Estresse com mudanças na Previdência faz Bolsa cair e dólar subir na sessão

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou em queda de 0,64%, aos 98.320,88 pontos, refletindo alterações no relatório da reforma da Previdência na comissão especial e o cenário externo mais negativo. O vencimento de opções sobre o Ibovespa também trouxe um pouco de volatilidade, ajudando o índice a voltar a cair depois de ter chegado a subir com a notícia de devolução de recursos à União pela Caixa Econômica Federal. O volume total negociado foi de R$ 29,8 bilhões, sendo que o exercício de opções movimentou R$ 6,5 bilhões.

O relatório da Previdência, que será lido amanhã na comissão especial, voltou ao foco nesta tarde em meio a declarações de políticos após reunião entre lideranças partidárias e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Segundo o líder do Partido Progressista (PP) na Câmara dos Deputados, Arthur Lira, ficou definido que os Estados e municípios serão retirados do relatório. Esse ponto era um dos principais impasses e foi visto como negativo pelo mercado.

No entanto, há rumores que mesmo com a retirada dos Estados e alterações de alguns pontos, o texto trará uma econômica significativa, de cerca de R$ 800 bilhões, não muito distantes dos R$ 1 trilhão prometidos pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. A expectativa de uma reforma robusta tem mantido investidores animados. O gerente da mesa de operações da H.Commcor, Ari Santos, porém, pondera que é melhor  esperar o parecer .”É tudo muito chute ainda e uma coisa é que o vai ser apresentado, outra o que será votado em plenário”, afirmou.

Diante de ruídos sobre os pontos que serão alterados e a economia trazida, o relator da Previdência na comissão especial, o deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), deve dar declarações à imprensa a partir das 18h.

Para Santos, os vendidos em Bolsa também prevaleceram sobre os comprados ao longo do pregão, em dia de vencimento de opções sobre o índice. Já o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila, já viu alguma realização de lucros, já que o Ibovespa já antecipou a expectativa de uma reforma mais robusta. No fim da manhã, o índice chegou a subir refletindo a notícia de que a Caixa irá devolver recursos emprestados pela União. Somente em 2019, o banco público devolverá R$ 3 bilhões, de um total de R$ 20 bilhões que serão devolvidos no longo prazo.

O cenário externo também seguiu mais negativo hoje com preocupações em torno da guerra comercial, o que colaborou para retirar o ímpeto da Bolsa, que ontem subiu mais de 1% e voltou a patamares de meados de março, encostando nos 99 mil pontos. O dia ainda foi de forte queda dos preços do petróleo, o que se refletiu nas ações da Petrobras (PETR4 -1,14%).

As maiores quedas do Ibovespa foram das ações da CSN (CSNA3 -5,60%), que devolveu fortes ganhos de ontem em função da alta dos preços do minério de ferro.  Também encerram entre as maiores perdas ações do setor varejista, como B2W (BTOW3 -4,47%) e Via Varejo (VVAR3 -3,20%). O setor varejista está mais movimentado com operações de aquisições. Hoje o Pão de Açúcar (PCAR44 0,40%) anunciou que venderá sua fatia da Via Varejo para o empresário Michael Klein, ex-dono da Casas Bahia, o que levou a ajustes nos papéis. Na contramão, as maiores altas foram das ações da Qualicorp (QUAL3 2,75%), da Raia Drogasil (RADL3 1,55%) e da WEG (WEGE3 1,65%).

O relatório da reforma será o foco também amanhã, já que deve começar a ser lido pela manhã, com parlamentares se manifestando em seguida. Para o gerente da H.Commcor isso pode trazer alguma volatilidade ao Ibovespa amanhã novamente.

O dólar comercial fechou em alta 0,51% no mercado à vista, negociado a R$ 3,8700 para venda, depois de renovar máximas sucessivas próximo ao fim do pregão indo a R$ 3,8730 (+0,60%), influenciado pelo estresse do mercado local com alguns pontos do parecer da reforma da Previdência que será apresentado amanhã na comissão especial da Câmara dos Deputados. Um dos pontos é a exclusão de estados e municípios da proposta.

Para o economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos, mesmo que a retirada dos estados e dos municípios do texto “não entre na conta” de economia de R$ 1,0 trilhão nos próximos dez anos – se aprovada a proposta de reforma da Previdência da equipe econômica do presidente Jair Bolsonaro – a informação de ficará de fora do texto “decepcionou bastante” o mercado levando a moeda estrangeira a renovar máximas no fim do pregão. “É ruim porque os estados estão em situação fiscal crítica”, avalia.

Em dia volátil, o dólar renovou mínimas sucessivas no fim da manhã – chegando a R$ 3,8320 (-0,47%) – repercutindo a coletiva de imprensa dada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, em que anunciaram a devolução de recursos emprestados à Caixa pelo governo federal.

Segundo Guimarães, o banco devolverá neste ano R$ 3,0 bilhões, de um total de R$ 20 bilhões que serão pagos à União no longo prazo. O analista de câmbio de uma corretora local destaca o “contentamento” dos investidores frente às declarações de Guedes que, “evidenciaram iniciativas de resgatar recursos de bancos públicos, como a Caixa”, diz.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca, o mercado deve focar na reforma da Previdência no dia em que o relator Samuel Moreira (PSDB-SP) apresentará o parecer na comissão especial da Câmara dos Deputados. Às 18 horas, está prevista uma coletiva de imprensa de Moreira sobre mudanças no texto, entre elas as anunciadas à tarde.

“Por mais que os pontos principais tenham sido antecipados mais cedo, o detalhamento que ele [Samuel Moreira] vai dar deverá pesar logo na abertura dos negócios e será analisado o quanto o texto foi diluído”, diz Campos. O diretor de câmbio do grupo Ourominas, aposta que o dólar deverá seguir estressado. “Cheio de altos e baixos, à espera da articulação do governo com partidos do ‘centrão’, se tira ou não os pontos anunciados hoje”, comenta.