Mercado britânico de ações ignora caos do Brexit e consolida ganhos

Primeira-ministra britânica, Theresa May. (Foto: Divulgação)

São Paulo – O mercado financeiro britânico segue consolidando ganhos em meio ao conturbado processo de saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o chamado Brexit, mas analistas consideram que a separação pode ter um papel fundamental no desempenho das ações em um cenário sem acordo ou em com um adiamento maior do prazo de divórcio.

Para o economista de mercado do Rabobank, Stefan Koopman, o bom desempenho do mercado de ações britânico neste momento pode encorajar alguns políticos do país e contribuir para um Brexit ainda mais caótico.

“Em um primeiro momento é possível ver na imprensa a sugestão de que um Brexit sem acordo não teria um grande impacto na economia do Reino Unido, porque o mercado de ações está indo muito bem. O mercado de ações é o mais reconhecido termômetro do desempenho econômico”, afirmou Koopman.

Os números de fechamento do índice FTSE 100, o principal índice de Londres, mostram que nos dias em que grandes decisões são tomadas, o mercado se valoriza. Em 15 de janeiro, o parlamento britânico rejeitou pela primeira vez o acordo de saída da primeira-ministra Theresa May. Neste dia, o FTSE fechou com alta de 0,6% e encerrou aquela semana com ganho acumulado de 0,72%.

No mês de janeiro, a alta foi de 3,49%.

O analista da Nordea, Morten Lund, acredita que o mercado financeiro não desempenhará um grande papel no momento da decisão do Brexit. “Não acho que o mercado financeiro atua com um grande papel neste momento em que o risco de um não acordo não está sendo computado. Além disso, as pessoas que apoiam o Brexit não temem as consequências econômicas do processo”, afirmou Lund.

CORRENDO CONTRA O TEMPO

Desde a primeira votação do acordo do Brexit, o tempo é o principal inimigo do governo. Com o prazo de negociação chegando ao fim, May precisava de um acordo que garantisse uma separação ordenada, mas sua proposta foi novamente rejeitada no último dia 12 pelo parlamento britânico, que acabou aprovando a extensão do prazo de saída previsto originalmente para o próximo dia 29.

May enviou o pedido de adiamento para o Conselho Europeu, que aprovou na semana passada a nova data do Brexit em 22 de maio – um dia antes das eleições do Parlamento Europeu. O conselho indicou, no entanto, que caso o acordo de divórcio não seja aprovado pelos legisladores britânicos, esse prazo seria diminuído para o dia 12 de abril.

Em meio a esse cenário caótico, o mercado de ações britânico manteve os ganhos. Na semana em que o acordo do Brexit foi barrado pela segunda vez e o parlamento britânico aprovou o adiamento do prazo de saída, o FTSE 100 acumulou ganho de 1,74%. No mês de março, até ontem, o índice acumula ganho de 1,58%

O PAPEL DO CÂMBIO

Para o pesquisador especialista em Brexit da Universidade de Surrey, Holger Breinlich, a questão está mais relacionada ao câmbio. “Geralmente, as companhias do FTSE tendem a se beneficiar de um Brexit caótico porque a libra se desvaloriza e a maior parte das empresas e de suas receitas está cotada em outras moedas. Com isso, as receitas e lucros são elevados, assim como o preço das ações”, disse Breinlich.

Koopman, do Rabobank, relembra ainda que a maior parte das companhias listadas no FTSE 100 são multinacionais, com destaque para mineradoras e farmacêuticas. “Estima-se que entre 70 e 75% da receita dessas companhias vêm de fora do Reino Unido. Além disso, essas empresas lucram majoritariamente em dólar”, afirmou.

“Ao mesmo tempo, o índice é cotado em libra e as empresas pagam seus dividendos na moeda local. Isso significa que se a libra se enfraquece por conta do aumento da incerteza política, o valor das receitas em libras cresce”, acrescentou Koopman.

O economista do Rabobank dá um exemplo: se uma empresa ganha US$ 100, na conversão esse ganho cai para 74,1 libras no caso de uma taxa de câmbio relativamente forte de 1,35. Mas quando a taxa de câmbio cai para 1,25 devido à maior incerteza política, essas receitas subitamente sobem para 80 libras.

“Esta é a principal razão pela qual o FTSE 100 aumenta se o valor da moeda cair”, completou.

O CAOS CONTINUA

O conturbado processo de separação do Reino Unido da União Europeia ainda parece longe do fim. Ontem, o parlamento britânico aprovou uma emenda que prevê que os deputados assumam o controle da agenda do Brexit, abrindo caminho para novas opções ao processo de separação.

Os legisladores se preparam para mais uma votação amanhã, quando podem minar de vez o controle de May sobre o divórcio.

“Parece que não estamos nem um pouco perto de uma solução parlamentar sobre o que fazer com o Brexit, com conversas no fim de semana apontando que a primeira-ministra deve ser forçada a deixar o cargo”, disse o analista chefe da CMC Markets, Michael Hewson.

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