Exterior deve pesar na avaliação do BC sobre Selic

07/02/2018 14:29:23

Por: Olívia Bulla / Agência CMA

São Paulo – Não deve ser apenas a ausência de novas surpresas baixistas na inflação ou na atividade doméstica que tende a elevar o tom do Banco Central na comunicação sobre a condução da taxa básica de juros. Os eventos ocorridos no exterior desde a semana passada também devem entrar no balanço de riscos do Comitê de Política Monetária (Copom), demandando maior cautela no ciclo de cortes da Selic após este mês.

“O BC deve voltar a falar dos indicadores domésticos, da necessidade das reformas e também deve bater na questão do cenário internacional”, prevê o economista da Guide Investimentos, Ignácio Crespo Rey. Ainda assim, ele avalia que o BC não deve alterar o plano de voo para o encontro de fevereiro, reduzindo a Selic em mais 0,25 ponto percentual (pp) e renovando o piso histórico da taxa básica de juros, a 6,75% ao ano.

Para Rey, o tom no comunicado que acompanhará a decisão sobre a Selic deve ser mais neutro. “O Copom deve deixar a porta aberta, sem se comprometer com nada, pois uma pequena mudança na cena externa é relevante para os ativos aqui”, explica, lembrando que há um elevado risco de depreciação de ações e moeda no Brasil, em caso de reversão no exterior, provocando uma saída de recursos de países mais arriscados.

Segundo o economista da Renascença Corretora, Marcos Pessoa, o cenário nos Estados Unidos é o que mais chama a atenção, principalmente no que diz respeito aos efeitos da reforma tributária do governo Trump na atividade econômica e, consequentemente, na atuação do Federal Reserve. “A reforma tributária e a melhora do emprego resultariam em maior inflação e, por consequência, maiores altas de juros pelo Fed”, explica.

Desde o fim da semana passada, os investidores passaram a avaliar a exposição ao risco, diante da possibilidade de mais altas que o esperado na taxa de juros norte-americana neste ano. Esse movimento teve início na última quarta-feira, ao final da reunião de política monetária do Fed, e ganhou força após os números robustos sobre o emprego nos Estados Unidos (payroll) em janeiro, conhecidos na sexta-feira.

“O risco de quatro altas dos juros em 2018 é crescente e pode ser a má notícia do ano”, afirma o economista do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, lembrando que o cenário básico do Fed prevê apenas três aumentos até dezembro. Por isso, para ele, a novidade na primeira reunião do Copom em 2018 deve ficar com a comunicação.

Segundo o economista, o trecho em que o BC requer maior “liberdade de ação” deve ganhar mais ênfase, com a autoridade monetária sinalizando que o atual estágio do ciclo requer maior cautela. Da mesma forma, deve haver mudanças na parte em que o Copom fala da evolução de diferentes fatores, indicando menor espaço para novas quedas.

“O conjunto todo indica cautela”, resume o gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi. Para ele, uma postura mais conservadora do BC já se justifica somente pelo lado doméstico, com a inflação ao consumidor (IPCA) deixando de surpreender para baixo, assim como a atividade, em meio às incertezas sobre a reforma da Previdência. E agora, com a piora no cenário externo, a chance de queda adicional na Selic é baixíssima.

Porém, para o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, restam dúvidas em relação aos próximos movimentos do Copom. Segundo ele, não haveria “nenhum espanto” se o BC finalizasse o ciclo no mês que vem, com a Selic em 6,5%. “Na ausência das reformas devido à dificuldade política, talvez o BC mantenha o estímulo monetário, por ser o único instrumento possível, dentro de um contexto fiscal desafiador”, explica.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

 

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