México busca dentro e fora do país saída ao Nafta

23/02/2017 09:36:32

Por: Carolina Gama / Agência CMA

Bandeira do México. (Foto: alvaro_qc/Flickr)

Bandeira do México. (Foto: alvaro_qc/Flickr)

São Paulo – O México busca no mercado doméstico e em parceiros comerciais, como China e Reino Unido, as alternativas ao Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta, em inglês), que deve passar por um processo de reformulação considerado prioritário pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Segundo especialistas consultados pela Agência CMA, o México não registrou crescimento significativo recente com o Nafta, embora a economia do país seja estruturada no tratado. No entanto, a perda para os mexicanos pode ser grande sem o acordo, que pode afetar principalmente o setor automotivo local se as montadoras migrarem a produção para os Estados Unidos.

“Qualquer interrupção do comércio entre os dois países pode afetar a indústria mexicana de maneira significativa, especialmente o setor automotivo, que é profundamente integrado entre os dois países”, disse o economista do BNP Paribas, Felipe Klein.

Em dezembro de 2016, o México registrou déficit comercial de US$ 13,135 bilhões, o que representa uma queda de 10,1% em relação ao mesmo período de 2015, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi) do país.

As exportações somaram US$ 33,232 bilhões, sendo que US$ 31,413 bilhões corresponderam a embarques de fora do setor petrolífero.

Destes US$ 31,413 bilhões em exportações em dezembro, 82,67% tiveram como destino os Estados Unidos, sendo que 27,26% referem-se ao setor automotivo, ainda de acordo com o Inegi. A fatia relativa ao setor automotivo é 2,5 ponto percentual (pp) mais alta do que em 2015.

ALTERNATIVAS AO NAFTA

Diante da grande dependência do Nafta e de sua iminente reformulação, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, já começou a buscar alternativas para o acordo. O primeiro passo foi lançar a campanha “Feito no México”

para incentivar a produção local de qualidade.

Na ocasião, Peña Nieto afirmou que o relançamento do selo era fruto de um esforço do setor público e da iniciativa privada para aumentar a competitividade dos produtos fabricados no país.

“A indústria mexicana deu sinais de crescimento modesto da produção este mês, o que é encorajador diante de tamanha incerteza provocada pelas possíveis mudanças na política comercial com os Estados Unidos”, disse o economista da Capital Economics para a América Latina, Adam Collins.

Outra estratégia do governo é buscar novos parceiros comerciais. No início do mês, o ministro das Relações Exteriores mexicano, Luis Videgaray, convidou o secretário das Relações Exteriores britânico, Boris Johnson, a visitar o México para avaliar a cooperação bilateral e traçar os princípios de novos projetos.

Segundo o governo mexicano, os dois manifestaram a intenção de firmar um acordo de livre-comércio assim que o Reino Unido estiver apto a negociar com outros países na sequência da saída da União Europeia.

A China também pode ser uma opção de negócio para Peña Nieto. As montadoras norte-americanas, entre elas a Ford, desistiram de construir unidades no México em meio a receios com a introdução de uma tarifa elevada para a venda dos carros produzidos no país aos Estados Unidos, mas a chinesa JAC Motors anunciou, em parceria com a mexicana Giant Motors, do magnata Carlos Slim, um investimento de US$ 212 milhões para produzir carros na cidade de Sahagún, localizada no Estado de Hidalgo.

“Em termos de outros parceiros, não será fácil para o México substituir os Estados Unidos. O México já tem acordos de livre-comércio com 45 países – acima de qualquer outra nação -, mas os Estados Unidos ainda são o principal destino das exportações mexicanas por uma ampla margem”, afirmou Collins, da Capital Economics.

IMPLICAÇÕES ECONÔMICAS

Embora os especialistas não acreditem no fim do Nafta, sua remodelação representa um desafio para o governo de Peña Nieto. Além do crescimento econômico menor, as chances de a inflação disparar no país são elevadas.

“Diante do desafio externo e doméstico, esperamos que a inflação acelere, a taxa de juros suba e que o crescimento do Produto Interno Bruto real se enfraqueça”, afirmou Klein, do BNP Paribas.

De acordo com dados do Inegi, o índice nacional de preços ao consumidor (INPC) do México subiu para 4,72% em janeiro em relação ao mesmo período do ano passado, após registrar alta de 3,36% em dezembro. Em base mensal, a alta foi de 1,7%.

O Banco do México (Banxico, o banco central do país), no entanto, se mantém otimista com relação à inflação, embora tenha destacado na reunião de política monetária deste mês que as incertezas que rondam o Nafta representam um impacto negativo para a economia. Segundo o Banxico, a expectativa de longo prazo para a inflação se mantém bem ancorada em 3,5% em termos anuais.

“Se as negociações do Nafta forem negativas para o México haverá um impacto duplo sobre a inflação ao passo que os preços da gasolina devem passar por um reajuste. 55% da gasolina consumida no México vêm dos Estados Unidos e isso pode fazer com que as expectativas de inflação no médio prazo subam”, afirmou o diretor-executivo da Nomura Securities, Benito Berber.

Projeções da Capital Economics indicam que o PIB mexicano deve crescer 1,8% em 2017, depois dos 2,3% em 2016. Já a inflação anual deve acelerar, em média, a 5,5% este ano ante 2,8% de 2016 e a taxa de juros deve encerrar 2017 em 7,50%, dos atuais 6,25%.

“Nossas previsões não levam em conta o fim do Nafta, mas apenas ajustes ao tratado. Caso o Nafta seja extinto, o crescimento econômico será menor e a inflação e os juros serão maiores, principalmente, em função da depreciação do peso”, afirmou Collins, da Capital Economics.

DO OUTRO LADO DO MURO

As relações entre Estados Unidos e México já estão estremecidas por conta do plano de Trump de construir um muro na fronteira entre os dois países sob o argumento de conter a imigração ilegal e o tráfico de drogas. Soma-se a isso o fato de o presidente norte-americano ter ameaçado o México com a imposição de tarifas que podem chegar a 20% sobre bens fabricados no país.

Números da balança comercial dos Estados Unidos exemplificam a determinação de Trump em renegociar o Nafta com foco no México. Dados do Departamento do Comércio norte-americano mostram que o país encerrou 2016 com um déficit comercial de US$ 63,192 bilhões com o México ante os US$ 60,663 bilhões de 2015.

“O déficit comercial dos Estados Unidos com o México é praticamente estável considerando os últimos anos e as políticas mexicanas com relação aos Estados Unidos têm sido mais de comércio livre e justo do que qualquer outro país parceiro de Washington”, afirmou o chefe de pesquisa econômica do Goldman Sachs, Alberto Ramos.

Com o Canadá, que também faz parte do Nafta, o déficit comercial norte-americano é bem menor, de US$ 11,240 bilhões. “A equipe econômica de Trump já sinalizou que quer renegociar o Nafta por conta do México e que muito pouco deve mudar para o Canadá”, afirmou o chefe de pesquisas do Rabobank, Michael Every.

Ainda de acordo com dados do Departamento do Comércio norte-americano, os Estados Unidos detêm o quarto maior déficit comercial com o México, que perde apenas para Alemanha, China e Japão – considerando países isolados e não blocos como a União Europeia.

O NAFTA SOB OUTRA PERSPECTIVA

Os números, no entanto, podem esconder o progresso econômico proporcionado pelo Nafta. O tratado, que está em vigor desde 1994, impulsionou o crescimento econômico, o mercado de trabalho e a competitividade de Estados Unidos, México e Canadá.

“Em seus 23 anos, o Nafta foi um sucesso para seus três membros já que o comércio mais do que triplicou na América do Norte. O Nafta garantiu que a região se mantivesse competitiva na corrida por capital e geração de empregos”, disse o economista-chefe da Scotiabank Economics, Jean-François Perrault.

Dados recentes do Departamento do Comércio norte-americano mostram que 2,8 milhões de empregos nos Estados Unidos são apoiados diretamente pelas exportações ao México e Canadá. Empresas canadenses empregam cerca de 600 mil norte-americanos, enquanto seis milhões de empregos nos Estados Unidos dependem direta ou indiretamente do México, de acordo com dados da Scotiabank.

“O governo mexicano tem a árdua tarefa de tentar convencer Washington dos benefícios do Nafta, afinal, a instabilidade do México não é do interesse de nenhuma das partes”, disse o co-presidente da Teneo Intelligence, Wolfango Piccoli.

Recentemente, o ministério da Economia mexicano informou que o governo iniciou um processo de consultas sobre a renegociação do Nafta que deve levar pelo menos 90 dias. Segundo o documento, a iniciativa teve início simultaneamente a um processo interno semelhante que está acontecendo nos Estados Unidos.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

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