Facebook aposta em conglomerado para aprovação da libra

Foto: Divulgação/ Facebook

Por Cristiana Euclydes

São Paulo – O Facebook está apostando em parcerias com grandes empresas de tecnologia para conseguir a aprovação de reguladores financeiros para lançar a libra, sua moeda digital, mas os analistas consultados pela Agência CMA divergem sobre as chances da criptomoeda ser bem sucedida.

No dia 18 de junho, o Facebook anunciou os planos para lançar a libra em 2020, bem como uma carteira digital para a moeda, que estará disponível no Messenger, WhatsApp e outros aplicativos, e poderá ser usada para fazer pagamentos de serviços digitais como Uber, Spotify e outras empresas.

Assim como as outras moedas digitais, a libra será embasada na tecnologia de “blockchain”, um sistema que distribui os dados das transações em diversos pontos de uma rede de computadores. Dessa forma, uma transferência pode ser feita diretamente entre duas pessoas, sem o intermédio de bancos. As transações também são protegidas de forma que é impossível adulterá-las.

Porém, diferentemente das outras divisas digitais, a moeda do Facebook será gerida pela Associação Libra, um grupo de 28 empresas, que será fiscalizada pelo regulador da Suíça, uma vez que terá sede em Genebra. A associação terá que autorizar o “blockchain” da libra, ou seja, transações só podem ser adicionadas por ela, ao menos por enquanto.

Além disso, a libra será uma “stablecoin”, uma criptomoeda indexada a uma reserva de ativos de baixa volatilidade, como depósitos bancários, e títulos do governo de curto prazo. O valor de Libra será determinado por uma cesta de moedas dentro da reserva, que inclui o dólar norte-americano, a libra esterlina, o euro, e o iene japonês.

“A libra, uma ‘stablecoin’, será ligeiramente diferente em comparação com a maioria das criptomoedas no mercado agora, como o bitcoin”, disseram analistas da IG Markets, em relatório.

“Geralmente, as criptomoedas tendem a experimentar grandes flutuações devido a seus preços não ancorados”, disseram eles. “A libra será atrelada a uma cesta de depósitos bancários e títulos do governo de curto prazo para um grupo de moedas internacionais historicamente estáveis”.

Segundo o grupo de pesquisas MoffettNathanson, a libra combina as “melhores características” dos criptosistemas, pois será uma “stablecoin”, para reduzir a volatilidade e construir confiança.

O relatório do grupo destaca que, entre os membros fundadores da Associação Libra, estão alguns dos maiores provedores de pagamentos, como Visa, Mastercard e PayPal, e empresas de outros setores, como eBay, Uber e Vodafone, entre outros.

“Alguns veem esse coletivo como tendo a melhor chance de conquistar governos e moldar a regulamentação inevitável de criptomoedas que ainda está por vir, especialmente em um momento em que tanto as criptomoedas quanto a capacidade do Facebook de manipular dados estão sob intenso escrutínio”, disseram analistas da IG Markets. “Outros consideram a colaboração como uma forma de maximizar a adoção e minimizar os riscos”, acrescentaram.

Para a sócia da MoffettNathanson, Lisa Ellis, a libra passou no teste decisivo das principais empresas de pagamentos, que viram potencial suficiente no sistema para participar, no primeiro endosso significativo da viabilidade de criptomoedas do atual ecossistema de pagamento em vigor.

Ela defende, porém, que as chances da libra ter sucesso são baixas. “Se você definir sucesso como a libra ser lançada e usada como uma moeda funcional e alternativa em mercados emergentes, que sofrem de alta inflação, a probabilidade de chegar lá é de menos de 20%, em um prazo de três, cinco ou mais anos”, disse Ellis.

INCERTEZAS

Os planos do Facebook de lançar a nova moeda digital têm chamado a atenção de reguladores financeiros, devido aos seus potenciais riscos à estabilidade do sistema financeiro global, que acaba de se recuperar da crise de 2008, além de riscos à privacidade dos dados, proteções ao consumidor e controles contra crimes, como lavagem de dinheiro.

Segundo Ellis, “a libra enfrenta várias incertezas regulatórias e obstáculos. Primeiro, o regulamento envolvendo operar um sistema global é extremamente complexo”. Ela explicou que “o regulamento em torno de libra é ainda mais complicado por seu status como uma criptomoeda”.

Como qualquer moeda, há riscos de volatilidade, perda de fé no sistema ou má administração pela Associação Libra, o que poderia desestabilizá-la, afirmou a sócia da MoffettNathanson. Além disso, as criptomoedas trazem alguns riscos adicionais relacionados à fraude e roubo, já que as moedas digitais são mais difíceis de serem armazenadas com segurança.

Segundo analistas do IG Marktes, “apesar da ânsia e da ambição da empresa de tecnologia dos Estados Unidos em tentar unir o mundo em uma única plataforma bancária digital, os legisladores no país de origem da empresa estão furiosos e pedem que o desenvolvimento de libra seja interrompido”.

A presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Maxine Waters, pediu que o Facebook faça uma pausa em seu desenvolvimento de criptomoedas até que o Congresso norte-americano e os reguladores possam examiná-lo.

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, disse que a libra pode comprometer a estabilidade financeira nos Estados Unidos porque o Facebook tem milhões de usuários, que podem aderir ao uso da criptomoeda.

Já o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, afirmou que a nova moeda do Facebook tem gerado preocupações nos reguladores, assunto amplamente abordado na reunião de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do G-7 (grupo composto por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá). As preocupações incluem segurança cibernética, lavagem de dinheiro, financiamento de terrorismo, privacidade, evasão fiscal e transmissão de política monetária, além de dúvidas sobre como isso vai afetar os sistemas globais de pagamento.

O diretor de pesquisa do Coin Center, Peter Van Valkenburgh, disse em publicação no site da empresa que o bitcoin e a libra são projetos diferentes com tecnologias diversas, e enfrentam desafios legais e regulatórios distintos. “É importante que os formuladores de políticas compreendam essas diferenças para que possam adequar apropriadamente qualquer resposta de política necessária”, disse ele.

Para Elis, da Moffett Nathanson, a libra não representa um risco para a estabilidade global. “Mesmo se for bem-sucedida, a libra será pequena – o caso de uso primário é em países que sofrem de inflação muito alta ou uma moeda fiduciária instável”, disse.

O cenário citado pela executiva abrange uma parcela significativa da população, cerca de 48%, em 95 países, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas representam cerca de 16% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

BITCOIN

Enquanto alguns analistas chegaram a falar do fim do bitcoin com o lançamento da libra, a maioria espera que a nova moeda digital do Facebook dê um impulso ao mercado de criptomoedas como um todo, que vinha perdendo força este ano.

O bitcoin, criado em 2009, é a maior moeda virtual em circulação atualmente, mas não é a única. Outras opções são ethereum, ripple, bitcoin cash e cardano, entre os mais de 1,4 mil tipos de criptomoedas existentes.

Para analistas do London Capital Group (LCG), por causa de sua enorme rede de mais de 2 bilhões de usuários, os produtos do Facebook lançam uma rede ampla. “A libra vai criar familiaridade de criptos para um público muito mais amplo”, disseram eles, em relatório.

Além disso, “stablecoins” não competem com bitcoins, afirmaram. “Como uma ‘stablecoin’, a libra será atrelada ao valor de uma cesta de moedas reais. Isso significa que seu próprio valor não estará aberto à especulação. Se os investidores quiserem especular sobre a influência positiva da libra no mundo da criptografia, a rota mais óbvia é via bitcoin”.

“Criptomoedas são definidas por sua falta de fiabilidade em intermediários confiáveis”, disse Peter Van Valkenburgh, do Coin Center. “Acreditamos que libra não é uma criptomoeda por causa de seu uso de autorização de registro e sua confiança em um emissor para manter e administrar um fundo de ativos que apoiam a moeda.”

Após o anúncio da libra, a cotação do bitcoin tem acelerado, e aproximou-se dos US$ 13 mil no final de junho, de acordo com a CoinDesk. Atualmente, a cotação está em torno de US$ 11,7 mil.

O bitcoin despencou no final de 2017, com seu valor caindo de quase US$ 19 mil por moeda em dezembro daquele ano para pouco mais de US$ 10 mil em meados de janeiro de 2018. A moeda chegou a cerca de US$ 3 mil em dezembro do ano passado, e ficou abaixo de US$ 4 mil até o final de março deste ano, quando começou a sua recuperação.

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