Orientação futura deve preparar mercado para novos estímulos do BCE

Por Carolina Pulice

São Paulo – O Banco Central Europeu (BCE) deve usar a orientação futura para abrir caminho para o corte da taxa de juros em setembro e deixar espaço para a retomada do programa de compra de ativos (QE, na sigla em inglês) no encontro de política monetária de quinta-feira, segundo analistas consultados pela Agência CMA.

Sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt (Divulgação/BCE)

“A autoridade monetária tem dado pistas nas últimas semanas de que eles planejam afrouxar a política monetária em breve, e que o encontro de julho pode dar um passo na direção de mudar a orientação futura. Suspeitamos que a partir daí, não demorará muito para o BCE cortar a taxa de juros e reiniciar o programa de compra de ativos”, afirmou o economista sênior da Capital Economics, Jack Allen-Reynolds.

“Com uma nova orientação preparando o mercado para estímulos, achamos que o próximo passo será o corte da taxa de juros em setembro, quando teremos novas projeções, e depois o anúncio de uma nova fase de compra de ativos, em outubro”, acrescentou Allen-Reynolds.

O motivo para tal revisão e para um possível corte na taxa de juros, segundo os especialistas, continua sendo os dados da economia da zona do euro, embora não haja um consenso sobre seus impactos na decisão de política monetária do BCE.

O economista da Capital Economics, por exemplo, afirma que a melhora dos dados foi positiva, porém pequena. “Alguns dos últimos dados foram encorajadores: a produção industrial cresceu em maio, e em junho o índice dos gerentes de compras [PMI, na sigla em inglês] cresceu pelo segundo mês seguido. Mas, no grande esquema das coisas, a melhora foi pequena. Por isso, acreditamos que o PIB da zona do euro cresceu somente 0,2% no segundo trimestre, em linha com a projeção de junho do BCE”, disse.

Já a analista da Nordea, Tuuli Koivu, afirma que os dados não foram tão desanimadores, fato que permite que mudança de política monetária aconteça apenas em setembro.

“A projeção econômica não melhorou desde o discurso de [Mario] Draghi, em Sintra, [em junho], mas as surpresas negativas também continuaram limitadas. Sem uma grande necessidade de um afrouxamento imediato, achamos que a decisão sobre uma nova rodada de estímulos vai ser adiada para setembro”, afirmou Koivu, salientando que o cenário internacional foi aliviado, o que permitiu com que o BCE pensasse em mudanças com menos pressa.

Ela lembra que os Estados Unidos e a China concordaram em recomeçar as negociações comerciais no encontro do G-20 (grupo que reúne economias mais industrializadas e países emergentes), no fim de junho. “Apesar de os passos concretos após o encontro terem sido limitados, o pior cenário foi claramente evitado”, acrescentou.

CORTE ACOMPANHADO DE OUTRAS MEDIDAS

Em junho, o BCE manteve a taxa básica de juros em zero, a taxa de depósitos em -0,4% ao ano e a taxa da linha mantida com bancos comerciais para concessão de liquidez de curto prazo em 0,25% ao ano.

Entre a decisão de junho e o mês de julho, a autoridade monetária passou por episódios marcantes em sua estrutura e política. O Conselho Europeu indicou a ex-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, para ser a próxima chefe do BCE.

Além disso, o atual presidente do BCE, Mario Draghi, passou a sinalizar que as taxas de juros poderiam ser cortadas ou programa de compra de ativos poderia ser retomado, para levar a inflação da zona do euro para a meta próxima, porém abaixo de 2% e responder aos desafios que se apresentam para a economia da região.

“Nas últimas semanas, o BCE tem sinalizado a potencial renovação do afrouxamento. Acreditamos que o corte [da taxa de juros] pode ser o instrumento preferido”, afirmaram os analistas do Rabobank, Bas van Geffen e Elwin de Groot.

Além disso e baseados nas declarações de Draghi e de outros membros da instituição, os analistas salientam que a redução da taxa de juros será acompanhada de outras medidas, como uma mudança na taxa de depósito.

“Os cortes da taxa de juros provavelmente devem ser acompanhados, de alguma forma, de um esquema de taxa de depósito em camadas para garantir que estes cortes tenham o efeito desejado sobre a real economia”, completaram Van Geffen e De Groot.

Apesar do anúncio de novas medidas ressaltadas pelos analistas, não há unanimidade em definir quais seriam os próximos passos adotados pela autoridade monetária.

Os analistas do Rabobank citam as operações direcionadas de refinanciamento de longo prazo (TLTROs, na sigla em inglês) como a medida que será usada pelo BCE, com início também em setembro.

Vale lembrar que os novos termos da terceira rodada das operações de empréstimos foram anunciadas na reunião passada.

Apesar de divergirem sobre as medidas que serão tomadas pelo BCE, os analistas apostam em ações conjuntas com um corte da taxa de juros. Para eles, este é o maior sinal de que a autoridade monetária vai reagir contra a tendência global de desaceleração na economia.

“Em resumo, achamos que os recentes discursos apoiam nossa visão – de um pacote de estímulo composto por uma redução da taxa de depósito, uma nova rodada de compra de ativos e pelo fortalecimento da orientação futura. Isso tudo deve ser lançado somente em setembro, quando as novas projeções do BCE podem mostrar que a tendência de uma economia fraca continuou e que as tendências de baixa continuam prevalecendo”, afirmou Koivu, da Nordea.

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