Fed deve elevar juros com economia forte e taxa de inflação alta

12/06/2018 11:00:14

Por: Cristiana Euclydes / Agência CMA

Federal Reserve

Prédio do Federal Reserve em Washington (Federal Reserve/Divulgação)

São Paulo – O comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) deve elevar a taxa básica de juros do país em 0,25 ponto percentual (pp), para a faixa entre 1,75% e 2,00% ao ano, na reunião desta semana, de acordo com especialistas consultados pela Agência CMA.

Os dados fortes sobre a economia e a trajetória de aceleração da inflação sustentam as expectativas por mais uma alta nos juros, mesmo após as recentes tensões comerciais globais e ao estresse no mercado cambial de países emergentes. Os analistas permanecem divididos, porém, ao estimar se o Fed vai passar a prever um total de quatro altas de juros este ano, em vez de três.

Na reunião mais recente do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), em maio, o Fed manteve os juros inalterados, como previsto pelo mercado, após uma alta de 0,25 pp na reunião de março.

“Apesar das tensões políticas na Europa e da incerteza sobre a política comercial, esperamos que o Fed avance e aumente as taxas de juros na próxima reunião do Fomc”, disse o economista da Capital Economics, Michael Pearce.

Para ele, o Produto Interno Bruto (PIB) do país no segundo trimestre deve crescer entre 3,5% e 4,0% em taxa anualizada.

O PIB cresceu 2,2% no primeiro trimestre de 2018 em relação ao trimestre anterior, em base anualizada, se acordo com a segunda leitura publicada pelo Departamento do Comércio. No entanto, “a evidência aponta para uma forte recuperação no segundo trimestre”, disse Pearce.

Os gastos pessoais (PCE, na sigla em inglês) subiram 0,6% em abril ante março, quando haviam crescido 0,5%, o que deve acelerar a recuperação do crescimento do consumo no segundo semestre. Já os gastos com construção subiram 1,8% em abril em base mensal, indicando outro grande ganho em investimentos.

Por sua vez, o relatório de emprego do Departamento do Trabalho dos Estados Unido (payroll) mostrou que a economia do país criou 223 mil vagas de trabalho em maio, após as 159 mil vagas de abril, outra indicação de que a economia está crescendo.

Desta forma, os dados devem confirmar as projeções econômicas do Fed. Na ata da reunião de maio, os membros do Fomc afirmaram que se os dados confirmassem as projeções, seria apropriado dar mais um passo para remover a acomodação monetária.

Com relação à inflação, o payroll mostrou que o salário médio por hora no setor privado teve uma alta modesta de 2,71% em maio em base anual.

Outros indicadores, por sua vez, apontam para uma aceleração na inflação.

O índice de preços para os gastos pessoais (PCE) subiu 2,0% em abril em base anual e o núcleo do índice subiu 1,8%. O PCE é o indicador usado pelo banco central dos Estados Unidos como referência para medir a inflação.

Já o Indice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 2,5% em abril em base anual. A taxa de maio será divulgada amanhã e o mercado prevê 2,7%, de acordo com projeções da agência de notícias “Dow Jones”.

PRÓXIMAS ALTAS NOS JUROS

Para os analistas do Nordea, “mais do que o aumento da taxa que o Fed vai entregar na quarta-feira, a grande questão é se o gráfico de pontos vai sinalizar três ou quatro subidas de juros para 2018”. O gráfico de pontos é uma compilação das projeções de cada membro do Fomc para a taxa de juros.

Em março, quando o banco divulgou suas últimas projeções, a previsão era de realizar três elevações de juros este ano ao todo. Os analistas lembram que, na reunião de março, apenas um membro a mais seria necessário para inclinar a balança de três para quatro altas este ano. “Julgamos que há uma probabilidade relativamente grande de que a balança seja inclinada a favor de quatro aumentos no total, em junho”, disse a equipe do Nordea.

No entanto, diferentemente do que acontece com a alta de juros, a previsão de quatro aumentos no ano não está totalmente precificada pelos mercados. Para Pearce, da Capital Economics, a aceleração do núcleo da inflação deve acabar levando o Fed a prever quatro aumentos nos juros, “embora isso possa não se refletir no gráfico de pontos divulgado após a reunião de quarta-feira”.

Da mesma forma, o analista do Dankse Bank, Mikael Milhoj, afirma que não deve haver alterações. “Não achamos que o Fed fará grandes mudanças no gráfico de pontos atual, mas sim que ele continuará a mostrar uma divisão mais ou menos equilibrada entre aqueles que sinalizam três ou quatro altas este ano”, disse.

Para Milhoj, como apenas um membro precisa mudar de opinião para que a previsão passe de três para quatro altas, se isso de fato acontecer o mercado não interpretará como um sinal hawkish – inclinado ao aperto monetário.

“Com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre entre 3,5% e 4,0% e sinais de que as pressões de preços estão aumentando, o comunicado [do Fed] e as projeções podem muito bem começar a sugerir que mais dois aumentos estão chegando no segundo semestre deste ano”, afirmou ele.

No cenário externo, o estresse nos mercados cambiais da Argentina e da Turquia e as incertezas políticas na Itália inicialmente levaram a uma redução nas expectativas sobre o ritmo de altas de juros nos Estados Unidos, mas a relativa estabilização das moedas e a formação de um governo na Itália inverteram a maioria dessas quedas.

“O presidente do Fed, Jerome Powell, provavelmente mencionará na coletiva de imprensa que os bancos centrais estão observando o estresse nos mercados emergentes, mas isso ainda não é preocupante o suficiente para afetar as decisões de política monetária dos Estados Unidos”, disse o analista do CIBC, Royce Mendes.

AJUSTES TÉCNICOS

Além disso, o Fed também deve sinalizar uma mudança na taxa paga aos bancos comerciais para remunerar as reservas excedentes, ou seja, as reservas que ficam depositadas no banco central e que ultrapassam o mínimo exigido pelo depósito compulsório. Essa taxa, conhecida pela sigla em inglês “IOER”, é sempre igual ao teto do intervalo da taxa básica de juros – ou seja, atualmente, 1,75% – e é usada para evitar que os juros no mercado interbancário ultrapassem esse teto.

O Fed sinalizou na ata da última reunião que os juros interbancários estão muito próximos da parte alta da meta de 1,50% a 1,75%. Por isso, no próximo encontro, ele deve fixar a IOER cinco pontos percentuais abaixo do teto da taxa referencial, um ajuste técnico que não deve transmitir um sinal de afrouxamento monetário, segundo os analistas consultados. Para a equipe da Nordea, o ajuste deve vir sem surpresas para o mercado, dado o aviso feito na ata.

Outra mudança que deve ocorrer no comunicado de política monetária desta semana é o trecho que diz que a taxa básica permanecerá “por algum tempo, abaixo dos níveis que devem prevalecer no longo prazo”.

A eventual exclusão ou alteração desse trecho “seria simplesmente um reconhecimento de que, dois anos após o início do ciclo de aperto monetário, a política está muito mais perto da neutralidade do que quando essa linguagem foi elaborada. Mais uma vez, isso não chega a ser um sinal sobre o ritmo do aperto”, disse, Pearce, da Capital Economics.

Para Milhoj, do Danske Bank, o Fed deve alterar ainda o comunicado no trecho que diz que “a posição de política monetária permanece acomodatícia”, acrescentando a expressão “de forma moderada”. Ele explicou que não se trata de uma mudança na estratégia, mas sim de um reflexo de que o ciclo de altas já dura algum tempo e que não estamos a muitas altas de atingir o patamar normal de longo prazo.

Edição: Pâmela Reis (pamela.reis@cma.com.br)

 

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