ESPECIAL COPOM: Dólar preocupa, mas atividade e inflação devem segurar Selic

05/09/2018 14:53:46

Por: Olívia Bulla / Agência CMA

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Comitê de Política Monetária (Copom). (Foto: Beto Nociti/BCB)

São Paulo – A arrancada do dólar para além de R$ 4,00 em agosto, com a moeda norte-americana acumulando alta de cerca de 25% no ano, levantou dúvidas quanto à manutenção da taxa básica de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Porém, os números ainda comportados da inflação oficial (IPCA) e os dados fracos da atividade econômica (PIB) reforçam as chances de a Selic ficar em 6,5% neste mês pela quarta reunião seguida.

“Com uma inflação controlada e a elevada ociosidade da economia (hiato do produto), existe, ao menos, a certeza da não necessidade de altas de juros”, afirma o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira. Ele explica que a demanda fraca e o desemprego elevado impedem um repasse de preços ao consumidor, aliviando a pressão na inflação e inibindo uma alta dos juros.

“Difícil o BC agir por causa da valorização do dólar, em detrimento à atividade”, diz Vieira. No relatório de mercado Focus, as medianas das
estimativas dos economistas consultados pelo Banco Central para o IPCA em 2018 e 2019 estão abaixo do alvo oficial, de 4,5% e 4,25%, respectivamente.

Para o economista-chefe do Haitong, Jankiel Santos, tais projeções são compatíveis com as metas traçadas, apesar do enfraquecimento do real. “Embora a taxa de câmbio esteja precificando as incertezas políticas, o mercado espera que as diretrizes da economia brasileira sejam orientadas de modo a manter a inflação sob controle no médio prazo”, explica.

Segundo o economista, a expectativa, então, é de suavização da volatilidade no câmbio após a eleição presidencial em outubro. Dessa forma,
Santos não acredita que as expectativas de inflação trazidas na Focus estejam atrasadas ou reprimidas, à espera do veredicto nas urnas. Para ele, tais
projeções continuam sendo um bom indicador.

Já do lado da atividade, a previsão para o PIB na Focus gira abaixo de 1,50% para este ano. No dado mais recente, a economia brasileira cresceu mais
que o esperado no segundo trimestre deste ano em relação aos três primeiros meses, mas uma série de ajustes nos dados anteriores sugere que o crescimento neste ano será mais fraco que o esperado.

Para o economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, essa revisões fornecem “mais motivos para pensar” que o
Copom não deve aumentar a Selic “tão agressivamente quanto o mercado financeiro avalia”. A curva a termo precifica cerca de 80% de chance de alta de 0,25 ponto percentual (pp) na Selic na reunião de setembro.

Nas mesas de operações de renda fixa e derivativos, o entendimento é de que o BC precisa agir, de modo a conter o nervosismo do mercado financeiro
brasileiro, evitando uma depreciação adicional do real, que afeta os negócios com ações e juros futuros. “Tem de subir a Selic para acalmar tudo”, afirma um operador de um banco nacional.

Porém, outro profissional avalia que os juros básicos não devem mudar antes das eleições, uma vez que a incerteza em relação à agenda de reformas
também pesa nos negócios locais. “Existem outros medicamentos para conter a alta do dólar. Basta a autoridade monetária exercer autoridade”, emenda, referindo-se aos leilões de oferta de moeda estrangeira.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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