Prazo e UE são desafios para Boris Johnson entregar Brexit

Por Carolina Pulice

São Paulo – O Reino Unido deve passar por novos episódios de incerteza política e de ameaças a um Brexit – processo de separação da União Europeia (UE) – ordenado, mesmo após ter escolhido um novo primeiro-ministro, Boris Johnson, que assumiu o mandato nesta manhã.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Foto: Divulgação

Para analistas consultados pela Agência CMA, se Johnson mantiver a ideia de negociar um acordo para o Brexit – que, segundo ele, é seu desejo – o novo premiê terá pouca margem para renegociar a saída com a UE.

De acordo com o analista do Societé Générale (SocGen), Brian Hilliard, Johnson tem o grande desafio de convencer a União Europeia sobre seu novo plano para o Brexit. “Sua promessa de saída com um acordo pode encontrar pouca margem de manobra”, disse.

Para Hilliard, o desafio de renegociar com o bloco europeu ocorre justamente por conta das propostas polêmicas de Johnson. Nesta manhã, durante seu primeiro discurso no cargo, Johnson disse que a solução backstop – um sistema que evitaria uma fronteira física entre a Irlanda do Norte – território britânico – e a República da Irlanda – integrada a UE – “acabaria”.

“A ideia convencional é que a União Europeia não quer uma saída sem acordo, e que por isso poderia aceitar as mudanças no acordo”, disse o analista do SocGen. “Negociar e executar um acordo revisado do Brexit antes do dia 31 de outubro parece impossível, mas vivemos em tempos estranhos”, completou.

TEMPO E PRESSÃO CONTRA JOHNSON

Hilliard alerta ainda para a questão dos prazos. O parlamento britânico entra em recesso amanhã, e deve retomar os trabalhos somente em 3 de setembro.

A partir da primeira de setembro, porém, haverá outro recesso, o da temporada de conferências dos partidos britânicos. Com isso, haveria pouco tempo para o parlamento negociar e aprovar um novo acordo para o Brexit. A saída do Reino Unido do bloco europeu está prevista para o dia 31 de outubro.

“Isso sugere que não seria possível para Johnson impedir que uma eleição geral fosse realizada sete semanas (14 dias mais 25 dias úteis) após a perda do voto de confiança, que aconteceria em 22 de outubro”, afirma.

“Nesta situação, Johnson provavelmente pediria uma pequena extensão do prazo de saída para a UE, e o bloco concederia”, completa.

A analista da London Capital Group, Ipek Ozkardeskaya, concorda com o fato de que o tempo pode ser um desafio para Johnson. “O parlamento britânico vai ficar fechado na semana que vem. Quando os ministros voltarem de suas férias em setembro, o relógio vai bater os ponteiros em direção ao prazo de 31 de outubro”, afirmou.

Além de um prazo apertado para decidir o futuro do Reino Unido fora do bloco europeu, Johnson deve enfrentar pressão da oposição em seus primeiros meses de governo. O analista do Societé Generale aposta que o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, deve lançar um voto de não confiança quando o parlamento encerrar seu recesso.

“Dado que ele pode sentir a necessidade de obter um mandato vindo da população para seus planos para o Brexit por conta de uma oposição para o Parlamento, então uma eleição pode se mostrar como uma proposição atraente”, disse Hilliard.

NOVO GABINETE

Falando em seu primeiro discurso como primeiro-ministro, Johnson afirmou que acelerará os preparativos para que o Brexit no prazo previsto. O tom de reconciliação e solução do Brexit se mostra compatível com a formação de seu governo.

Dominic Raab foi escolhido para ser o secretário de Estado para Relações Exteriores; Priti Patel será a secretária de Estado; e Sajid Javid será o ministro de Finanças. Stephen Barclay foi nomeado para ser o secretário do Brexit. Tanto Raab quando Javid disputaram com Johnson o cargo de primeiro-ministro.

Além disso, Johnson pretende nomear Dominic Cummings, o cérebro por trás da bem sucedida campanha para deixar a UE no plebiscito em 2016, como um assessor de alto escalão em Downing Street, segundo uma fonte próxima do assunto.

De acordo com Hilliard, do Societé Générale, a nomeação de Cummings deve ser vista como uma declaração forte de que ele pretende entregar o Brexit. “Além dele, Johnson escalou pessoas do Vote Leave [organização fundada em outubro de 2015, para organizar a campanha pela saída do Reino Unido]. Isso sugere que Johnson não tem nenhuma intenção de ser conciliador em suas negociações com a UE”, disse.

EQUILIBRIO DE CONTAS

No novo premiê tem, por fim, o desafio de equilibrar as contas do Reino Unido em meio a um processo que pode afastar alguns investimentos e enfraquecer, em um primeiro momento, a economia britânica.

Um relatório do Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR, na sigla em inglês) publicado na semana passada mostrou que a saída do Reino Unido da União Europeia sem um acordo no dia 31 de outubro pode levar a economia britânica a entrar em uma longa recessão no quarto trimestre deste ano.

“Johnson assume com uma economia prestes a entrar em recessão e um com um governo dividido enfrentando um acordo insatisfatório”, afirmou Ozkardeskaya, do London Capital Group.

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