ELEIÇÕES 2018: Maior tempo de campanha na TV pode desfavorecer Alckmin

09/08/2018 18:00:21

Por: Álvaro Viana / Agência CMA

Brasília – O tempo de veiculação da campanha em propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV, que inicia-se em 31 de agosto, será usado de forma estratégica por todos os candidatos. Essa necessidade é motivada principalmente pela mudança na legislação eleitoral e, por conseguinte, pela restrição de doações a campanhas por parte de empresas privadas e pela redução do período de campanha eleitoral, afirmaram especialistas à Agência CMA.

Nesse cenário, o primeiro candidato que ganha vantagem é Geraldo Alckmin, mas o tempo maior de campanha na TV pode ser também uma desvantagem, caso o candidato do PSDB não explore e diversifique seus argumentos para ser eleito. O ex-governador paulista terá 5 minutos e 53 segundos de cada bloco de 12 minutos e 30 segundos, que será exibido às terças-feiras, quintas-feiras e sábados. O tempo maior é resultado das alianças de Alckmin, principalmente com o “centrão”, com as quais conseguiu contabilizar 240 aliados, o equivalente a 49,2% do total de 513 parlamentares que compõem a Câmara dos Deputados.

O tempo de Alckmin, todavia, não lhe garante vantagem assegurada, uma vez que sua propaganda de maior tempo poderá saturar o eleitor, é o que explica o cientista político e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Antônio Testa. “A desigualdade ficou muito grande. Só o candidato tucano tem mais tempo que quase todos os outros juntos. Isso tem vantagens e desvantagens, porque ele terá que usar esse tempo para uma produção mostrando o que ele fez e o que poderá fazer, o que pode gerar uma saturação pois há essa desigualdade imensa nessa distribuição de tempo”, pontua.

Após Alckmin, vem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, caso seja o candidato do PT ao Palácio do Planalto, acumula 16,8% de apoio dos parlamentares do PROS e PCdoB, o que lhe confere 2m29s do bloco eleitoral. Henrique Meirelles (MDB) terá 1m27s, tempo proporcional aos parlamentares aliados à sua chapa que somam 11,29% do total de deputados. Em seguida, abaixo de 1 minuto, estão Alvaro Dias (Pode), com 57 segundos; Ciro Gomes (PDT), com 43 segundos; Jair Bolsonaro (PSL), com 18 segundos; Guilherme Boulos (PSOL) e Marina Silva (Rede), com 13 segundos, cada.

Dois eventos foram relevantes para a mudança de cenário nas eleições deste ano. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu inconstitucional o financiamento empresarial de campanha nas eleições, essa era a principal fonte da qual os partidos bebiam recursos durante o período de campanha eleitoral. No mesmo ano houve uma mudança na lei eleitoral que reduziu o período de campanha de 90 para 45 dias e o de propaganda eleitoral na TV de 45 para 35 dias.

“Eles (presidenciáveis) vão ter dificuldade para poder viajar, se deslocar, e visitar todos os lugares. Vão contar com 20%, 30% do recurso de campanha que eles estavam acostumados e isso vai se refletir, por exemplo, na redução dos deslocamentos, que são despesas muito altas. E aí você pega esse tempo deles que vão ter que dividir entre debates, sabatinas, gravação de programas de TV, ou seja, vão ter que privilegiar alguns lugares”, afirma o cientista político da Factual Análise, Leonardo Barreto.

Com isso, o tempo de TV e rádio vai ganhar uma importância muito maior, segundo Barreto. “Já que o candidato não vai poder visitar, não vai poder falar com a imprensa local em todos os lugares, vai ter restrição de tempo, o tempo de TV vira o instrumento por excelência para poder atingir todas as pessoas”, explica. Dentro dessa junção de fatores, o contexto de restrição de campanha valoriza o tempo de TV.

De acordo com Testa, os candidatos que têm menos tempo de TV terão de “utilizar esse pouquíssimo tempo para comunicar uma mensagem quase que instantânea do tipo “meu nome é Enéas” e utilizar outros artifícios como redes sociais etc. Então, na prática, não ficou muito bem distribuído, mas é a regra”, opina. A tendência, segundo o pesquisador, no entanto, é que essas regras sejam alteradas a partir das próximas eleições, em 2022.

Em eventual segundo turno, todavia, a probabilidade é de que o contexto seja mais equivalente para os candidatos. “Vamos supor que quem passe para o segundo turno seja quem tem mais tempo, ele vai mostrar o quê? Já vai estar saturado. E quem não teve tempo, terá a oportunidade de mostrar muito mais coisas, se tiver dinheiro pra isso”, diz Testa.

“O tempo de TV vira o instrumento por excelência para você poder atingir todas as pessoas”, diz Leonardo Barreto. Dentro do contexto das eleições deste ano, entretanto, com limitações de tempo e menos dias para campanha, os candidatos terão de ser mais criativos para chamar a atenção do eleitor, explica o especialista.

Leonardo Barreto afirma que as inserções de 30 segundos ou 60 segundos (dependendo da escolha do partido) que, de acordo com a lei eleitoral, poderão ser incluídas na programação dos canais entre às 5h e meia noite durante o período de propaganda gratuita, são valiosas para o candidato. Isso porque esses spots pegam o eleitor de surpresa, uma vez que podem ser distribuídas nas janelas de intervalo da programação normal dos canais.

“Essa é uma grande inovação dessa campanha porque no horário eleitoral você ficava encapsulado naquele período pré-determinado. Acho que criou-se um belo de um instrumento para os marqueteiros poderem trabalhar. Nesse sentido, o Alckmin tem uma bela de uma vantagem. O pessoal fala que ele não pode criar programas chatos, porque se não ele vai se dar mal. Mas esse é um tipo de problema bom. Se a preocupação dele é não ser chato, ele vai ter um conjunto de pessoas que vão ajudá-lo”, diz Barreto.

Leonardo destaca ainda dois elementos importantes no momento da propaganda eleitoral gratuita. “A primeira é o que você fala e a segunda é o volume do seu alto-falante, digamos assim. O quanto espaço você tem para falar? Nesse aspecto, o Alckmin tem um oceano de vantagem para poder divulgar a mensagem dele”, diz.

Assim, Alckmin poderia aproveitar o tempo “de sobra” para fazer também campanha negativa dos outros candidatos. “Ele não precisa de todos os spots ligados a ele. Isso é uma baita de uma vantagem. Ele pode dividir esses vários spots por tema, o que vai fazer uma diferença. Como está apenas em quinto lugar na pesquisa, vai ter que fazer campanha negativa também”, diz Barreto, referindo-se à última pesquisa CNI/Ibope, de junho, em cenário com o ex-presidente Lula.

INTERNET

Enquanto o contexto torna-se vantajoso para Alckmin, os outros candidatos que terão menos tempo de propaganda eleitoral gratuita podem procurar a campanha na internet como uma alternativa para “compensar” o menor tempo de televisão. Para Antônio Testa, essa será a primeira eleição a qual vai ser possível medir o impacto das redes sociais em contraste com a TV.

“Nas últimas eleições teve uma aplicação grande das redes sociais, mas não foi tão decisivo assim. Como há uma desigualdade muito grande na distribuição do tempo de TV, é muito provável que os outros candidatos que têm pouco tempo utilizem mais a internet, o que não quer dizer que o candidato tucano também não vá utilizar”, explica Testa.

Para Barreto, todavia, a campanha online ainda não teria a mesma capilaridade que a TV apresenta. Segundo o cientista político, o uso da televisão faria parte da transição da pré-campanha digital para uma campanha “analógica”.

“Agora você entra no modo de campanha analógico, que inclui rádio, TV mas inclui também alianças, eleições para governo, estadual, cabos eleitorais, parlamentares que vão pedir voto e aí nessa parte da “campanha analógica” é onde o Alckmin se dá bem com mais recursos”, detalha Barreto.

“Esse universo das redes sociais tem como característica ser anárquico. E qualquer um pode entrar nessa brincadeira de rebater ou fazer um questionamento da propaganda ou do comercial. Os candidatos devem tentar criar algum tipo de relação entre redes sociais e TV sem dúvida. É um terreno novo, que não se sabe muito como funciona”, explica.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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