Diesel subsidiado reduz espaço para importação

29/08/2018 15:50:45

Por: Wilian Miron / Agência CMA

Diesel

Bomba de abastecimento de diesel (Foto: Marcos Sandos / USP Imagens)

São Paulo – A nova metodologia de cálculo do preço do diesel, com a concessão de subsídio pelo governo, deve continuar repercutindo no mercado de combustíveis ao longo dos próximos dois trimestres. Enquanto os importadores alegam que as medidas tomadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) reduz os incentivos para a importação de óleo diesel, a agência reguladora alega que a medida é emergencial e que não terá impacto sobre a estrutura do setor.

A intervenção estatal no preço dos combustíveis é fruto da paralisação, por dez dias no mês de maio, dos caminhoneiros. À época,o governo federal concedeu um subsídio de R$ 0,30 por litro ao óleo diesel, como forma de estancar a insatisfação dos grevistas, o que beneficiou a Petrobras num primeiro momento e derrubou os incentivos à importação, uma vez que o preço no mercado local ficou baixo demais para justificar a compra do produto no exterior.

A Ipiranga, braço do Grupo Ultra, afirmou que o preço do litro do diesel caiu R$ 0,46 após a greve. Isso, segundo a companhia, gerou uma despesa contábil de R$ 123 milhões no segundo trimestre, visto que o valor do combustível estocado teve que ser ajustado para baixo.

A empresa também registrou um impacto negativo de R$ 40 milhões decorrente de problemas na operação e de queda nas vendas durante a greve dos caminhoneiros.

“O mercado teve um primeiro trimestre bastante fora da curva, com a questão muito grande de produtos importados no mercado”, disse o diretor financeiro e de relações com investidores do Grupo Ultra, André Pires, durante teleconferência de resultados do segundo trimestre.

“Essa tendência foi se corrigindo principalmente ao longo do início do segundo trimestre, mas de certa maneira a greve acabou mudando essa tendência”, acrescentou.

A própria Petrobras mudou sua estratégia após a greve dos caminhoneiros. Se antes a ideia era diminuir o refino de combustíveis no mercado nacional, com a taxa de uso das refinarias em 68% antes da paralisação, depois a lógica se inverteu e a taxa chegou a 81% ao final do segundo trimestre.

Em nota, a Petrobras disse que busca usar seus ativos de forma a garantir a rentabilidade mais adequada à companhia que o nível utilização das refinarias “depende, dentre outros fatores, das cotações de preços de petróleo e derivados, da disponibilidade das unidades de processo e do volume de combustíveis a ser entregue aos clientes”.

Nesta semana o órgão reulador divulgou nova fórmula para o cálculo do subsídio ao diesel. Contudo, os principais importadores acreditam que a metodologia de cálculo para o preço do combustível inviabiliza as operações de importação.

“Os custos considerados pela resolução não refletem a realidade. A nossa expectativa é de que nenhum agente fará importação neste ano”, comentou o presidente executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo.

Segundo a Abicom, a fórmula final da ANP para o preço do diesel resolve a questão dos custos no exterior, algo que era uma preocupação dos agentes do setor em relação à formula original, mas continua prevendo valores inferiores aos efetivamente praticados no mercado para os custos de terminais portuários e para o frete dentro do Brasil.

Segundo ele, além de prejudicar as importações neste ano, a intervenção da agência causa insegurança quanto ao futuro das importações de combustíveis, uma vez que o programa chegará ao fim e a Petrobras, detentora de 98% do refino no país, voltará a ditar os preços no mercado. Neste caso, se ela voltar a praticar preços alinhados com o mercado internacional, os importadores seguirão a mesma política.

“No caso do diesel há um déficit de 20% do volume comercializado. Então vai depender de qual será a política de preço que a Petrobras vai praticar”, disse.

De acordo com relatório do banco UBS, as novas regras para o cálculo da subvenção do governo, divulgada nesta semana pela ANP, devem deixar pouca margem de lucro para as empresas importadoras, o que teria capacidade para aumentar a demanda por combustível refinado no país.

Isto seria positivo para a Petrobras, não fosse o incêndio recente na em sua maior refinaria, a de Paulínia (Replan). O incidente paralisou as atividades no local e forçou a Petrobras a aumentar a compra de combustível no exterior, o que a coloca em situação tão desvantajosa quanto a dos demais importadores.

A empresa deverá importar cinco cargas de óleo diesel, totalizando 1,5 milhão de barris, e uma de querosene de aviação para recompor estoques perdidos com a paralisação na Replan.

“As mudanças [na fórmula do preço de referência do diesel] são insuficientes para garantir a paridade com o preço internacional e margens para as refinarias domésticas e para os importadores”, disse o UBS em relatório.

Entretanto, na visão da ANP, a fórmula não terá impacto sobre a concorrência, e afirmou que tem se pautado por políticas que estimulam a competição no setor. “Temos avaliado a estrutura de refino no Brasil buscando identificar a proposição de medidas que estimulem a entrada de novos atores no segmento, com o objetivo de aumentar a concorrência”, afirmou a agência.

Edição: Gustavo Nicoletta (g.nicoletta@cma.com.br)

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