Inflação desacelera com alimentos, mas grupo é dúvida nos meses à frente

Por Olívia Bulla

São Paulo – A forte desaceleração do índice oficial de preços ao consumidor brasileiro (IPCA) em maio em relação a abril, de 0,57% para 0,13%, no menor resultado para o mês desde 2006 (+0,10%), foi influenciada pela queda de 0,56% no grupo Alimentação e Bebidas no período.

Porém, o comportamento dessa classe de despesa até o fim do ano (e no decorrer de 2020) é incerta.

“É justamente nesse grupo que reside a maior incógnita do IPCA para os próximos meses”, diz o economista-chefe da Mapfre Investimentos, Luís Afonso Lima. Para ele, a deflação do grupo no mês passado pode ter sido “pontual”, pois a “bonança da oferta agrícola” em 2017 e 2018, que aliviou a pressão sobre os alimentos, não deve se repetir neste ano.

“Somado a isto, a peste suína asiática, que atinge o rebanho suíno chinês e inviabiliza o consumo humano da proteína animal, tomou proporção significativa o suficiente para transformar a conjuntura do mercado mundial das carnes substitutas, especialmente frangos e bovinos”, acrescenta.

Lima observa que pode haver uma “mudança no comportamento” dos produtores. “A tendência é de que a escassez [de carne suína na China] seja suprida pela produção brasileira e isso pressione os preços domésticos [de carnes] no segundo semestre”, conclui. Na mesma linha, o economista-chefe do Santander Brasil, Maurício Molan, ressalta que a peste suína na China pode mudar a cadeia mundial de suprimentos para os próximos anos.

“As importações de carne da China devem aumentar significativamente e a diferença entre oferta e demanda resultará em preços de proteínas mais altos para os próximos anos”, avalia. Molan acrescenta que o país asiático também deve elevar a demanda por carne de frango e bovina, pressionando os preços domésticos desses produtos. “Esperamos um grande choque de oferta, que afetará a inflação brasileira”, observa o economista do Santander.

Tendência ou ponto fora da curva?

Com isso, o economista da Infinity Asset, Jason Vieira, pondera que ainda é preciso avaliar se o cenário de preços em desaceleração no Brasil, apresentado em maio, irá confirmar como tendência ou se é apenas um “ponto fora da curva”. “As chuvas do primeiro trimestre foram excessivas e prejudicaram muitas culturas, mas agora estabilizaram bem”, diz.

“Mas ainda preocupam as culturas de milho, soja e o impacto da peste suína”, pondera o economista, referindo-se também aos campos de colheita das commodities agrícolas nos Estados Unidos, que sentem os efeitos da guerra comercial com a China. “A colheita em 2017 foi recorde. Em 2018 também foi grande, mas abaixo do recorde. Já o campo de 2019 ainda está em fase infantil”, conclui Vieira.

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