Ibovespa e dólar sobem de olho na (des)articulação do governo Jair Bolsonaro

São Paulo – O Ibovespa fechou em alta de 2,17%, aos 91.946,19 pontos, recuperando parte das perdas de 4,5% da semana passada com investidores aproveitando para ir às compras enquanto observam tentativas do governo de fazer a reforma da Previdência voltar a andar. Com isso, o índice ignorou a queda dos principais mercados acionários no exterior, em função da maior tensão comercial entre a China e os Estados Unidos.

O volume total negociado foi de R$ 24,4 bilhões, sendo que o exercício de opções sobre ações movimentou R$ 9,26 bilhões.

“Houve uma correção dos movimentos de queda recentes e buscas por papéis que ficaram baratos, na ausência de notícias negativas”, disse o socio-analista da Eleven Financial Research, Raphael Figueredo. Para que essa recuperação continue nos próximos dias, porém, o analista avalia que irá depender principalmente do noticiário político, com o governo fazendo a sua parte e “mantendo a agenda e o rito da reforma da Previdência”.

Na semana passada, a preocupação com falta de articulação do governo aumentou e se chegou a falar que uma proposta alternativa ao texto do governo sobre a Previdência. No entanto, a ideia parece ter sido deixada de lado. Hoje, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o relator do projeto na comissão especial da Câmara dos Deputados, Samuel Moreira (PSDB-SP), deram declarações mais otimistas após se reunirem. Moreira disse que seu relatório será entregue no prazo, até dia 15 de junho, e ainda não está pronto, mas será provavelmente um substitutivo do projeto original, que, segundo ele, é algo normal dentro do trâmite parlamentar.

Já no cenário externo, o dia foi de queda das bolsas norte-americanas e europeias depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proibiu a empresa chinesa Huawei de fazer negócios com companhias norte-americanas.

Entre as ações, as de bancos, como da Itaú Unibanco (ITUB4 2,60%) e Banco do Brasil (BBAS3 3,84%), sustentaram a alta do Ibovespa, ao lado dos papéis da Petrobras (PETR3 2,10%; PETR4 3,44%). Dessa forma, compensaram a queda das ações da Vale (VALE3 -1,86%), que ficaram entre as maiores quedas do índice e devolveram parte das últimas altas. As maiores valorizações foram das ações da Cyrela (CYRE3 6,88%), da Braskem (BRKM5 10,11%) e Multiplan (MULT3 6,40%).

Nos próximos dias, investidores devem continuar atentos à guerra comercial e à cena política. “É difícil saber qual será o comportamento do investidor diante desse cenário político. As coisas estão estranhas, o Congresso e o governo ainda estão batendo cabeça, mas há expectativa de que Maia [Rodrigo, presidente da Câmara] possa intervir e de repente a Previdência destrave”, afirmou o gerente da mesa de operações da H.Commcor, Ari Santos.

O dólar comercial, por sua vez, fechou em leve alta de 0,07% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1050 para venda, em sessão em que a moeda oscilou sem rumo definido acompanhando o noticiário político local, o exterior e ainda, com o leilão de linha – venda de dólar com compromisso de recompra – do Banco Central (BC) com a oferta de US$ 1,25 bilhão.

Para o diretor da Correparti, Ricardo Gomes, o resultado do dólar foi apoiado na “persistente ausência de entendimento entre governo e legislativo na questão reforma da Previdência”, avalia. Hoje, o presidente Jair Bolsonaro comentou sobre os rumores de que parlamentares estejam preparando uma nova reforma. “Se a Câmara e o Senado têm proposta melhor, que ponham em votação”, disse em evento no Rio de Janeiro.

“A Previdência precisa de coordenação. Falta justamente uma boa coordenação para conseguir juntar os votos necessários e aprovar a reforma. A gente não vê Bolsonaro e Maia [Rodrigo, presidente da Câmara dos Deputados] juntos para conseguir apoio e aprovar o texto”, pondera o estrategista-chefe de um banco estrangeiro.

Em meio às incertezas no cenário externo e na política local, além da agenda de indicadores esvaziada amanhã, os analistas comentam que a moeda tende a se manter neste patamar, com espaço para buscar “novas altas” ao longo da semana, comentam. “É preciso acompanhar lá fora, mas é uma semana bastante pessimista. O cenário não deve melhorar nos próximos pregões”, comenta economista-chefe do Ourinvest, Fernanda Consorte.

Danielle Fonseca e Flávya Pereira / Agência CMA