Eleições parlamentares na Europa trarão nacionalismo e regionalismo como pauta

Por Carolina Pulice

Parlamento Europeu. Foto: Wikipedia

São Paulo – Entre os dias 23 e 26, a população europeia vai às urnas eleger 751 deputados para o Parlamento Europeu, e a expectativa é de que os partidos nacionalistas ganhem mais espaço, ao mesmo tempo em que aumenta a influência de alianças transnacionais sobre a instituição.

“Partidos populistas de direita e de extrema-direita podem ganhar mais assentos nesta eleição. Partidos eurocéticos também podem ganhar assentos como um todo”, afirmou o professor de política social da Universidade de Edinburg, Jan Eichhorn.

Estima-se que 374 milhões de pessoas tenham direito a votar nestas eleições, um número quase três vezes maior que o de eleitores no Brasil. O novo parlamento, que assumirá no início de julho, terá em seu mandato pautas como alteração de leis, questões climáticas, proteção ao consumidor e crescimento econômico.

Para os analistas consultados pela Agência CMA, o destaque das eleições deste ano é a ascensão de coalizões nacionalistas de direita, que têm propostas protecionistas e anti-imigratórias. Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro da Itália, lançou no início do ano a candidatura da aliança “Europa pelo Bom Senso”, junto com candidatos de direita da Finlândia, Dinamarca e Alemanha.

Com um discurso de que os partidos tradicionais “prejudicaram” a Europa, Salvini e sua aliança podem ganhar assentos nesta eleição. Mas a manutenção da aliança ao longo dos cinco anos de mandato pode ser um desafio. “Estes partidos são nacionalistas por definição, o que pode complicar a cooperação”, afirmou o professor de Ciência Política do Centro de Pesquisas Europeias da Universidade de Gothenburg, Jonathan Polk.

REGIONALISMO EM PAUTA

Assim como a aliança liderada por Matteo Salvini ou a presença da candidata francesa de direita Marine le Pen, as eleições parlamentares europeias terão como outro destaque a presença de partidos e pautas regionalistas. O ex-líder separatista da Catalunha, Carles Puigdemont, é um exemplo disso. Asilado em Bruxelas desde que declarou independência da região autônoma espanhola, Puigdemont concorre a um dos assentos parlamentares sem estar na Espanha, e com a bandeira de aumentar a democracia no bloco europeu.

Para Jonathan Polk, esta característica se repete em alguns países onde a pauta transnacional é mais importante que questões nacionais. “A relação entre movimentos regionais e partidos é mais importante para países como Espanha e Reino Unido, mas não para países como a Suécia, que tem pautas mais específicas para o país”, afirmou.

A questão transnacional vai além de movimentos regionalistas, e pode ser frequentemente vista nos discursos do presidente francês, Emmanuel Macron, e da chanceler alemã, Angela Merkel. “A Europa dá uma identidade a mais para nós. Sou alemão e europeu”, afirmou o ministro do Exterior da Alemanha, Heiko Mass em campanha para as eleições.

Com isso, as eleições deste ano podem diminuir a influência dos dois maiores partidos, PPE (Partido Popular Europeu, de centro-direita) e (S&D, Aliança Progressista de Socialistas e Democratas) para dar voz a alianças transnacionais ou partidos ambientalistas, por exemplo.

“O partido verde alemão ‘Die Grünen’ é um destaque desta eleição.

Eles têm quase 19% dos votos na Alemanha, e podem ganhar mais assentos do que o ultranacionalista AfD [partido de extrema-direita]. Eles estão a caminho de dobrar seus mandatos”, afirmou o professor associado da Malmo University, Anders Hellström.

O DESAFIO CHAMADO BREXIT

A separação do Reino Unido da União Europeia se tornou uma das mais importantes questões do continente nos últimos três anos. Com data marcada para a separação definitiva – até 31 de outubro, no máximo -, o processo, conhecido como Brexit pode ser outro desafio para os novos parlamentares europeus.

O Reino Unido se viu obrigado a participar das eleições europeias após ter descumprido o prazo original para o divórcio com bloco, em março, o que acabou minando os planos da primeira-ministra Theresa May de se desligar das obrigações políticas com os europeus. No entanto, analistas se dividem nas opiniões sobre como a questão separatista influenciará o Parlamento europeu.

“Há questões mais importantes para a União Europeia, como a relação transatlântica com a administração [do governo dos Estados Unidos, de Donald] Trump, o desafio estratégico da China, mudanças climáticas, o sistema de asilo europeu. Eu acho que muitos parlamentares preferem esses temas ao Brexit”, disse Polk.

“As incertezas sobre o Brexit vão continuar presentes nesta eleição. No curto prazo, a distribuição de mandatos será um desafio. No longo prazo, a saída do Reino Unido vai ser um desafio para as questões diárias da União Europeia”, afirmou o professor Anders Hellström.

“A participação dos parlamentares do Reino Unido é um problema. Mas neste momento não há alternativa, uma vez que o país não deixou a União Europeia. Se deixar o bloco no futuro, é importante que os parlamentares britânicos renunciem, para não causar questões de legitimidade na tomada de decisões”, afirmou Eichhorn.

Mesmo com as incertezas sobre o Reino Unido e com o possível aumento da pressão de partidos e movimentos nacionalistas, o Parlamento europeu que será eleito ainda manterá a configuração de um bloco unido e forte no cenário internacional.

“Partidos pró-União Europeia vão continuar sendo a maioria, embora o número possa diminuir. Mas partidos anti-UE conquistaram assentos nas recentes eleições parlamentares, por conta de votos em seus respectivos países, em 2014. Dessa forma, parece que 2019 vai ser uma continuação de padrões similares às de outras eleições europeias”, afirmou Jonathan Polk.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com