Fed considera medidas alternativas para meta de inflação

Federal Reserve
Prédio do Federal Reserve em Washington. Foto: Divulgação/ Federal Reserve

Por Cristiana Euclydes

São Paulo – O Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) está revisando sua estrutura de política monetária e pode adotar novas ferramentas para alcançar a meta de inflação, mas o mandato duplo da instituição, que precisa defender a estabilidade de preços e o pleno emprego, deve permanecer inalterado, de acordo com analistas consultados pela Agência CMA.

No início deste ano, as autoridades do Fed começaram a examinar a estratégia, as ferramentas e as práticas de comunicação usadas pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), com o objetivo de aprimorar suas estruturas de política monetária e alcançar suas metas de forma sustentada.

A taxa de desemprego do país caiu para 3,6% em abril, após a taxa de 3,8% em março, e está em seus níveis mais baixos em 50 anos, enquanto os ganhos de emprego continuam sólidos e os salários seguem crescendo, ainda que em ritmo menor do que o esperado, indicando que o mandato de pleno emprego tem sido cumprido com êxito pelo Fed.

Não é possível dizer o mesmo, porém, sobre o mandato de estabilidade de preços. O Fed adotou em 2012 a meta de inflação em 2% medida pela variação anual do índice de preços para gastos pessoais (PCE). Este ano, porém, as pressões inflacionárias enfraqueceram-se, assim como as expectativas de aumentos futuros de preços.

Em março, o índice PCE subiu 1,5% em base anual, após a alta de 1,3% em fevereiro. Já o núcleo do índice, que exclui do cálculo os preços de alimentos e energia, subiu 1,6%, após a alta de 1,7% no mês anterior. O presidente do Fed, Jerome Powell, disse que os baixos níveis da taxa refletem fatores temporários.

“O Fed enfrenta uma batalha difícil sobre a inflação e as expectativas de inflação, explicando em parte a recente reviravolta dovish [propensa ao afrouxamento monetário]”, disse o economista do Nordea, Kjetil Olsen.

O Fed elevou sua taxa básica de juros pela última vez em dezembro do ano
passado e, desde então, tem defendido uma postura de paciência e de análise de dados. Na reunião de março, o banco central reduziu de duas para nenhuma a previsão de elevações este ano. Atualmente, a taxa está na faixa entre 2,25% e 2,50%.

Segundo Olsen, o Fed está atualmente revisando sua estrutura de política monetária e algumas formas alternativas de metas de inflação estão ganhando força. “O mandato duplo e a meta de 2% para a inflação permanecerão, mas tudo o mais – como alcançar o mandato de forma sustentada – está pronto para reconsideração”, disse o economista.

METAS DE INFLAÇÃO

A meta do Fed é simétrica, ou seja, tolera que a taxa fique um pouco acima ou um pouco abaixo do objetivo de 2%. Na prática, porém, as autoridades do banco central vêm ressaltando que o mercado compreende a meta como um teto e, assim, têm defendido mudanças na política monetária para que fique claro que a inflação pode superar 2% ao ano.

Além disso, o Fed busca a meta de 2% ao ano constantemente, sem levar em consideração o contexto do ano anterior, por exemplo. Em um discurso em março, Powell disse que a instituição deveria considerar estratégias que almejem reverter quadros em que a inflação ficou abaixo da meta em um dado ano, por exemplo, permitindo que a inflação ficasse acima da meta no ano seguinte. Na ocasião, Powell afirmou que os bancos centrais devem encontrar “maneiras mais efetivas para combater a síndrome da baixa inflação que parece acompanhar os juros perto de zero.”

Uma das técnicas seria colocar meta de 2% “na média” do ciclo de negócios, o que significa que a inflação seria um pouco mais alta que 2% durante tempos prósperos para compensar um déficit esperado durante desacelerações.

“O Fed pode decidir reinterpretar o que significa simetria em sua meta de inflação e decidir deixar a inflação ultrapassar a meta de 2% por um período prolongado para compensar as baixas, ao invés de apertar a política monetária assim que uma ultrapassagem for iminente”, disse o estrategista do Rabobank, Philip Marey. Segundo ele, o mandato duplo é imposto pelo Congresso, então o Fed não pode mudar isso. “No entanto, pode mudar sua interpretação do mandato duplo”.

“Muitos membros do Fomc querem ultrapassar a meta de inflação agora para ancorar com firmeza as expectativas de inflação em torno da meta, aumentando assim o nível para qualquer aumento adicional nos juros. A supervalorização da inflação agora criaria credibilidade para uma possível nova estrutura política no futuro”, afirmou Olsen, do Nordea.

Além disso, o índice mediano de preços PCE, calculado pelo Fed de Dallas, considerada uma maneira moderna de medir a inflação, recebeu elogios de Powell e outras autoridades do Fed, como o chefe do Fed de Nova York, John Williams, nas últimas semanas. Este índice desconsidera os itens mais voláteis no cálculo da inflação, sejam eles quais forem, diferentemente dos cálculos tradicionais sobre o núcleo da inflação, que desconsideram sempre os itens relacionados à alimentação e à energia.

As autoridades citaram que o indicador do Fed de Dallas é uma maneira melhor de conhecer a tendência real da inflação, e mostra que as pressões de preço estão mais próximas da meta de 2% do Fed. A ata da reunião do Fed de 31 de abril e primeiro de maio também citou a medida. “Participantes observaram que a inflação mediana ficou estável em ou perto de 2% nos últimos meses”.

Por fim, o chefe do Fed de Saint Louis, James Bullard, defende a chamada meta nominal do PIB. Com ela, o Fed deixaria de tentar direcionar os aumentos de preços e, em vez disso, visaria ao montante total de gastos nominais que ocorre na economia. Assim, se o crescimento econômico fosse menor do que o usual, o banco tentaria acelerar a inflação mais do que o normal e, se o crescimento fosse maior, tentaria levar a taxa de inflação para baixo.

MANDATO DUPLO

Desde 1977, o Federal Reserve opera sob o mandato do Congresso para “promover efetivamente as metas de emprego máximo, preços estáveis e taxas moderadas de juros de longo prazo” – o que hoje é comumente chamado de “mandato duplo” do Fed.

Porém, de acordo com um documento do Fed de Richmond, a ideia de que o banco central deveria perseguir múltiplos objetivos pode ser rastreada até, pelo menos, a década de 1940, mas com mudanças na ênfase sobre qual objetivo deveria ser primordial.

Em janeiro de 2012, após sua reunião de política monetária, o Fed definiu que a taxa de inflação em 2% medida pelo índice PCE é mais consistente com o mandato de longo prazo do Fed, e que comunicar esta meta ajuda a manter as expectativas de inflação de longo prazo firmemente ancoradas.

Já o mandato de pleno emprego é determinado por fatores não monetários que afetam a estrutura e a dinâmica do mercado de trabalho. De acordo com o Fed, estes fatores podem mudar com o tempo e podem não ser diretamente mensuráveis. Por isso, o Fomc não especifica uma meta fixa para o pleno emprego.

“A parte do pleno emprego do mandato continua a ser importante, mas a ênfase na taxa de desemprego não aceleradora da inflação (NAIRU, na sigla em inglês) pode diminuir, pois ninguém sabe o seu valor exato”, disse Marey, do Rabobank. A NAIRU, proposta pelo economista Edmund Phelps, equivale à taxa de desemprego natural, para a qual a economia converge.

Segundo a mediana das projeções feitas por membros do comitê de política monetária em março, a taxa de desemprego será de 3,7% este ano, após a projeção anterior de 3,5%. A projeção foi rebaixada de 3,6% para 3,8% em 2020, de 3,8% para 3,9% em 2021 e de 4,4% para 4,3% no longo prazo.

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