Piora na inflação projetada e ação no câmbio trazem alerta sobre juros

12/06/2018 14:34:52

Por: Olívia Bulla / Agência CMA

São Paulo – A piora nas expectativas do mercado financeiro para as principais variáveis macroeconômicas do Brasil neste e no próximo ano, contempladas no relatório Focus, acionou o sinal de alerta em relação à taxa básica de juros. As sucessivas revisões para cima na estimativa para a inflação oficial ao consumidor (IPCA), em meio às intervenções do Banco Central no mercado de câmbio, podem levar a um aumento da Selic ainda em 2018. Mas ainda há dúvidas sobre a necessidade dessa ação.

“A pesquisa Focus já mostra alguma deterioração da inflação e isso é apenas o começo”, avalia um diretor de tesouraria de um banco estrangeiro. Ele se refere à quarta semana seguida de aumento na previsão para o IPCA neste ano, a 3,82%, e à segunda revisão consecutiva na estimativa do indicador em 2019, a 4,07%.

“Esperamos que as expectativas para o IPCA em 2019 se movam rapidamente à meta (4,25%), graças a uma combinação da intervenção cambial com a estratégia de manutenção da Selic”, acrescenta. Para ele, tal movimento é apenas uma questão de tempo, diante do colapso fiscal e da menor confiança dos agentes econômicos (empresários e consumidores) e em meio ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) inferior a 2% neste ano.

As incertezas eleitorais e os efeitos da greve dos caminhoneiros também dificultam a ancoragem das expectativas de inflação. Para os economistas Tony Volpon e Fábio Ramos, do UBS, tais circunstâncias, combinadas com um aumento global da aversão ao risco, provocam mudanças de expectativas sobre a inflação e o câmbio, gerando a necessidade de um ajuste para cima na taxa de juros.

“Da mesma forma que o mercado sabe que um banco central confiável usará a política monetária se necessário para ancorar as expectativas de inflação, sabe-se que o BC terá de subir os juros para dar suporte à moeda, ancorando as expectativas para o dólar”, explicam. Para eles, a Selic deve subir no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) logo após as eleições de outubro, encerrando em 8,5% ao final do ano, após um novo aumento em dezembro.

Para o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, um aumento dos juros básicos ainda em 2018 não está completamente descartado. “Mas deve ser uma resposta do BC apenas se a taxa de câmbio seguir depreciando, mesmo com a intervenção com uso de reservas, e caso essa desvalorização contamine a inflação corrente e as expectativas de inflação”, pondera.

POR QUE SUBIR?

Apesar de o mercado doméstico ter passado a enxergar uma relação direta entre a cotação do dólar e a taxa básica de juros, sob a narrativa de que a Selic seria o instrumento mais adequado para conter a depreciação do real, essa lógica não é vista pelo Banco Central. Nas últimas declarações, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, tem destacado que “não há uma relação mecânica entre política cambial e monetária”.

Para o economista-chefe do Banco Haitong Brasil, Jankiel Santos, o recente nervosismo no mercado doméstico, principalmente o estresse nos negócios com câmbio, está mais relacionado ao “intrincado ambiente político” do país.  “As declarações dos candidatos estão no caminho inverso à agenda de  reformas e sugerem ações bastante populistas, colocando pressão extra nos ativos e levando o mercado a se tornar mais cético sobre as eleições”, explica.

Segundo ele, não há motivos para um aperto monetário neste ano, diante dos sinais de que a atividade perdeu tração nos últimos meses. “Portanto, há uma menor probabilidade de pressões inflacionárias no futuro próximo. Por que, então, deve-se começar a precificar uma subida da taxa de juros?”, indaga.

Além disso, apesar das revisões em alta para o IPCA no Focus, as estimativas ainda estão dentro do intervalo de tolerância perseguido pelo Banco Central. Não há, portanto, sinais mais graves de piora no cenário de preços e, consequentemente, para os juros básicos. “A inflação deve permanecer abaixo da meta (4,5%) neste ano, dando espaço para a política monetária estimulativa”, conclui o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

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