Fim da “era Merkel” será marcada por continuidade

POR: CAROLINA PULICE / AGÊNCIA CMA


Angela Merkel, chanceler da Alemanha (Divulgação/Conselho da União Europeia)

São Paulo – A situação econômica da Alemanha dividirá os holofotes com a situação política do país em meio ao fim da chamada “era Merkel” em um momento no qual Berlim dá sinais de enfraquecimento. Analistas consultados pela Agência CMA, porém, não acreditam na perda da força da maior potência da Europa.

No mês passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou para uma desaceleração do crescimento na União Europeia (UE), motivada principalmente pela desaceleração da Alemanha e a questão bancária na Itália. A desaceleração do país, por sua vez, se dá principalmente por conta do setor automobilístico.

O apontamento não foi à toa. Em janeiro, o departamento nacional de estatísticas divulgou um superávit comercial de 20,5 bilhões de euros em novembro, queda de 13,9% na comparação com novembro de 2017 e alta de 8,5% em relação a outubro.

No mesmo mês, o índice de produção industrial da Alemanha caiu 1,9% em novembro na comparação mensal, para 103,0 pontos, segundo dados divulgados pelo Ministério de Economia e Tecnologia do país. Os números são ajustados por fatores sazonais. Em outubro, o índice havia recuado 0,8%.

“Olhando à frente, ainda há muitas razões para se manter otimista: apesar da recente queda dos novos pedidos, o caderno de encomendas continua completamente preenchido e companhias ainda reportam uma produção assegurada perto dos níveis recordes”, disse o economista chefe do ING na Alemanha, Carsten Brzeski.

Já o Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha cresceu 1,5% em 2018 na comparação com o ano anterior, uma desaceleração após a alta de 2,2% em 2017. Na semana passada, a Comissão Europeia rebaixou a previsão de PIB para 2019, de 1,8% para 1,1%.

POTÊNCIA PERDE FORÇA

Os analistas apontam a crise no setor automobilístico como o principal fator inicial para a desaceleração na economia do país. No ano passado, a indústria de automóvel do país sofreu uma forte desaceleração por conta da decisão do governo de interromper a produção e venda de veículos movidos a diesel. A escolha, feita por motivos ambientais, levou a uma desaceleração da demanda geral por veículos.

A economista sênior do Departamento de Pesquisa do Intesa Sanpaolo, Anna Grimaldi, afirma que estimativas mostram que a diminuição da produção de veículos – de 5% entre junho e novembro de 2018 – impactou em 0,25% o PIB da Alemanha.

“Apesar de a indústria automotiva ser a chave da desaceleração, a economia inteira do país teve um impacto de 10% da taxa de emprego. Há mais do que uma simples desaceleração na indústria dos carros”, afirma o economista chefe do ING na Alemanha, Carsten Brzeski.

Além disso, os especialistas atribuem a desaceleração a questões externas, como a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, o temor sobre a desaceleração global e o Brexit, como é conhecido o processo de saída do Reino Unido da UE.

“Na minha opinião, essas causas são mais relevantes do que a economia do próprio país”, afirma o economista e analista sênior da Bertelsmann Stiftung, Thieb Petersen. “Esses acontecimentos estão piorando o desenvolvimento econômico e o comércio global. Países exportadores como a Alemanha sofrem particularmente com a desaceleração global”, acrescentou.

Diante desse cenário, a Alemanha pode enfrentar uma recessão técnica ou seja, dois trimestres consecutivos de retração -, mas com um risco limitado, uma vez que os setores privados e financeiros não mostram uma severa correção pela frente.

“A demanda doméstica é fundamental e está mais do que sólida”, afirmou Grimaldi, do Intesa Sanpaolo, acrescentando que o país tem capacidade de usar a política fiscal para apoiar a demanda e reagir a um possível choque externo ou interno. A questão que paira no ar, portanto, será de quem poderá guiar essa política fiscal.

MUDANÇAS POLÍTICAS

A chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou em outubro do ano passado que não iria mais concorrer à presidência de seu partido, o União Democrata-Cristã (CDU), e deixaria o cargo de chanceler em 2021.

A decisão ocorreu em meio a uma derrota de seu partido na eleição regional de Hessen, marcando o início do fim da “era Merkel”. A chanceler, porém, não deixará seu poder político de lado, e pode já ter encaminhado uma sucessora para seu lugar.

Em dezembro, Annegret Kramp-Karrenbauer venceu as eleições para liderar o CDU de Merkel. Ela passou a ser vista como potencial sucessora da chanceler nas eleições de 2021.

Para o professor da Universidade de Munique e diretor do Centro de Pesquisas de Políticas Aplicadas em Munique, Werner Weidenfeld, Merkel possui capital político suficiente para se manter como uma personagem influente na política do país.

“Angela Merkel é a primeira chanceler na história da República Federal da Alemanha a tomar a iniciativa e organizar o fim e o caminho para um sucessor. Somente ela entrega esse legado na história”, afirma Weidenfeld.

E a sucessora de Merkel já tem um plano para manter a Alemanha como motor de crescimento da Europa. Em entrevista no início do ano, Kramp-Karrenbauer afirmou que advogaria em favor de cortes de taxas para evitar o resfriamento do crescimento do país.

Analistas acreditam que a sucessora de Merkel terá capital político suficiente para controlar um possível enfraquecimento da economia, mesmo que não seja necessário.

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