Eleição no México traz risco baixo para laços com EUA

18/04/2018 12:28:40

Por: Cristiana Euclydes / Agência CMA

O presidente do México, Enrique Peña Nieto (à esq.) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Divulgação/Casa Branca)

São Paulo – A eleição presidencial mexicana, prevista para o dia 1o de julho deste ano, traz certa incerteza para as relações já tensas entre os governos do México e dos Estados Unidos. Porém, seja qual for o novo chefe de Estado, não deve haver uma deterioração dos laços bilaterais nem da economia mexicana, segundo analistas consultados pela agência CMA.

O candidato do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), Andrés Manuel López Obrador (AMLO), disputa o cargo pela terceira vez e lidera as pesquisas de intenções de voto. Populista de esquerda, ele é o candidato que se posiciona de forma mais clara contra as críticas do presidente norte-americano, Donald Trump, ao país, bem como ao muro que está sendo construído na fronteira, entre outras políticas dos Estados Unidos.

Em segundo lugar, está Ricardo Anaya, líder do Partido de Ação Nacional (PAN), de centro-direita e candidato pela coalizão Por México al Frente. Em terceiro lugar, vem José Antonio Meade, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), legenda do atual presidente Enrique Peña Nieto. Meade, que deixou o cargo de secretário da Fazenda para disputar as eleições, concorre pela coalizão Todos por México. Não há reeleição no país.

Há ainda a candidata independente Margarita Zavala, esposa do ex-presidente Felipe Calderón, mas com poucas chances de vitória. Pela primeira vez, uma candidata independente vai disputar as eleições, algo que passou a ser permitido devido à reforma política. Outros tentaram se candidatar, mas tiveram seu pedido reprovado pelo Instituto Nacional Eleitoral.

O período de campanha começou oficialmente em 30 de março, em meio a tensões com o país vizinho que vão desde a renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta, em inglês) até questões referentes à imigração. Durante a pré-campanha, os temas que mais se destacaram foram corrupção, violência, economia e relações com Estados Unidos.

De acordo com Joel Martinez, pesquisador associado sobre o México do Center of American Progress, nos últimos 30 anos os Estados Unidos e o México estabeleceram importantes laços políticos, econômicos, de segurança e culturais, que não podem ser facilmente negligenciados mesmo com o atual estado hostil das relações entre os dois países.

“As partes interessadas de ambos os lados da fronteira – autoridades governamentais, atores do setor privado e a sociedade civil – compreendem a importância da relação binacional e reconhecem que um México estável é de interesse para o México e para os Estados Unidos”, disse Martinez.

“A melhor oportunidade para o México alcançar a estabilidade é através de uma estreita cooperação com seu vizinho mais importante e, em última análise, a razão prevalecerá para além das eleições presidenciais mexicanas e da atual administração dos Estados Unidos”, afirmou o pesquisador.

Segundo o economista da Capital Economics, Edward Glossop, uma vitória de AMLO parece cada vez mais provável, mas “seu latido pode ser pior do que sua mordida”. Glossop ressaltou que “os princípios centrais da política macroeconômica provavelmente permanecerão intactos, e um pequeno afrouxamento fiscal pode impulsionar o crescimento em 2019”.

Para o economista da Focus Economics, David Ampudia, a retórica nacionalista de AMLO tem irritado os investidores estrangeiros, alimentando os temores de que ele possa buscar um confronto com Trump, mas parte disso é apenas barulho político.

“Olhando para além deste barulho, há razões para acreditar que as relações entre os dois países estão se recuperando”, disse o economista. “A inclinação de Trump em buscar um aumento nas tensões com o México atenuou-se após grandes vitórias legislativas, como a reforma fiscal”.

Para Ampudia, a incerteza continua, como mostra a decisão de Trump de posicionar a Guarda Nacional na fronteira sul dos Estados Unidos. Apesar de a medida ter provocado reações de todo o espectro político mexicano, López Obrador deve se beneficiar politicamente da retórica dura e das ações de Trump, por ser o candidato que mais se opõe ao presidente norte-americano.

Anaya e Meade são considerados pró-mercado e tendem a buscar relações mais próximas com Trump. Porém, eles lutam pelo segundo lugar tentando desacreditar o outro lado por motivos de corrupção. “Uma oposição confusa está, em última análise, impulsionando a candidatura de López Obrador, como refletido em pesquisas recentes, nas quais sua liderança se ampliou”, disse Ampudia.

Joel Martinez aponta que Anaya e Meade são moderados políticos. Ambos expressaram aversão à retórica hostil de Trump em relação ao México e seus
cidadãos, mas, caso sejam eleitos, se mostram prontos a fortalecer as relações entre os dois países no comércio, imigração, segurança, terrorismo e nos esforços de combate ao narcotráfico.

“Como todos os candidatos à presidência, Anaya e Meade entendem a importância do relacionamento binacional entre os Estados Unidos e o México, e não querem prejudicar isso”, afirmou Martinez.

No entanto, na medida em que a eleição presidencial mexicana se aproxima, e se Trump continuar suas críticas ao México, “todos os candidatos deverão demonstrar à população que seu voto será direcionado a alguém que possa assumir uma liderança ousada em todos os níveis de governo e defender o México contra Trump, o que pode prejudicar as relações de governo com os Estados Unidos temporariamente”.

RENEGOCIAÇÃO DO NAFTA

Um dos temas centrais nas eleições mexicanas e que pode afetar a economia do país é a renegociação do Nafta. México, Estados Unidos e Canadá estão revisando o acordo, que vigora há 24 anos. A proposta dos norte-americanos é reduzir o déficit comercial geral com seus parceiros.

Os negociadores dos três países se reuniram em Washington no começo de abril para buscar um consenso sobre questões sensíveis, como as regras de origem para carros e caminhões leves fabricados na América do Norte. Como não houve acordo, as equipes concordaram em manter negociações permanentes, em vez de realizar uma oitava rodada formal de conversas.

A administração de Trump também tem usado as negociações do Nafta como moeda de troca para obter colaboração na área de imigração. O governo começou a construir um controverso muro na fronteira com o México e Trump criticou o governo mexicano repetidas vezes por não conter os imigrantes que vêm da América Central e cruzam o território mexicano em direção aos Estados Unidos.

Para Martinez, do Center of American Progress, se AMLO vencer a eleição presidencial mexicana, é improvável que ele seja a razão por trás de um possível colapso do Nafta.

“Ao refletir sobre o mandato de AMLO como prefeito da Cidade do México, ele foi menos radical e mais pragmático do que parece. Há muitos no México e nos Estados Unidos que acreditam que sua postura atual e sua retórica política são apenas para a campanha e que, em última análise, ele será um líder racional”, disse o pesquisador.

Martinez citou, como exemplo, que a oposição inicial de AMLO à reforma energética de Peña Nieto mudou recentemente para uma postura mais prática. “No entanto, o pior cenário seria que AMLO, como presidente do México, potencialmente provocasse Donald Trump da maneira errada, e Trump seria a razão por trás da deterioração das relações entre Estados Unidos e México e possivelmente do fim do Nafta”.

Já Ampudia lembrou que Obrador manifestou apoio ao acordo comercial, afirmando que gostaria que ele continuasse, mas prometeu trazer itens novos e espinhosos para a mesa de negociações, ou seja, relacionados à imigração. “Isso provavelmente atrasaria ainda mais qualquer revisão do Nafta e aumentaria o risco de um final malsucedido das negociações”, afirmou. A administração de Trump, por enquanto, adota um tom conciliatório, pressionando para chegar a um acordo até o início de maio, disse ele.

ECONOMIA DEVE ACELERAR

As eleições presidenciais de julho, assim como a renegociação do Nafta, trazem alguma incerteza para a economia mexicana, mas não devem afetar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, de acordo com os analistas consultados pela Agência CMA.

Para Glossop, da Capital Economics, o PIB do México deve se fortalecer em 2018 com alta de 2,5%, após a taxa de 2,1% em 2017. Para ele, as conversas sobre o Nafta devem terminar com apenas pequenas mudanças no tratado existente.

“Se tivermos razão, o peso mexicano poderá finalmente se recuperar, permitindo que o Banxico [banco central do México] reduza as taxas de juros”, disse o economista. Na reunião de abril, o banco decidiu, por unanimidade, manter a taxa de juros do país em 7,50% ao ano, diante da recente evolução da inflação, que está acima da meta.

Segundo Ampudia, da Focus Economics, as eleições presidenciais e as conversas em curso sobre a modernização do Nafta estão dificultando o investimento privado, enquanto o governo continua comprometido com a consolidação fiscal.

Ele destacou que a produção de petróleo continua em queda, a taxa de inflação ainda está alta e as condições fiscais têm se estreitado. “Porém, na medida em que o ruído político desaparecer após as eleições de julho, assim como a renegociação do Nafta, a economia deve recuperar o impulso”, disse.

“As condições de trabalho permanecem excessivamente aquecidas, enquanto a produção industrial norte-americana continua a alimentar a produção industrial mexicana. Na medida em que a inflação desacelera gradualmente e o Banxico reduz a taxa de juros no segundo semestre do ano, o crescimento econômico deve ganhar força, sustentado pelo aumento dos gastos das famílias e do investimento empresarial”, disse Ampudia.

Edição: Pâmela Reis (pamela.reis@cma.com.br)

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