Fed deve preparar caminho para corte de juros nesta reunião

Por Carolina Pulice

Jerome Powell, presidente do banco central norte-americano Foto: Divulgação/ Federal Reserve

São Paulo – O Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) deve preparar o caminho para futuros cortes na taxa básica de juros no encontro de política monetária de dois dias que começa amanhã.

Segundo especialistas consultados pela Agência CMA, as tensões comerciais e um cenário econômico mais desfavorável são os principais responsáveis pela mudança de postura, já esperada pelo mercado.

Embora os analistas tenham passado a prever um afrouxamento monetário maior neste ano, não há consenso sobre o número de cortes de juros que serão realizados. Parte espera duas reduções da taxa básica – atualmente na faixa entre 2,25% e 2,50% – enquanto outra parcela prevê até quatro em 2019.

“Refletindo as expectativas de incerteza na política comercial, um Produto Interno Bruto (PIB) menor e nossa interpretação sobre a posição política do FOMC [Comitê Federal de Mercado Aberto], revisamos nossa projeção de perspectiva para os juros. Agora esperamos que o comitê corte a taxa duas vezes neste ano, em julho e de outubro”, disse o economista chefe do Wells Fargo para os Estados Unidos, Sam Bullard.

A ideia de que o Fed pode anunciar mais cortes de juros ocorre por conta de uma série de indicações políticas e do próprio banco central, que passou a se concentrar mais na inflação, uma vez que o pleno emprego – que faz parte do mandato duplo determinado pelo Congresso – já foi atingido.

A mais emblemática indicação de mudança foi a declaração do presidente do Fed, Jerome Powell, que no início do mês afirmou que a autoridade monetária iria agir “de forma apropriada” para sustentar a expansão econômica dos Estados Unidos.

A fala foi interpretada pelo mercado como uma abertura para o corte de juros, desejo já declarado pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Este, por sua vez, já tinha feito diversos comentários pressionando o banco central norte-americano a ser mais positivo e contribuir com a expansão da economia do país.

Na semana passada, Trump disse que o Fed cometeu um “grande erro” ao aumentar os juros em dezembro e que isso deu aos chineses vantagens nas negociações comerciais em meio a uma guerra comercial travada entre as duas maiores economias do mundo.

No ano passado, o Fomc realizou quatro altas de juros. Além disso, na reunião de março, quando divulgou suas projeções, o comitê indicou que não previa novos aumentos da taxa básica este ano. O tempo passou e a pressão política e econômica indicam que o Fed pode rever seu posicionamento, e indicar novos cortes na taxa de juros já que a decisão será acompanhada de projeções econômicas e para os juros.

PIORA DO CENÁRIO INTERNO E EXTERNO

Para o Bank of America Merrill Lynch, o cenário externo e interno se agravou. “A guerra comercial passou por um escalada, e a economia dos Estados Unidos vai sentir a dor. Esperamos agora uma média de crescimento de apenas 1,2% no segundo semestre. O Fed deve responder com um afrouxamento para ‘sustentar esta expansão’, com a esperança de puxar a economia. Esperamos que o primeiro corte venha em setembro”, afirmou em nota.

O economista sênior da Capital Economics, Michael Pearce, também acredita em um anúncio de corte de juros, mas alerta para a expectativa diferente do mercado. “Esperamos uma desaceleração no crescimento, que deve pressionar o Fed a cortar os juros, particularmente com uma inflação fraca. Mas é difícil ver isto acontecendo antes do encontro do comitê de setembro, apesar de o mercado ter começado a precificar o corte para julho”, afirma.

Para o analista chefe da Nordea, Anders Svendsen, o Fed pode anunciar quatro cortes este ano, com início em julho. “A precificação do Fed mudou rapidamente no último mês, e o presidente Jerome Powell abriu recentemente a porta para um ajuste se necessário”, afirmou.

INDICAÇÕES DO LADO DE DENTRO

Powell não foi o único a indicar que o Fed poderia adotar novas medidas para manter o equilíbrio da economia dos Estados Unidos. Ao longo de maio, membros do Fed sinalizaram sobre um possível corte na taxa de juros.

O presidente da unidade do Fed de Nova York, John Williams, disse que o banco central norte-americano precisava reavaliar sua abordagem de política monetária em meio às perspectivas de desaceleração econômica e inflação baixa.

Já no início deste mês, uma das diretoras do Fed, Lael Brainard, sinalizou uma abertura para reduzir a taxa básica do país. Em entrevista ao site “Yahoo Finance”, ela não confirmou qualquer ação iminente, mas disse que a política comercial é uma questão negativa para as perspectivas, e que estava observando os dados para determinar qual pode ser o próximo passo do banco central.

Além dela, o vice-presidente do Fed, Richard Clarida, disse que a economia dos Estados Unidos está em um bom momento e que é trabalho do Federal Reserve garantir que permaneça assim.

“Há três motivos principais para acreditarmos que o corte nos juros pode acontecer: a escalada da guerra comercial; o medo do mercado de uma recessão e a mudança de postura do Fed, com o foco maior na inflação fraca e nas expectativas de inflação”, afirmou Svendsen, da Nordea.

“Esperamos que o Fed continue cortando a taxa de juros em um ritmo trimestral até a economia mostrar sinais de recuperação que, de acordo com nossa projeção, vai ocorrer no meio de 2020. Quatro cortes na taxa de juros ao longo do próximo ano está em linha com o que o mercado precifica”, acrescenta Svendsen.

PROJEÇÕES ECONÔMICAS

O Fed também vai divulgar suas projeções para a economia dos Estados Unidos. Para o vice-presidente da Scotiabank Economics, Derek Holt, o Fed deve aumentar a projeção de crescimento do PIB para este ano e reduzir para 2020 ao mesmo tempo em que pode rebaixar a projeção de inflação.

“O crescimento do PIB pode ser elevado em 2019 por conta do fortalecimento do primeiro e do segundo trimestres, mas a expansão para 2020 pode ser rebaixada. Diminuir a projeção de inflação para abaixo de 2% é provável e daria mais ‘músculo’ para os sinais de acomodação”, concluiu Holt.

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