Moro falará novamente sobre diálogos do Intercept

Por Gustavo Nicoletta

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

São Paulo – O ministro da Justiça, Sergio Moro, deve falar novamente sobre diálogos divulgados pelo site “The Intercept” atribuídos ao ex-juiz e ao procurador Deltan Dallagnol a partir das 14h (de Brasília) numa reunião conjunta de três comissões da Câmara dos Deputados.

O “Intercept” vem publicando conversas supostamente ocorridas entre Moro, da época em que era juiz, e o procurador Deltan Dallagnol, da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. A série de reportagens ficou conhecida como “Vaza Jato”, uma referência ao vazamento das conversas.

Segundo os diálogos, Moro demonstrou receios quanto à possibilidade de uma investigação contra Fernando Henrique Cardoso “melindrar” o ex-presidente, que oferecia um “apoio importante” à operação Lava Jato, e repassou informalmente uma pista aos procuradores em um caso relacionado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

As conversas também mostram que Moro teria pontuado em certo momento que a força-tarefa da Lava Jato estava há muito tempo sem lançar operação, e que o ex-juiz teria sugerido que os procuradores divulgassem nota apontando eventuais incoerências no depoimento de Lula à Justiça, um comportamento fora do padrão da comunicação feita pelos procuradores até então.

No fim de semana, o “Intercept” publicou uma outra reportagem citando mensagens trocadas entre procuradores da Lava Jato afirmando que os membros da força-tarefa ficaram preocupados com o fato de Moro ter aceitado o convite de Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça. O receio era de que isso fosse visto como um sinal de parcialidade do então juiz federal e afetasse a reputação da Lava Jato e dos procuradores.

A primeira versão da reportagem, porém, trazia um erro que atribuía uma das conversas ao dia 1 de novembro de 2019, quando na verdade a data era de 1 de novembro de 2018, e o jornalista Glenn Greenwald citou erroneamente o nome de um dos procuradores num diálogo. Moro usou isso para questionar a credibilidade do “Intercept”.

O jornal “Correio Braziliense”, porém, afirmou que conversou com um dos procuradores que aparecem nas conversas e que ele confirmou o teor das mensagens.

CONTESTAÇÃO

O Ministério Público Federal (MPF) contesta as reportagens e afirma que o material publicado pelo site “ainda não foi apresentado às autoridades públicas para que sua integridade seja aferida. Diante disso, a sua autenticidade não foi analisada e muito menos confirmada.” O argumento de Moro é semelhante, mas o ministro também disse não ver nenhum desvio ético nos diálogos, caso eles sejam comprovados.

A audiência de Moro na Câmara ocorre dois dias depois de manifestações em sua defesa. No domingo, em sua conta no Twitter, Moro publicou três mensagens com imagens das passeatas e os dizeres “eu ouço, eu vejo”. Na última acrescentou um “eu agradeço”. Depois, afirmou ser grato ao presidente Jair Bolsonaro “e a todos que apoiam e confiam em nosso trabalho.”

“Hackers, criminosos ou editores maliciosos não alterarão essas verdades fundamentais. Avançaremos com o Congresso, com as instituições e com o seu apoio”, disse Moro.

AUDIÊNCIA ANTERIOR

No mês passado, o ministro chegou a ser questionado em uma comissão do Senado sobre as reportagens do “Intercept”. Na ocasião, ele negou ter orientado ou agido em conluio com a força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) nas ações relacionadas à operação Lava Jato quando ocupava o cargo de juiz federal.

O ministro também se recusou a reconhecer a autenticidade das mensagens que teriam sido trocadas entre ele e Dallagnol divulgadas pelo “Intercept”, afirmando que não possui o histórico das conversas e argumentando que é necessário submeter os dados a um especialista que confirme se elas não foram adulteradas.

Moro também considera que há um grupo criminoso tentando invadir dispositivos de juízes, procuradores, políticos e jornalistas para desmoralizar os esforços anticorrupção em andamento no País e negou ter contato negou ter contato com o presidente Jair Bolsonaro quando sentenciou Lula, em julho de 2017, a nove anos e meio de prisão por corrupção.

Por último, o ministro disse que deixará o cargo caso sejam provadas irregularidades relacionadas às conversas que teve com Dallagnol.

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