Fed deve manter taxa de juros agora e corte pode vir ainda este ano

Por Cristiana Euclydes

O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Foto: Divulgação/ Federal Reserve

São Paulo – O Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) deve adotar um tom mais propenso ao afrouxamento na reunião que começa hoje, diante da fragilidade da inflação e de alguns riscos à economia, segundo especialistas consultados pela Agência CMA. A expectativa é de que a autoridade monetária mantenha os juros inalterados neste encontro e, parte deles, aposta no corte da taxa básica ainda este ano.

Atualmente, os juros estão na faixa entre 2,25% e 2,50% ao ano, patamar mantido nas duas últimas reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), após uma alta de 0,25 ponto percentual (pp) em dezembro de 2018. Em março, o Fed reduziu a zero as projeções de aperto monetário em 2019 e reforçou sua postura paciente e dependente de dados.

Na ocasião, o o banco central norte-americano indicou que a desaceleração da economia vista no quarto trimestre de 2018 iria continuar no primeiro trimestre deste ano. Na sexta-feira, porém, os dados do Departamento do Comércio mostraram alta de 3,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do país de janeiro a março em base anualizada, acima da alta de 2,5% esperada pelo mercado e após crescimento de 2,2% no trimestre anterior.

Outros dados também vieram fortes. Os pedidos de bens duráveis subiram 2,7% em março ante o mês anterior, após a queda de 1,1% em fevereiro. Já as vendas no varejo aumentaram 1,6% em março em base mensal, após queda de 0,2% em fevereiro. Com relação ao emprego, o país criou 196 mil vagas em março, após a abertura de 33 mil vagas em fevereiro.

“Nós, porém, achamos que um crescimento melhor do que o esperado no primeiro trimestre não fará com que o Fomc altere significativamente sua visão sobre a economia”, disse o analista da Nordea, Kjetil Olsen. Segundo ele, a economia parece ter melhorado mais do que o previsto, mas ainda há incertezas, em especial vindas do exterior.

Além disso, os especialistas lembram que os dados do PIB podem ser revisados na segunda leitura. “A paralisação parcial das atividades do governo, as disputas comerciais, gastos do governo e questões sazonais distorceram esse crescimento do PIB”, segundo analistas do Rabobank, em relatório.

“No geral, o PIB atual mostra que a economia dos Estados Unidos ainda tem impulso suficiente para evitar uma recessão de curto prazo”, afirmaram. Para os analistas do Rabobank, porém, os Estados Unidos devem entrar em recessão no segundo semestre de 2020, quando o Fed deve começar a cortar sua taxa básica, conforme indica a curva parcialmente invertida de juros.

A chamada inversão da curva de juros – quando os juros de mais longo prazo ficam abaixo daqueles de curto prazo – muitas vezes precedeu recessões.

Para o economista da Capital Economics, Michael Pierce, o presidente do Fed, Jerome Powell pode reconhecer em sua coletiva de imprensa após a reunião que os riscos negativos para as perspectivas estão desaparecendo.

“Mas o tom geral ainda é provável que seja dovish [propenso ao
afrouxamento], porque as autoridades estão cada vez mais preocupadas com a recente queda do núcleo da inflação e com as expectativas de inflação”, disse Pierce. “Nós esperamos que uma desaceleração econômica para abaixo de seu potencial de 2,0% force o Fed a cortar a taxa antes do final do ano”, acrescenta.

INFLAÇÃO

O índice de preços ao consumidor (CPI,na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 1,9% em março em base anual, após a alta de 1,5% em fevereiro. O núcleo do índice, porém, subiu 2,0% em março, desacelerando após a alta de 2,3% em fevereiro. Várias medidas de pesquisa sobre expectativas de inflação também caíram nos últimos meses.

“A baixa inflação é uma preocupação em si, mas também significa que o Fed será especialmente sensível a quaisquer sinais de enfraquecimento nos dados”, disse Pierce, da Capital Economics.

Olsen, da Nordea, acredita que a inflação ainda está branda e a leitura mais recente foi, no mínimo, negativa. “A maioria dos membros do Fomc parece estar mais focada do que antes e mais disposta do que antes a deixar a inflação ultrapassar a meta de 2,0%”, disse. “Isso provavelmente significa que mesmo que o crescimento surpreenda positivamente, o Fed precisa ver uma aceleração significativa na inflação acima da meta de 2,0% para começar a pensar em retomar o aperto”.

De acordo com Olsen, “novas decepções inflacionárias podem até iniciar um debate sobre cortes de juros” mas, no geral, o Fed ainda sente que está em um bom lugar e não devem sinalizar uma visão diferente sobre a política monetária daqui para frente.

Ainda segundo o analista da Nordea, como não há novas previsões econômicas, o foco estará na coletiva de imprensa. “Nós e o mercado buscaremos particularmente novas visões sobre inflação e expectativas de inflação e a discussão em torno da superação da meta”.

O economista do Société Générale, Stephen Gallagher, destacou que os membros do Fed estão discutindo vários regimes de metas de inflação. “O Fed cortará a taxa se a inflação estiver com baixo desempenho? Essa pergunta provavelmente não será respondida nesta semana”, afirmou.

Além das perspectivas de inflação, Powell também deve ser questionado sobre as interferências políticas nas decisões do banco central norte-americano, após receber diversas críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e após Trump fazer indicações políticas aos cargos vagos no conselho do Fed.

Trump havia sinalizado que indicaria Herman Cain, que já foi pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano, mas Cain se retirou da disputa na semana passada, reduzindo o risco imediato de um Fed mais politizado. “Mas isso não desapareceu completamente. Trump ainda busca indicar, e o Senado aprovar, um partidário mais bem qualificado ao conselho do Fed”, disse Pierce, da Capital Economics.

CONTROLE DE JUROS

Outra questão que pode ser discutida pelos membros do Fomc nesta reunião é o controle efetivo e eficiente da taxa de juros. A taxa se aproximou do limite superior da faixa atual de 2,25% a 2,50%.

O Fed pode estar considerando mudanças na taxa de juros sobre reservas excedentes (IOER, na sigla em inglês) para aliviar a pressão sobre os juros. “Não esperamos uma ação imediata nesta semana, mas sinais podem ser oferecidos na coletiva de imprensa para preparar os mercados para uma ação de acompanhamento”, disse Gallager, do Société Générale.

Pierce disse que as taxas de juros de curto prazo estão pressionadas, e que em um discurso recente do presidente Fed de Nova York, John Williams, ele argumenta que isso reflete fatores como a maior emissão de títulos do Tesouro, e a queda temporária nas reservas bancárias, uma vez que indivíduos e as corporações remetem impostos ao governo.

“No entanto, também pode ser uma indicação de que as reservas não são tão ‘abundantes’ quanto o Fed inicialmente pensou”. Para ele, “a correção mais fácil seria realizar operações de mercado aberto para levar os juros de curto prazo para baixo”, mas o Fed buscou evitar isso ao declarar no início do ano que adotaria um regime de ‘reservas amplas’, disse Pierce, acrescentando que não espera uma decisão sobre esse assunto na reunião desta semana.

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