Preocupação com quadro fiscal e eleições pode pressionar alta da Selic

25/07/2018 14:38:09

Por: Flávya Pereira / Agência CMA

Comitê de Política Monetária (Copom). (Foto: Beto Nociti/BCB)

São Paulo – O agravamento do quadro fiscal do País e as incertezas sobre as eleições a pouco mais de dois meses para o pleito preocupam e afugentam os investidores, o que reverbera no dólar – que oscila entre R$ 3,80 e R$ 3,90 – e pode ser um fator de pressão para o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciar o ciclo de aperto monetário antes do que espera.

Enquanto o cenário no Brasil se complica, apesar das expectativas para a inflação ainda ancoradas na meta, no exterior os bancos centrais de outros países, incluindo emergentes, começam um movimento de elevação dos juros, o que estimula ainda mais a saída de investimento. Por ora, a intenção do Banco Central (BC) é encerrar o ano com Selic (taxa básica de juros) no atual patamar, de 6,5% ao ano.

A moeda estrangeira ensaiou romper o tão temido nível de R$ 4,00 e diante dessa possibilidade as operações de swap cambial do BC foram eficientes para conter a volatilidade do mercado, o que reforçou o argumento do presidente da instituição, Ilan Goldfajn, de que a política monetária e o câmbio podem andar separados.

“Essas operações ajudaram muito. Do contrário, o dólar teria tido uma alta muito mais aguda. Se esses instrumentos ajudaram a conter a oscilação, dificilmente o BC vai usar o ajuste monetário para segurar o câmbio”, diz o economista-chefe da Spinelli, André Perfeito.

No entanto, o economista ressalta que, apesar do argumento de Goldfajn, a situação cambial preocupa e pode ser um implicativo para novas alterações na Selic. “O Ilan vai falar que não, mas o câmbio preocupa muito, assim como a situação fiscal do País”, avalia Perfeito.

O cenário fiscal, considerado “agudo” pelos analistas, principalmente após a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2019, no mês passado, prevendo déficit primário de R$ 139,0 bilhões nas contas públicas, também é uma “barreira” para a entrada de capital estrangeiro.

“Mais do que o tamanho do rombo, é importante lembrar que o déficit fiscal avança em uma velocidade nunca vista antes, é assustador e preocupa muito o investidor estrangeiro”, avalia o diretor da corretora Mirae, Pablo Spyer.

O economista da Spinelli reforça que a situação fiscal do País “é muito ruim” e uma hora deverá entrar na conta. “Lembrando que uma piora desse quadro corrobora para a Selic subir em algum momento, somado à perspectiva ruim de inflação”, diz Perfeito.

Spyer explica que a piora do quadro fiscal inibe a entrada de investimento estrangeiro e esbarra nos juros justamente porque outros países emergentes e os Estados Unidos têm subido as taxas. “Se o Fed [Federal Reserve, o banco central norte-americano] diminuir a velocidade esperada na elevação dos juros aliviaria muito o dólar aqui, o que atrairia a entrada de fluxo estrangeiro para cá”, diz o diretor da Mirae.

Dessa forma, a entrada de investimento estrangeiro no País poderia aliviar os efeitos da alta do dólar sobre a Selic, mas a tendência, na realidade, é outra. “O câmbio só vai cair via ingresso de capital estrangeiro no País. Quanto mais ingresso de dólar e mais oferta tivermos, mais valorizado ficará o real”, comenta o diretor da Correparti Corretora, Ricardo Gomes.

Ele ressalta que a captação de investimento externo tem esbarrado também nas incertezas políticas, principalmente, com o cenário eleitoral bastante indefinido. “O que vai atrair capital é um candidato que represente segurança ao investidor, principalmente se ele sinalizar que conseguirá fazer as reformas estruturais, como a da Previdência”, diz o diretor da Correparti.

O economista da Tendências Consultoria, Sílvio Campos, avalia que o volume de investimentos tende, naturalmente, a crescer com o fim dessas incertezas, a partir de 2019, “desde que o novo governo mantenha uma linha econômica responsável, além de intensificar a agenda de melhora do ambiente de negócios, aspectos cruciais para elevar a confiança e a previsibilidade”, pondera.

Spyer, da Mirae, alerta que, em algum momento, será necessário aumentar a taxa de juros para ao menos “estancar um pouco da sangria” do fluxo de saída de investimentos do País. “A alta da Selic está vinculada à inflação, lembramos, mas essa alta traria força a mais para manter recursos estrangeiros aqui dentro”, avalia.

Segundo o economista da Tendências, o BC deve agir logo depois das eleições. O Copom tem reunião logo após o segundo turno, em 30 e 31 de outubro. “A aposta do mercado, por enquanto, é firme de que possa haver alta de 0,25 ponto percentual [pp] nesta reunião. Porém, a nossa aposta é de que a Selic não subirá”, reforça.

Contudo, a decisão sobre a política monetária após as eleições divide opiniões. Perfeito, da Spinelli, acredita que após o período eleitoral, haverá ajuste monetário, enquanto Gomes, da Correparti, atribui qualquer passo da instituição monetária ao candidato eleito. “Se um candidato que não agrada o mercado ganhar, provavelmente, haverá um aperto monetário”, finaliza.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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