Merkel deve vencer eleição alemã, mas coalizão é incerta

20/09/2017 14:04:24

Por: Carolina Gama / Agência CMA

Angela Merkel, chanceler alemã (Divulgação/Conselho da União Europeia)

São Paulo – A chanceler alemã Angela Merkel deve garantir o quarto mandato nas eleições gerais do próximo domingo, mas não deve conseguir maioria absoluta no parlamento, deixando em aberto o tipo de coalizão que pode emergir desse pleito, segundo especialistas consultados pela Agência CMA.

“A questão não é se Merkel vai vencer ou não, mas com quem ela governará. A Alemanha tem a tradição de governos de coalizão. O CDU [partido da União Democrata Cristã] de Merkel precisará de um parceiro para conseguir maioria absoluta no Bundestag [a câmara baixa do parlamento alemão]”, disse o economista-chefe para a Europa do Barclays, Philippe Gudin.

De acordo Gudin, existem duas possibilidades para Merkel: uma grande coalizão com o Partido Social Democrata (SPD), do rival Martin Schulz, e isso significaria continuidade das políticas atuais; ou uma parceria com o Partido Democrático Liberal (FDP) como aconteceu entre 2006 e 2013, o que poderia significar maior foco nas políticas de controle da imigração, por exemplo.

No próximo domingo, Merkel disputa com Schulz o cargo de chanceler da Alemanha. As sondagens preveem há meses uma vitória folgada para a CDU, com 37% a 39% dos votos. O SPD deverá ficar em segundo lugar, com 22% a 24%, o que seria o pior resultado do partido em eleições para o Bundestag.

O economista do Rabobank, Stefan Koopman, acredita que outra grande coalizão entre o CDU e o SPD resultaria em uma maior integração com a zona do euro. Segundo ele, o partido de Schulz já traçou planos para alinhar-se com o governo do francês Emmanuel Macron e, além disso, defende o estabelecimento de um ministro do orçamento europeu e a reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) – documento que traça metas ficais para os países da União Europeia.

“A CDU também está disposta a dar passos na direção de uma integração
mais profunda. O partido é favorável a um Fundo Monetário Europeu – que não seria mais do que um agrupamento de dívidas ou riscos -, mas não quer alterar o PEC. No fim das contas, tudo isso representaria uma integração mais profunda na eurozona”, disse Koopman.

No caso de uma coalizão com o FDP, essa integração estaria ameaçada. “A FDP é abertamente hostil à Europa. Algumas etapas na direção da integração seriam possíveis, mas esse cenário é mais difícil de acontecer e o risco de ruptura existe”, acrescentou o economista do Rabobank.

DESAFIOS DO PRÓXIMO GOVERNO

As eleições alemãs acontecerão em um cenário de crescimento econômico do país. De acordo com os especialistas, o Produto Interno Bruto (PIB) alemão deve crescer entre 1,75% e 2% este ano e no próximo – acima do potencial de expansão da Alemanha, que geralmente se situa em 1,25%. O emprego está em alta e o desemprego em recorde de baixa, com ajuste moderado dos salários.

“No cenário doméstico, o próximo governo terá que administrar o bom momento pelo qual a economia passa para evitar superaquecimentos e desequilíbrios”, disse o analista-chefe da Nordea para a Europa, Holger
Sandte.

O analista chama atenção para o crescimento da incompatibilidade entre os perfis dos candidatos a emprego e as vagas oferecidas. “O número de empresas reportando que a falta de mão de obra qualificada é um limitador da produção é alto, por exemplo, nos setores de tecnologia da informação e engenharia. Transportes e infraestrutura são insuficientes e a educação precisa de melhorias”, afirmou Sandte.

A aposentadoria é outro ponto que demanda atenção. A idade mínima para aposentaria na Alemanha é de 67 anos de acordo com um cronograma estabelecido em 2007 e que tem vigência até 2028. “Merkel já anunciou que vai convocar uma comissão para montar um novo plano no final de 2019 para novas regras a partir de 2030”, afirmou Gudin, do Barclays.

Outras mudanças esperadas pelos especialistas incluem um corte moderado do imposto de renda, já que a Alemanha tem desfrutado de superávits no orçamento desde 2014 e pode fazer mais investimentos em infraestrutura e em políticas que fomentem a produtividade.

No cenário externo, a aposta é de que o novo governo tenha papel central no debate sobre o futuro da União Europeia, incluindo as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e como ficará o bloco após a separação. Imigração e Grécia também devem continuar na lista de prioridades do novo chanceler, segundo os especialistas.

“A Alemanha é o destino preferido dos refugiados e o próximo governo alemão certamente terá que continuar trabalhando em uma resposta conjunta com a UE”, disse Sandte, da Nordea. “Se as propostas francesas para um ministro das Finanças e um orçamento da eurozona serão atendidas, ainda não está claro, mas esses temas e o alívio da dívida grega também terão que ser resolvidos pelo novo governo alemão”, acrescentou.

Ainda no cenário externo, os economistas afirmam que a administração do presidente norte-americano, Donald Trump, também representa um desafio ao novo governo da Alemanha. “Os Estados Unidos devem permanecer como um parceiro difícil, mas quem quer que seja o novo chanceler alemão não poderá seguir sem os Estados Unidos. O principal desafio é trabalhar em coordenação com Washington”, afirmou o economista-sênior da IHS Economics, Timo Klein.

Ele lembra ainda da Turquia, cujas negociações de adesão à UE foram suspensas por alegadas violações aos direitos humanos após o fracassado golpe militar ocorrido em meados do ano passado, que resultou na demissão e prisão de milhares de pessoas. “A Alemanha deve se tornar mais dura com a Turquia, mas isso deve acontecer gradualmente”, acrescentou.

O QUE DEFENDEM

O programa de governo de Merkel traz poucas novidades e uma mensagem de que nada precisa mudar na Alemanha, segundo os especialistas. Os pontos principais são entregar o pleno emprego no país até 2025, cortar impostos e trabalhar pela segurança, interna e externa.

Schulz focou em atuar pela distribuição da riqueza e por ferramentas de justiça social. Em seus primeiros 100 dias como chanceler prometeu reduzir as diferenças salariais entre homens e mulheres. Em vez de oferecer cortes em impostos, Schulz pretende usar o excedente das contas públicas como investimento em educação e infraestrutura.

COMO FUNCIONA A ELEIÇÃO ALEMÃ

No próximo domingo, 61,5 milhões de pessoas estão aptas a votar nas eleições gerais da Alemanha. Neste dia, os eleitores votarão de forma direta em candidatos que formarão o Bundestag, cujos membros escolherão o chanceler.

A composição do parlamento alemão é decidida por meio de eleições diretas a cada quatro anos. No entanto, os alemães precisam votar duas vezes para eleger no mínimo 598 congressistas. Primeiro, escolhem 299 deles a partir de pleitos distritais nos quais o candidato que conseguir a maioria simples é eleito.

A segunda votação, que definirá as demais 299 cadeiras, acontece em âmbito estadual. Os eleitores votam em listas fechadas de candidatos apontados pelos partidos e que obedecem uma hierarquia. Neste caso, os assentos que o partido terá variam de acordo com o Estado e a proporção dos votos recebidos. O partido precisa garantir um mínimo de 5% de votos.

Definida a distribuição no Bundestag, os partidos então estão livres para negociar coalizões. Aquele partido ou coalizão que controlar a maioria parlamentar, elege o chanceler.

Edição: Pâmela Reis (pamela.reis@cma.com.br)

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