Disputa por áreas de petróleo no Brasil atrai mais empresas estrangeiras

07/07/2017 11:15:22

Por: Alexandre Melo / Agência CMA

FPSO Saquarema. Foto: Divulgação/Petrobras

São Paulo – A consolidação da produção na camada pré-sal e o fato de a produtividade média dos campos estar entre as maiores do mundo deverão colaborar para que petrolíferas que ainda não atuam no Brasil disputem essas áreas com competidores já estabelecidos. A ExxonMobil, a Petronas e as russas Rosneft e Gazprom deverão vir com força para a segunda e a terceira rodadas no regime de partilha da produção.

As atividades brasileiras da Exxon, maior petrolífera de capital aberto do mundo, resumem-se à área química, polímeros e a dois blocos terrestres de gás no Sergipe e no Ceará. O governo espera que esse cenário mude, pois em 2017 foram realizadas três visitas à sede da empresa, nos Estados Unidos.

“Tivemos um contato estreito com a empresa e o interesse pelo País é grande”, disse o secretário de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia, Márcio Félix.

O interesse da companhia é participar ativamente da exploração do pré-sal, após estudos apontarem que as reservas na camada podem ter até 100 bilhões de barris de óleo recuperáveis, colocando o Brasil ao lado de produtores mundiais importantes como Iraque, Estados Unidos e a Arábia Saudita.

Recentemente, especulou-se que a Exxon faria parceria com a francesa Total e a norueguesa Statoil para explorar essas áreas com a Petrobras.

A recente visita do presidente Michel Temer à Rússia também pode resultar em oportunidades de investimentos em exploração e produção no Brasil.

Executivos da Gazprom e da Lukoil e o presidente russo Vladimir Putin estiveram reunidos com representantes do governo brasileiro no Kremlin por horas para analisar dados do pré-sal, cuja produção em maio atingiu 1,57 milhão de barris de óleo equivalente (boed) por dia.

Outra russa, a Rosneft, que explora gás e petróleo em blocos localizados na Bacia do Solimões (AM) arrematados na 13a rodada de licitações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2015, também é forte candidata a participar dos leilões que acontecerão em 27 de outubro.

A companhia comprou a participação da PetroRio na Bacia do Solimões por US$ 55 milhões. “É provável que a Rosneft atue também na 14a rodada, em setembro”, disse Félix.

Em entrevista à Agência CMA, o secretário de Petróleo e Gás afirmou que a Petronas também estuda áreas para investir. “Durante o roadshow passamos por novos países para buscar investidores e a petrolífera malaia, que é pouco ativa no Brasil, poderá ter oportunidades nesses leilões”. Em 2015, houve uma parceria com a OGX, que está para sair da recuperação judicial, no campo de Tubarão Martelo, mas ela foi rompida meses após a assinatura.

Novidades também podem surgir com as multinacionais chinesas, com destaque para a Sinopec, que atua em território brasileiro por meio da controlada portuguesa Galp Energia. No ano passado, foi firmado um memorando de entendimento para ampliar a cooperação entre as empresas, que já são parceiras no campo de Lula/Iracema, no pré-sal da Bacia de Santos e têm operações conjuntas há 15 anos.

“A grande expectativa é de que as chinesas tenham posicionamento maior na indústria de óleo e gás. Sem dúvida isso acontecerá por meio de mais parcerias com a Petrobras, que domina a exploração em águas ultraprofundas e é alternativa para enfrentar menos risco”, pontuou o sócio-líder da área de Oil & Gas da KPMG no Brasil, Anderson Dutra. Ontem, a estatal e a CNPC, que integra o consórcio de Libra, assinaram termo de aliança no País e no exterior.

Segundo a Petrobras, esse acordo é importante para o plano de negócios e gestão 2017-2021 e para atingir a meta de desinvestimentos de US$ 21 bilhões em ativos até o fim do próximo ano. Existem rumores de que a CNPC poderá assumir a obra do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), paradas desde 2015, com a compra de uma fatia minoritária no projeto. A unidade de refino produzirá nafta petroquímica, óleo diesel, querosene de aviação (QAV) e GLP (gás de cozinha). Outra estatal chinesa que pode ampliar sua presença é a CNOOC.

O secretário do Ministério de Minas e Energia afirmou que os investidores chineses, incluindo fundos de investimentos, têm muito interesse nessas áreas do pré-sal do regime de partilha, mas querem entender melhor a crise política no Brasil, cujo epicentro é o presidente Temer, acusado recentemente de corrupção. “Esse cuidado é fundamental para que eles tenham segurança em investir”.

Para o sócio da KPMG, uma das surpresas nessas rodadas de licitações pode ser a gigante Saudi Aramco, estatal da Arábia Saudita que estuda oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) desde 2016. “O interesse é expandir a atuação internacional e as reservas brasileiras podem ser estratégicas”. A Qatar Petroleum, que comprou fatia de 23% da Shell no projeto Parque das Conchas, na Bacia de Campos, por US$ 1 bilhão, é outra candidata.

“O presidente da ANP [Décio Oddone] tem falado que as mudanças recentes na legislação do setor são justamente para proporcionar a entrada de novos competidores. Ainda não é possível afirmar que esses leilões serão um sucesso, mas, certamente, o governo conseguirá arrecadar o bônus de assinatura mínimo para as duas etapas do pré-sal”, disse Dutra. Os bônus mínimos somam R$ 7,75 bilhões.

A renovação do Repetro, programa que suspende a cobrança de impostos para a importação de equipamentos para os projetos de exploração no País, por mais 20 anos, é considerada uma condição imprescindível para que esses certames tenham o sucesso esperado pelo governo, que tem um cardápio de áreas para licitar até 2019. Os investimentos diretos decorrentes dessas áreas poderão atingir US$ 83 bilhões, conforme estimativas da ANP.

Félix disse que o texto da medida do Repetro está para ser aprovado pela Casa Civil e o Ministério da Fazenda em breve. “Está praticamente tudo pronto e os investidores não terão esse benefício fiscal apenas até 2020. Agora [a Pasta] de Minas e Energia está apenas acompanhando o processo. Isso é tudo o que precisamos para atender o pleito do setor”, afirmou o secretário.

Mudanças recentes nas regras sobre conteúdo local – que reduziram pela metade o índice de uso desses materiais para a exploração de novas áreas, incluindo a 14a rodada no regime de concessão e as duas na camada pré-sal – e o fim da exclusividade da Petrobras para operar nessa província nos próximos certames eram as alterações mais exigidas pelas petrolíferas.

A Petrobras exerceu o direito de preferência para três dos oito prospectos que serão ofertados sob o regime de partilha da produção com a União. Os bônus de assinatura mínimos deverão somar R$ 810 milhões, correspondentes a 30% de participação em cada bloco, considerando Sapinhoá, na segunda, e Peroba e Alto de Cabo Frio Central, na terceira.

PLAYERS EXPERIENTES

Bons resultados obtidos com a exploração no pré-sal podem aumentar o apetite de competidores estabelecidos no Brasil como a anglo-holandesa Shell, a britânica BP, a norte-americana Chevron e a norueguesa Statoil, que deverão brigar por áreas, principalmente da terceira rodada. “Algumas dessas empresas são operadoras de blocos e podem fazer lances com tranquilidade por conhecer áreas”, pontuou o sócio da KPMG.

Dados mais recentes da ANP mostram que a Statoil é a segunda maior operadora de petróleo e gás natural do País, com 80 mil boed ou 3% da produção, atrás apenas da Petrobras, que detém 3,120 milhões de boed ou 93% do total. Aparecem depois a Shell e Chevron, com 1% cada, sendo que a quarta posição está com a PetroRio. A OGX (OGPar) aparece em seguida.

A Statoil comprou da Petrobras no ano passado a participação de 66% no bloco BM-S-8, na Bacia de Santos, no campo do pré-sal de Carcará. A transação envolveu US$ 2,5 bilhões. Carcará foi descoberto em 2012 na mesma área geológica, sendo vizinho do campo de Lula e da área de Libra. A última estimativa era de que os volumes recuperáveis na área estejam ao redor de 700 milhões a 1,3 bilhão de boe.

LEILÕES NO EXTERIOR E MELHORES ÁREAS

Segundo o analista do Raymond James, Pavel Molchanov, as condições atuais das petrolíferas não são ideais para participar de certames ao redor do mundo, pois o preço do barril de petróleo tipo Brent está abaixo dos US$ 50.

“Mesmo as maiores empresas multinacionais de energia estão limitadas em quanto elas podem investir. Isso é especialmente verdadeiro para a exploração, porque requer gastos significativos, cinco anos ou mesmo mais antes que os ativos possam começar a gerar fluxo de caixa”.

“Como resultado, minha expectativa seria o interesse limitado da indústria nos novos blocos brasileiros”, afirmou Molchanov. No entanto, especialistas ouvidos pela Agência CMA acreditam que as áreas produtivas brasileiras estão entre as melhores do mundo, juntamente com as do México, que fez um leilão recentemente e conquistou novos players por ter conteúdo local zero, e a África.

“Precisamos ter uma mão de obra mais competitiva para ter sucesso nesses certames, porque o custo brasileiro é cerca de 30% superior ao observado no exterior. Estudo do IHS Markit indica que a retirada do conteúdo local abrirá 70 mil postos no setor até 2020 e a arrecadação do governo poderá chegar a US$ 300 bilhões”, observou Dutra, da KPMG.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

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