Fala de Bolsonaro antecipa xadrez eleitoral de 2022

Por Álvaro Viana

O Presidente da República, Jair Bolsonaro durante Cerimônia de Entrega da Medalha do Mérito Industrial do Estado do Rio de Janeiro. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Brasília – As sinalizações recentes do presidente da República, Jair Bolsonaro, que passou a falar sobre a possibilidade de reeleição em 2022 – atento às manifestações de parte de seu eleitorado impulsionaram outros agentes políticos a uma movimentação peculiarmente mais precoce mirando a próxima disputa para o Palácio do Planalto desde já, afirmaram especialistas à Agência CMA.

No último sábado (6), o presidente mostrou desejo em “entregar o país muito melhor a quem nos suceder em 2026” e condicionou sua ausência numa disputa pela reeleição a “uma boa reforma política”. Se a “boa reforma” não viesse, ele concorreria novamente à Presidência em 2022.

O cientista político da Factual Informação e Análise, Leonardo Barreto, explica que Bolsonaro é “aquilo que o pessoal na Academia chama de agenda-setter, produz a agenda de debate. No momento que ele anuncia, cria esse processo”. Além disso, Barreto associa essas menções precoces à disputa ao próprio resultado da corrida presidencial do ano passado.

“Parece que na eleição passada ganhou aquele com menor rejeição. Isso dá às pessoas uma sensação de falta de legitimidade do presidente e uma ansiedade grande já pelo próximo processo eleitoral. Isso é um fator. A natureza da própria eleição acelera isso”, explica. Outro fator que motivaria essas afirmações, de acordo com o especialista, é o fato de Bolsonaro não ter apadrinhado partidos dentro do Congresso – nem mesmo seu partido, o PSL.

Para Barreto, “como o Legislativo tem muito interesse nos recursos que o Executivo controla, o próprio Legislativo fica ansioso no sentido de voltar a trabalhar num projeto para dominação do Executivo. O vácuo de governabilidade está sendo preenchido longe do modelo que o Congresso gosta”, explica.

Segundo os especialistas ouvidos pela Agência CMA, as sinalizações antecipadas de Bolsonaro às eleições de 2022 atraem seus potenciais adversários a se movimentarem mais cedo em relação à disputa. Entre eles, no campo do centro-direita, está o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que flerta uma aliança com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O sócio-diretor da assessoria legislativa Hold, André César, afirma que a liderança de Doria em temas relevantes como encabeçar o grupo de governadores em negociações no âmbito da reforma Previdência o ajudaria a posicionar-se estrategicamente.

“Doria é inteligente e sabe o que ele quer desde que chegou. Se aproximou, conduzindo inclusive a questão da reforma da Previdência, como o condutor dos governadores nesse debate. Isso dá muita força para ele. A disputa sucessória está longe ainda mas ela foi muito antecipada. Essa é a questão”, disse.

“Se o Doria descola de fato do presidente e chamar o Maia, como fica o governo Bolsonaro? Quem é responsável por isso é o próprio Bolsonaro que já chamou o jogo mais cedo. É muito cedo para falar isso. Então o Doria e o Maia, que não são bobos, já estão se mexendo com capacidade política, tudo que têm em mãos”, explica César.

Em entrevista à rádio Jovem Pan na última sexta-feira (5), Maia afirmou que se Doria for para o DEM “claro que pode ser candidato”. Segundo o presidente da Câmara, Doria é ator fundamental e, assim como o PSDB, tem relação muito boa com o parlamento. “Seria um caminho natural, como também pode ser natural a gente estar com Luciano Huck se ele resolver ser candidato”, disse.

Leonardo Barreto explica que, nesse contexto, a estratégia do governador de São Paulo seria não deixar margem para nenhum concorrente do Centro. “Ele está tentando ocupar todos os espaços e fechar todas as portas para outros nomes agora. Também coloca um cara do DEM em seu secretariado, Rodrigo Garcia, que vai assumir o governo de São Paulo, quando desincompatibilizar para concorrer. Já até estabelece o prêmio ao Democratas”, detalha, ao mencionar possível aliança entre o PSDB e o DEM.

Barreto analisa ainda o cenário para Maia nesta disputa. “Quando fala isso (aliança), já tem um jogo desenhado e sabe que vai ser muito difícil fugir desse desenho que o Doria criou. Acho também que quer tirar um pouco a pressão de cima dele. Muita gente pode começar a alimentar que o Rodrigo Maia tem pretensões, por isso esse discurso de independência do Congresso, bloqueio nas contas bolsonaristas já seriam um indicativo de que quer prejudicar o Bolsonaro para facilitar uma eventual candidatura dele. Quando Maia joga a bola para o Doria, quer tirar também a pressão de cima dele”, diz.

Ao tempo em que uma potencial aliança entre peesedebistas e demistas pode representar uma ameaça, Bolsonaro lida também com outros adversários, explica o professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer. “Até 2022 ele vai ter que fazer algumas coisas. Se a economia recuperar e o desemprego cair bastante, com muitos novos investimentos, isso pode embalar melhor a sua possível candidatura”, esboça.

“Assim que conseguir aprovar a reforma da Previdência na Câmara, esta semana ou na semana que vem, isso vai embalar. Isso pode dar um novo alento ao governo Bolsonaro em termo de novos investimentos, mas ele precisa pensar mais no Brasil num cenário maior. Isso é uma crítica que as pessoas têm feito”, explica Fleischer.

André César acredita que a influência de uma aprovação da reforma da Previdência depende de qual a estrutura final do texto a ser elaborado nas duas Casas Legislativas. “Não dá para apontar, muito em função do que vai acontecer com a reforma da Previdência, se vai passar ou não vai passar, qual o texto, se a economia vai recuperar. Isso tudo entra no pacote. E ainda não sabemos qual o pacote que vai ser entregue”.

REFORMA POLITICA E MORO

Indagados sobre a afirmação de Bolsonaro acerca do que seria uma “boa reforma política” para o país, os especialistas afirmaram se tratar de uma matéria inatingível. Fleischer comenta que essas reformas se dariam de ordem fracionada em textos diferentes e não na reestruturação do sistema político de uma vez.

“A grande reforma teria que ser aprovada pela Câmara e já foi aprovada pelo Senado, de acabar com o foro privilegiado. Aí ia ceifar todos os fichas sujas no Congresso. Essa seria uma reforma bem contundente. Isso está em andamento, mas não sei se a Câmara teria coragem de aprovar uma coisa dessas”, explica.

“A cláusula de barreira já existe, mas é para matar os pequenos partidos tirando dinheiro e tempo de TV. Outras reformas seriam o voto não ser mais obrigatório. Fechar a lista proporcional para eleger deputados e não ter mais lista aberta. Acabar com reeleição, o que Bolsonaro falou, não vai acontecer também. Isso porque tem muito governador que quer ser eleito e prefeito procurando reeleição também. Isso não passa”, detalha Fleischer.

André César afirma que “não tem como mudar o sistema”. Segundo o especialista, desde a redemocratização o país tentou mudar o modelo político eleitoral para melhorar o sistema, mas “não existe reforma política que faça a coisa mudar. Ele se expôs e antecipou o quadro (eleitoral). O que se vê é ele se respaldando muito em seu eleitorado, o núcleo radical. Isso não sustenta Bolsonaro. Sustenta agora nas redes sociais, mas tem um limite. Nesse sentido, na competição eleitoral com Doria, eventualmente com Maia e talvez até com Moro, o jogo é muito bruto.”

Durante um evento na semana passada o ministro da Justiça do governo Bolsonaro, Sergio Moro, afirmou que “o candidato do governo vai ser o presidente” e descartou a teoria de uma possível candidatura dizendo que aquilo “não tem sentido”.

“Tanto o Moro quanto o Bolsonaro são neófitos, não são homens da política. Ao contrário do Doria e do Maia, por exemplo, políticos que sabem jogar. Eles não podem brincar com isso e nem confiar nesse eleitorado que apoiam de maneira ideológica. Tem que se pensar que a política não é simples assim”, comenta André César.

Fleischer ecoa a visão de que Moro não teria experiência para sustentar uma eventual candidatura. “Ele não é político profissional. Está aprendendo agora como é que funciona a política aqui em Brasília e está sobre o ataque do Intercept”.

O site Intercept Brasil vem publicando uma série de reportagens que mostram supostas conversas entre o ministro da Justiça – à época, juiz – e o procurador da República e coordenador da operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, sobre os processos e repercussões das operações decorrentes da força-tarefa. As conversas teriam se dado fora dos autos em aplicativos de mensagem. Segundo os especialistas esses episódios recentes desgastaram a imagem do ministro, mas ainda seria cedo para mensurar um efeito em seu capital político a longo prazo.

Leonardo Barreto argumenta que Moro sabe que se ele fosse concorrente, precisaria construir um grupo político próprio, “coisa que ele não tem e teria que concorrer no mesmo espectro que o Bolsonaro. Embora ele seja muito popular, acho que as possibilidades para ele, a costura política necessária, seria difícil”.

O cientista político diz que essa costura seria dificultada pela aproximação de Bolsonaro em “amarrar a imagem do Moro à dele. Viu ali o momento de fragilidade, amarrou e condicionou o destino dele ao próprio governo. Acho difícil que Moro consiga escapar dessa. Eu tenho a impressão que o negócio do Moro hoje é realmente uma vaga no STF para continuar fazendo a defesa política da Lava Jato”, diz.

ESQUERDA

O desafio dos partidos de esquerda, para o professor David Fleischer, está em procurar outros nichos e assuntos para apoiar e transformar em votos. “A esquerda agora, por exemplo, é contra a reforma da Previdência. Então vão ter que achar assuntos em comum com o que quer a população”, expõe.

Fleischer complementa a análise afirmando que o PT está enfraquecido por nunca ter preparado um candidato a não ser o Lula e cita um exemplo de como o planejamento no PSDB ramificou três nomes que vieram a assumir protagonismo na sigla. “Depois do Fernando Henrique, já tinha três candidatos preparados, o Serra, o Alckmin e o Aécio. O PT até hoje não tem trabalhado para preparar e lançar um verdadeiro candidato. Teria que se organizar”.

Barreto diz que o cenário de largada ainda é sem Lula, o que motiva os partidos a pensar em suas candidaturas, causando o que denomina uma “inflação das candidaturas de esquerda”. Entre os nomes mencionados como o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) e o governador da Bahia, Rui Costa (PT), Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (PT).

Ainda assim, caso Lula esteja em liberdade num cenário de “ficha suja” revertida, a tendência seria, segundo Barreto, “tentar trazer todo mundo para o guarda-chuva lulista alegando o que sempre foi alegado, de que a esquerda deveria se reunir em torno do nome mais viável, que é uma estratégia que o PT usa desde 94, quando atraiu o Brizola para vice do Lula”.

Edição: Gustavo Nicoletta ([email protected])

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