Mercado avalia chance de Petrobras manter política de preços

06/06/2018 14:51:37

Por: Wilian Miron / Agência CMA

Foto: Divulgação/Petrobras

São Paulo – A crise aberta pela greve dos caminhoneiros, que paralisaram o País durante nove dias em protesto contra o aumento no preço dos combustíveis, levantou questionamentos sobre a viabilidade da metodologia praticada pela Petrobras desde 2017, na qual a companhia reajusta diariamente os preços do diesel e da gasolina, acompanhando as flutuações do câmbio e do petróleo no mercado internacional.

De um lado, o governo e a Petrobras negam que haverá mudanças na maneira como a companhia define o preço que venderá os combustíveis nas refinarias.

De outro, até mesmo agentes do mercado veem como improvável que a empresa consiga sustentar a lógica de manter o custo da gasolina e do óleo diesel atrelados a fatores externos.

Segundo o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila, é provável que o governo faça alterações apenas na periodicidade com a qual os preços são remarcados, mantendo a chamada dolarização dos produtos, considerada fundamental para a estratégia atual da companhia, de aproveitar a alta da commodity no mercado internacional.

“Do jeito que vem acontecendo, com reajustes diários, acho complicado manter. Mas o que pode mudar é a periodicidade, e se mantido o reajuste lastreado nas cotações do dólar e do petróleo, a empresa não perderá nada”, diz Chinchila.

A primeira medida tomada pelo governo com a anuência da petrolífera foi o estabelecimento de um subsídio de R$ 0,46, composto por redução de impostos, para baratear temporariamente o óleo diesel. Tal medida, somada à perspectiva de que os cálculos da estatal sejam revistos, levaram Pedro Parente a entregar o cargo ao presidente Michel Temer.

No entanto, para o vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP), Ildo Luis Sauer, tanto a maneira como a empresa determina o custo dos combustíveis quanto o subsídio proposto pelo governo, são inviáveis, uma vez que os da commodity e da moeda norte-americana estão fora do controle do governo a da própria Petrobras.

“A gente não sabe como essas variáveis vão se comportar. O ideal é que o governo assumisse que a Petrobras é uma empresa estratégica e que poderia ajustar suas finanças de outro jeito, pois o que temos hoje é uma política que favorece os investidores e quebra o Tesouro Nacional”.

POLITICA DE PREÇOS E SUA POSSIVEL MOTIVAÇÃO

A estratégia da Petrobras de atrelar os preços dos combustíveis a variáveis externas, somada à redução do refino de petróleo no mercado interno, estaria atrelada ao projeto do governo Michel Temer (MDB) de incentivar a concorrência no setor, com a importação de combustíveis, como forma de incentivar que grupos externos instalem-se no mercado de refino no País.

Hoje, a petrolífera brasileira detém 99% deste mercado, o que poderia desencorajar a entrada de novos competidores no País. De acordo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em março deste ano, as refinarias brasileiras refinaram 1,6 milhões de barris dia, 68% da capacidade de 2,4 milhões de barris por dia. Caso a estatal utilizasse toda sua capacidade de refino, a quantidade de combustíveis produzido no País poderia atender com sobra o consumo diário de 2,2 milhões.

“A Petrobras abriu mão de market share porque ela manteve preços acima do mercado internacional, favorecendo os importadores privados. Não sei o que há de estratégico nisso, mas ela se viu perdendo mercado aqui dentro, vendendo óleo cru”, comenta Sauer.

Para o economista do Dieese, Cloviomar Cararini, o governo dificilmente vai mexer nos pontos principais da política de preços, já que ela é fundamental para o projeto de privatização da área de refino da Petrobras.

“Há uma estratégia política do governo Temer, que é abrir o setor de refino para a iniciativa privada, e a forma como a Petrobras foi administrada, com redução no refino somada à dolarização dos combustíveis, ajuda a explicar o método que o governo está utilizando para transformar o segmento em privado”.

Já a Petrobras justifica sua estratégia de mercado sob o argumento de que teria 80% de sua dívida atrelada em moeda estrangeira, sendo 73% em dólar.

“A menos que aumentemos os preços de nossos produtos para refletir a depreciação o real, nossa geração de caixa relativa à nossa capacidade de serviço da dívida pode diminuir”, diz a empresa no formulário F-20 entregue à Securities and Exchange Commission (Sec, o órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos).

Edição: Leandro Tavares (leandro.tavares@cma.com.br)

 

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