Petróleo deve voltar a subir em 2019 com cortes da Opep

26/12/2018 14:55:51

Por: Carolina Gama / Agência CMA

Divulgação/Repsol

São Paulo – O preço do petróleo deve ensaiar uma recuperação em 2019 mesmo diante de um cenário de desaceleração econômica global e, por consequência, fragilidade da demanda pela commodity. Projeção da Agência CMA com base em dados fornecidos por analistas mostra que o Brent deve ser cotado, em média, a US$ 67 o barril no próximo ano, dos cerca de US$ 56 atuais. Já o WTI deve chegar a US$ 60 o barril, dos atuais US$ 46.

O motor dessa recuperação, segundo os especialistas, é o novo corte de produção anunciado no início do mês pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados e que deve entrar em vigor em janeiro.

Segundo os termos do pacto, os membros da Opep reduzirão seu fornecimento em 800 mil barris por dia (bpd). Aos parceiros liderados pela Rússia caberá uma diminuição de 400 mil bpd – totalizando 1,2 milhão de bpd com base nos níveis de outubro, quando o fornecimento do grupo foi de 32,9 milhões de bpd, segundo estimativas de fontes do mercado consultadas pelo cartel.

“A Opep e seus aliados devem ter sucesso em mais esse corte de produção e, aos poucos, os preços devem voltar a subir”, disse o analista sênior de mercado do The Price Futures Group, Phil Flynn. Ele lembra que outros eventos como a redução do fornecimento do Canadá e na Líbia também devem contribuir para manter o mercado mais equilibrado.

No início de dezembro, a província canadense de Alberta forçou os produtores a reduzir o fornecimento em 8,7%, ou 325 mil barris por dia (bpd), para lidar com um gargalo no oleoduto que levou ao acúmulo de estoques. Na Líbia, o enfrentamento entre forças do governo e milícias pelo controle campos de petróleo tem provocado a queda da produção do país.

“O mercado também deve passar a sentir em 2019 o pleno impacto das sanções norte-americanas sobre o setor petrolífero iraniano, que devem ser cada vez mais punitivas com o tempo, resultando em exportações muito menores depois que as isenções dadas a alguns países expirarem”, disse o estrategista de energia do Rabobank, Ryan Fitzmaurice.

Em 5 de novembro, o governo do presidente norte-americano, Donald Trump, reintroduziu sanções ao setor petrolífero iraniano – a principal fonte de receita do país. No entanto, para ajudar na transição da dependência de um dos maiores mercados de petróleo do mundo, Washington concedeu isenções temporárias a oito países: China, India, Coreia do Sul, Itália, Japão, Turquia e Taiwan e Grécia.

ABRIL: UM NOVO MARCO

A Opep voltará a se reunir em abril do próximo ano para avaliar o impacto do corte de 1,2 milhão de bpd sobre os preços. Segundo os especialistas, as chances de um novo corte de produção são pequenas mesmo diante da esperada desaceleração da economia global.

“É quase certo que o acordo seja mantido porque o impacto de uma redução desse porte leva tempo para ter efeito real sobre o mercado”, disse o diretor de commodities da ClipperData, Matt Smith.

O analista de mercado do Energy Management Institute, Dominick Chirichella, lembra ainda que novos cortes de produção significam perda de mercado para a Opep em um momento no qual a produção do Estados Unidos segue renovando recordes.

“Sou um pouco menos otimista e acredito que o primeiro semestre de 2019 ainda será de uma estrada difícil para a recuperação de preços. Quando o cartel voltar a se reunir em abril, precisará decidir sobre o apoio aos preços ou perder mais participação de mercado para os norte-americanos”, afirmou Chirichella.

Fitzmaurice, do Rabobank, disse que eventos como as sanções ao Irã e cortes de produção no Canadá e na Líbia podem levar a Opep ao caminho contrário, de elevação da oferta. “Não será uma surpresa se, em abril, o cartel assumir uma trajetória diferente e elevar a produção para compensar possíveis perdas em outros países”, disse.

ESTADOS UNIDOS: PRESSÃO E RECORDE

Os Estados Unidos têm exercido uma forte pressão sobre a Arábia Saudita, líder de fato da Opep, para que os níveis de oferta sejam elevados, pressionando as cotações ainda mais para baixo. Isso porque o presidente Donald Trump acredita que preços maiores da commodity prejudicam o consumidor norte-americano, além de se refletirem na inflação.

“Os sauditas terão muito mais cautela com os Estados Unidos. Este ano vimos o reino elevar a produção para níveis recordes, mas recuar e acertar os cortes entre a Opep e seus aliados. A participação de mercado está em jogo”, afirmou Smith, da ClipperData.

O movimento de pressão dos Estados Unidos acontece em um momento no qual a produção doméstica norte-americana bate recordes, chegando a máxima de 11,7 milhões de bpd, de acordo com dados da Agência de Informação de Energia do país (EIA, na sigla em inglês).

Os especialistas consultados pela Agência CMA acreditam que os Estados Unidos devem entrar em 2019 com o mesmo ritmo forte de produção visto em 2018. “A EIA está projetando que a produção de petróleo bruto dos Estados Unidos deverá aumentar em 1,2 milhão de bpd em 2019, mais do que em 2018, compensando todos os cortes da Opep e seus aliados”, afirmou Chirichella, do Energy Management Institute.

Fitzmaurice, do Rabobank, lembra que os Estados Unidos são atualmente os maiores produtores de energia do mundo e que, em breve, devem se tornar exportadores globais líquidos de energia. “No contexto de preços, em algum momento Trump vai demandar cotações mais elevadas para apoiar o crescimento da indústria norte-americana”, completou.

 

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