Merkel deve ser reeleita para quarto mandato na Alemanha

12/01/2017 14:26:18

Por: Cristiana Euclydes / Agência CMA

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel. (Foto: Mark Garten/ONU)

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel. (Foto: Mark Garten/ONU)

São Paulo – A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tem grandes chances de sair vencedora nas urnas, no segundo semestre deste ano, e ser eleita para seu quarto mandato no cargo, mas enfrentará uma série de desafios conforme a retórica de partidos anti-imigração ganha força em um cenário político cada vez mais fragmentado.

As eleições, que vão definir os integrantes do parlamento alemão, o Bundestag, ainda não têm data marcada, mas devem ocorrer entre os dias 27 de agosto e 22 de outubro.

Segundo as pesquisas de opinião mais recentes, o partido de Merkel, a União Democrata Cristã (CDU, na sigla em alemão), e seu parceiro de coalizão, a União Social Democrata (CSU), devem receber cerca de 33% dos votos, afirmou o economista do Commerzbank, Marco Wagner.

Em seguida viria o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), com cerca de 21% dos votos. Sigmar Gabriel, líder do SPD e atual vice-chanceler e ministro de Economia, deve disputar a chancelaria com Merkel.

Wagner acrescenta que os principais adversários da chanceler são os partidos A Esquerda e o Alternativa para Alemanha (AfD) – este último um grupo de extrema-direita contrário a imigrantes “que agora recebe 15% dos votos, dos cerca de 5% de 2013 até meados de 2014”. Isso ficou evidente nas eleições estaduais, em março, quando a coalizão de Merkel perdeu votos e o AfD teve resultados recordes.

No atual cenário, seis partidos podem entrar no parlamento nas próximas eleições, tornando a formação de uma coalizão mais difícil, disse o economista-chefe do ING na Alemanha, Carsten Brzeski. Ele afirmou que o CDU e o SPD seriam a única coligação de dois partidos com mais de 50% dos votos, ainda que outras formações sejam possíveis

A única coalizão de governo realista sem a CDU seria com o SPD, A Esquerda e o Partido Verde, mas é questionável se ela essa combinação seria matemática e politicamente possível, disse o economista do IHS Markit, Timo Klein. Para ele, a AfD pode dificultar o processo, “mas ninguém quer formar uma coalizão com eles”.

O Partido Democrático Liberal (FDP) também tem uma chance de retornar ao parlamento, pois deve conseguir mais de 5% dos votos, e ao governo, se forem necessários para garantir a coalizão da CDU.

“Em nosso cenário base, Merkel é forte o suficiente para liderar o próximo governo, seja em uma coalizão com o SPD ou com o Partido Verde e o FDP”, disse Brzeski. “No contexto de uma economia forte, os eleitores podem ser inclinados a votar pela continuidade e a estabilidade”.

Por outro lado, muitas coisas ainda poderiam acontecer antes das eleições, e o estilo político de Merkel – cauteloso, diplomático e não muito franco tem sido criticado com mais frequência nos últimos meses, de forma que uma “mudança de governo não pode ser totalmente excluída”, disse o economista-chefe do ING.

CRISE DE REFUGIADOS

A chanceler tem enfrentado pressão crescente de forças populistas por causa da forma como abordou a crise de imigração. Segundo especialistas, ela começou a alterar suas políticas em relação ao assunto em 2015, quando seus índices de popularidade começaram a cair como reflexo da insatisfação dos eleitores com as políticas imigratórias alemãs.

“Embora a sua primeira abordagem tenha sido uma espécie de política geral de boas-vindas, ela tentou impedir o enorme fluxo de imigrantes assim que reconheceu que a imigração imensa deprimia a sua imagem”, afirmou Wagner, do Commerzbank.

Segundo ele, a população alemã começou a sentir-se desconfortável com o enorme fluxo de requerentes de asilo no primeiro semestre de 2015, quando veio à tona a percepção de que o governo alemão era incapaz de gerir a situação. “Em geral, Merkel parece dar grande ênfase ao que pensam os seus eleitores”, disse.

Já para Klein, do IHS Markit, a redução no número de refugiados na Alemanha, para 200 mil em 2016 em comparação com quase um milhão em 2015, pressionou mais a abordagem de Merkel do que as forças populistas, uma vez que a situação passou a ser gerenciável novamente, e não há “a necessidade urgente de fazer grandes mudanças”.

De acordo com o analista do Rabobank, Elwin de Groot, “embora Merkel tenha sido prejudicada pelo seu tratamento da crise dos refugiados, essa questão continua a ser considerada um fator importante de estabilidade, tanto a nível nacional como a nível europeu e global”. Assim, por enquanto, ela ainda tem uma boa chance de ganhar as eleições, disse.

Ele ressaltou que a economia da Alemanha vai bem, com desemprego em nível recorde e atividade industrial crescendo gradualmente, mas aponta que será difícil para Merkel “reivindicar qualquer grande sucesso de políticas em escala nacional”.

Segundo Brzeski, do ING, a lista de obras inacabadas e novos desafios econômicos tornou-se mais longa na Alemanha. “Basta pensar na falta de novas reformas estruturais, investimentos moderados em infraestrutura tradicional e moderna, ou o impacto do baixo crescimento e baixas taxas de juros sobre o sistema de pensões”, disse ele.

POLITICA EXTERNA

Mesmo que seja reeleita para o cargo, o cenário político que Merkel vai encontrar este ano será distinto do atual, principalmente por causa da ausência do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, seu aliado externo sob vários aspectos. O novo presidente norte-americano, Donald Trump, toma posse no dia 20 de janeiro.

“Merkel já deixou claro que ela pode trabalhar com Trump, desde que ele não mantenha posições contrárias à Constituição alemã”, disse Klein, do IHS Markit. “Merkel é flexível e tem boas habilidades de negociação, mas ela pode ser muito dura – senão ela não seria agora chanceler da Alemanha por mais de 11 anos”.

Na zona do euro, outro parceiro habitual de Merkel, o presidente da França, François Hollande, não vai se candidatar à reeleição este ano. Entre os possíveis sucessores do mandatário francês estão o conservador François Fillon, de centro-direita, e a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen. Quem concorre pelo Partido Socialista, de Hollande, é o ex-premiê Manuel Valls.

“Merkel realmente vem do campo conservador e, portanto, deve ser politicamente mais perto de alguém como Fillon do que de Hollande”, disse Klein, acrescentando que ela pode se relacionar bem com Valls ou o independente Emmanuel Macron, mas com Le Pen seria diferente, devido a suas “posições antieuropeias e nacionalistas, muitas vezes racistas”.

Para Wagner, do Commerzbank, Merkel e Hollande estão trabalhando juntos, mas não são os “aliados dos sonhos”, e tem diferenças por exemplo em seu entendimento sobre a austeridade fiscal – Hollande defende uma abordagem orçamental menos rigorosa, enquanto Merkel quer que os países respeitem as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

“Em geral, considero que Merkel é pragmática e suficientemente flexível para se adaptar a novos chefes de governo e formar fortes alianças também com Trump e qualquer outro que seja o sucessor de Hollande”, concluiu Wagner.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

Este material foi publicado originalmente em 11 de janeiro de 2017 no serviço em tempo real da Agência CMA

Deixar um comentário