vê o pedetista como o candidato “mais tóxico”.

“Ciro Gomes é o candidato que mais preocupa em relação à estabilidade do ambiente macroeconômico, porque ele disse diversas vezes que não há crise fiscal. Além disso, afirmou que quitaria a dívida pública em dois anos, o que é complicado e pode gerar uma alta significativa da inflação”, afirmou Agostini.

O economista explica que não fazer o ajuste fiscal correto agrava o cenário das expectativas e desarranja as variáveis, como o dólar, a bolsa de valores e o mercado de juros futuros. “Se for eleito alguém mais voltado para as reformas, que siga a cartilha ortodoxa, a tendência é que o cenário de hoje seja consolidado e uma alta nos juros não fugiria da nossa projeção para 2019, de (até) 8,5%, seria um ajuste gradativo e pequeno”, afirmou.

Um panorama com Jair Bolsonaro, candidato pelo PSL, tende a não ser tão tóxico caso ele siga as ideias de sua equipe econômica, a ser liderada pelo economista Paulo Guedes. “Se ele acatar as ideias de seu economista, então seria uma continuidade em termos de BC. É provável que ele siga essas orientações, que é um ponto de vista mais liberal”, afirmou o economista da Infinity Asset, Jason Vieira.

GOLDFAJN FICA

Agostini avalia que Goldfajn deve ficar no comando do BC, o que dá pouco espaço para grandes mudanças na política monetária. “Ele deve ficar. Quem assumir (a Presidência) deve ainda continuar com ele. Primeiro porque quem assumir não vai conseguir fazer grandes mudanças, vai ser cobrado. Não tem espaço para aventureiro e populista, tem que ser (alguém) reformista, com postura pró-mercado sim, senão desarranja toda a economia”.

“O Ilan tem feito um bom trabalho em termos de segurar a inflação, modernizar o sistema financeiro; tem trabalhado de forma gradativa com relação a reduzir encargos financeiros na atividade econômica de forma estrutural. Tem feito um bom trabalho e para quem assumir será importante ficar com ele, porque em time ganhando não se mexe”, acrescentou.

Para o economista, só Armínio Fraga seria páreo para substituir Goldfajn em 2019. “No primeiro ano, o desafio não é inflação e juros e sim as contas públicas. Por que vou mexer em algo que está bom, sendo que tenho um problema maior para ser resolvido. Não vejo espaço para trocar. Teria que ser alguém muito melhor que ele, como por exemplo o Armínio Fraga”. “Se (os candidatos) forem minimamente inteligentes não mexeriam nessa parte”, finaliza.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

 

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