Há pouco mais um de ano de eleição nos EUA, cenário aponta para derrota de Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Foto: Divulgação/ Campanha Make America Great Again

Por Cristiana Euclydes

São Paulo – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem poucas chances de conseguir um segundo mandato nas eleições presidenciais norte-americanas de novembro de 2020, perdendo para o democrata Joe Biden, seu provável rival, de acordo com analistas consultados pela Agência CMA. Eles lembram, no entanto, que o processo eleitoral está no começo e destacam a capacidade de Trump de vencer em cenários com margens apertadas.

Há pouco mais de um ano das eleições, a maioria das pesquisas de opinião recentes mostra que Trump perderia a disputa pela Casa Branca. Um levantamento nacional feito pela Fox News, com 1 mil eleitores entre os dias 9 e 12 de junho, mostrou que Biden obteria 49% dos votos e Trump, 39%.

Já uma pesquisa da Universidade de Quinnipiac, na Flórida, com 1,2 mil eleitores entre os dias 6 e 10 de junho, mostrou que Biden lideraria o pleito com 53% dos votos, enquanto Trump teria 40%. Outros cenários, com candidatos democratas distintos, também colocam Trump como perdedor, mesmo com margens apertadas.

“Trump está perdendo em muitas pesquisas nacionais, mas isso certamente não significa que ele não possa vencer. O apoio a um candidato pode mudar muito durante o ciclo eleitoral”, disse o professor do departamento de Ciência Política da Florida Atlantic University (FAU), Kevin Wagner.

“O presidente tem uma forte base de apoio e mostrou que é capaz de vencer uma eleição apertada”, afirmou Wagner. “Seus números de aprovação tendem a permanecer em um intervalo razoavelmente estável. Isso o ajuda porque seus seguidores tendem a ficar com ele”, acrescenta Wagner.

A professora de ciência política na Christopher Newport University, Rachel Bitecofer, disse que Trump tem “uma base furiosa de eleitores confiáveis. Espero forte participação entre os eleitores republicanos, mais forte que em 2016”.

A base de apoio forte garante a Trump um amplo financiamento de campanha, maior do que o de qualquer pré-candidato democrata. A campanha de Trump e o Comitê Nacional Republicano (RNC, na sigla em inglês) arrecadaram juntos mais de US$ 75 milhões no primeiro trimestre, segundo o comitê.

A pesquisadora sênior do American Enterprise Institute (AEI), Karlyn Bowman, disse que a grande força de Trump até o momento é o desempenho da economia dos Estados Unidos. Para ela, os dados mostrando Biden e outros candidatos democratas vencendo “são apenas retratos instantâneos e muito pode mudar até novembro” de 2020.

Além disso, ela destacou que a disputa vai depender de quem será o oponente democrata de Trump. Muitas pesquisas indicam que Biden, ex-vice-presidente de Barack Obama, é o pré-candidato mais forte contra Trump.

Também estão na disputa das primárias democratas o senador Bernie Sanders, que perdeu em 2016 para Hillary Clinton; a senadora Elizabeth Warren; o ex-deputado Beto O’Rouke e o senador Cory Booker, entre outros.

Bowman também defende a prática de observar pesquisas eleitorais, criticada após muitos levantamentos mostrarem a candidata democrata Hillary Clinton à frente de Trump, em 2016. “As pesquisas nacionais foram muito precisas em 2016. Eles estimaram que Hillary Clinton ganharia o voto popular, e ela o fez”, afirmou.

Segundo a pesquisadora do AEI, as enquetes estaduais mostraram dados defasados e muitos especialistas, incluindo a campanha de Clinton, pararam de fazer levantamentos nos principais estados industriais do Meio-Oeste nas últimas semanas da campanha. “Somos um sistema federal em que os eleitores de todos os 50 estados votam. Por isso, é de vital importância ouvir as pessoas nos principais estados até o último minuto”.

Na semana passada, Trump realizou o lançamento oficial de sua campanha, questionando o público se deveria manter seu slogan de 2016, “Make America Great Again” (Fazer a América Grande de Novo, em tradução livre), ou mudá-lo para “Keep America Great” (Manter a América Grande).

No comício, na Flórida, ele repetiu boa parte do discurso da campanha de 2016, posicionando-se como um “outsider”, mesmo estando há dois anos e meio no cargo de presidente, condenado a imigração ilegal, apelando pela construção de um muro na fronteira com o México e criticando a mídia.

DESAFIOS

Entre os desafios que Trump vai enfrentar no caminho para a reeleição estão suas taxas baixas de aprovação, refletindo em especial a insatisfação da população com a forma com que tem conduzido a política externa e o comércio.

Nacionalmente, Trump tem apenas cerca de 44% de aprovação, contra 54% de desaprovação, segundo uma média calculada pela Real ClearPolitics, que agrega dados de notícias e pesquisas políticas.

Bownman, do AEI, destacou que Trump precisa melhorar as taxas para se reeleger. “A taxa de aprovação de Trump se deslocou em uma faixa muito estreita de 38% para 44% durante a maior parte de sua presidência. Para ter confiança na reeleição, o índice de aprovação deve ser maior do que isso. Ele parece estar se apegando a seus principais apoiadores, mas isso não é suficiente para ganhar a reeleição. Ele precisa expandir seu apoio”.

Da mesma forma, Wagner, da FAU, destacou que um obstáculo para Trump é a dificuldade em expandir sua base de apoio, “o que significa que ele tem um caminho mais estreito para a vitória”, disse.

Bitecofer, da Christopher Newport University, prevê ainda que o voto das mulheres será um fator crítico em 2020, como foi em 2016, e elas são, em sua maioria, contrárias a Trump.

Além disso, “suas taxas ao lidar com política externa e comércio são mais negativas do que positivas”, segundo Bowman, do AEI.

Trump deu início no ano passado a uma disputa comercial com a China, e atualmente Washington aplica taxas de 25% a cerca de US$ 250 bilhões em bens importados chineses. Pequim aplicou medidas de retaliação. As tensões têm levado para baixo os mercados de ações globais e têm afetado a economia de ambos os países.

Outro fator que pode influenciar na intenção de Trump à reeleição é o inquérito do investigador especial Robert Mueller sobre a interferência da Rússia nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, que foi divulgado em abril. O relatório não apontou nenhum envolvimento russo na campanha de Trump e reportou evidências insuficientes de obstrução da justiça pelo presidente, mas deixou claro que houve interferência do governo russo naquele pleito.

Para Wagner, da FAU, é difícil dizer se o relatório terá um impacto positivo ou negativo para Trump nas eleições de 2020. “Nem todos veem os resultados do relatório de Mueller da mesma forma. O presidente e seus partidários estão usando-o para sugerir que o inquérito deve terminar e o presidente está livre dessas questões. Outros o veem como motivo para o impeachment. De certa forma, o relatório motiva os dois lados”, afirmou.

Já Bowman, do AEI, afirmou que, neste momento, a investigação de Mueller não é um tópico importante para a maioria dos norte-americanos, embora seja para os democratas, pois a maioria deles acha que Trump deveria sofrer um impeachment. “A maioria dos norte-americanos está satisfeita com o relatório de Mueller e quer seguir em frente”.

Por sua vez, Bitecofer, da Christopher Newport University, prevê que Trump deve perder a eleição devido a um comportamento que chama de partidarismo negativo. Segundo ela, os eleitores são mobilizados não pelo amor de seu próprio partido, mas pelo ódio ao partido da oposição.

“O partidarismo negativo beneficia especialmente o partido que não detém a presidência, porque os eleitores de fora do partido se veem vivendo em um mundo onde suas preferências políticas estão sob ataque constante, ou pelo menos parecem ser assim”, disse Bitecofer.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com