Demora do PT para confirmar Haddad pode beneficiar Ciro, dizem especialistas

12/09/2018 15:13:18

Por: Álvaro Viana / Agência CMA

Brasília – A demora do PT para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial pode favorecer outros candidatos, em especial o pedetista Ciro Gomes, afirmaram especialistas à Agência CMA. A estratégia do PT, no entanto, não elimina a possibilidade de o sucessor de Lula, Fernando Haddad, ir ao segundo turno da disputa, para possivelmente enfrentar Jair Bolsonaro (PSL) potencialmente enfraquecido pelo índice de rejeição.

O prazo de dez dias para o anúncio do substituto de Lula, após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter rejeitado o registro de candidatura do petista, terminou ontem e estreitou o tempo de campanha de Haddad. O candidato terá cerca de três semanas para apresentar suas propostas ao eleitorado, uma desvantagem em relação aos outros presidenciáveis, indicam os especialistas.

O professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo Barreto, acredita que a estratégia do PT seja de “alto risco”. “(No PT) não existe nem um comitê, nem um grupo estratégico. No fundo o que existe é o Lula. O problema é você deixar os eleitores do Lula “sem dono”, porque na medida e que o TSE impede a candidatura, mas você não oficializa o substituto, esses eleitores ficam à disposição de outros candidatos, para escutar outras propostas, considerar outros cenários”, explica.

O sócio-diretor da Holding Assessoria, André César, diz que o cenário pode favorecer Ciro Gomes pois não existe uma certeza de que haveria uma transferência automática dos votos de lulistas a Haddad. “Ciro Gomes pode ser um grande beneficiado nesse processo, ele pode levar muito voto dos “então lulistas” mas que não querem votar no Haddad por outros fatores. E aí a esquerda tem outras opções, tem o Ciro, o Boulos, a Marina mas o Ciro Gomes se casa com o Lula, é uma figura que bate de frente com a centro-direita brasileira”, diz.

“Ele (Ciro) pode encarnar isso e ter dividendos. E esses dividendos, dado o quadro acertado, um pouco dos votos que podem vir do Lula, podem colocá-lo no segundo turno. E aí é o risco do PT ficar fora do segundo turno por ter demorado na transição Lula-Haddad. Essa é uma crítica que tem sido feita”, acrescenta André César.

Rafael Cortez, analista da Tendências Consultoria, também avalia que com a decisão do TSE em barrar Lula, o PT começou a entrar em uma zona de risco em que a janela de tempo para definição de um novo candidato começou a trabalhar contra os petistas. “Essa insistência (em Lula) nos últimos dias acabou abrindo espaço para que o Ciro ocupasse esse espaço no eleitorado da centro-esquerda. Isso também já está expresso nas pesquisas”, analisa.

Entretanto, o eventual crescimento de Ciro não é a única projeção dos especialistas. Para Cortez, outro cenário pode se desenrolar com o novo nome do PT. “A partir de agora, a expectativa é que isso gere um aumento da sua intenção de voto (no Haddad), rivalizando e ultrapassando Ciro na esquerda para fazer o segundo turno contra o Bolsonaro”, explica.

“O risco desse processo é esse ganho de votos do Haddad não ter magnitude o suficiente para ultrapassar o Ciro, gerar um quadro de muito equilíbrio e isso gerando um efeito não esperado, qual seja mantendo o Alckmin na disputa na medida em que reduziu a intenção de voto necessária para ir para o segundo turno”, esboça Cortez.

ATAQUE A BOLSONARO

Ainda de acordo com os especialistas, o atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 6 de setembro, durante campanha em Juiz de Fora (MG), não repercutiu como o previsto de que o evento aumentaria sua chance de ser eleito. O cientista político André César explica baseando-se na última pesquisa Datafolha, de ontem.

“É de fato um evento relevante para a disputa, mas tem de calibrar a análise e o fato. E os números mostram isso. O Bolsonaro oscilou positivamente, mas cresceu na pesquisa apenas dentro da margem de erro. Esperava-se bater 30, 32, 35, mas ele oscilou. O Ciro sim cresceu bastante, foi de 9% para 13% e em cima muito da Marina. Outra coisa, a rejeição do Bolsonaro aumentou”.

Segundo André César, mesmo o ataque sofrido por Bolsonaro não foi o suficiente para romper a principal barreira do candidato, a rejeição do eleitorado feminino. O candidato do PSL é reprovado por 49% das eleitoras. “E o eleitorado feminino é de 54%, isso é um nó muito grande e muito complicado que Bolsonaro tem que dar um jeito de romper, isso pode ser determinante de fato. Aí você olha o segundo turno, todo mundo ganha dele. Mesmo o Haddad, a curva vai subindo e a outra vai descendo”, diz.

“Não tem um sinal de uma “onda” pró-Bolsonaro, mas com o percentual que ele tem e a situação de três semanas antes da eleição, ele já está com um pé no segundo turno. O que me parece foi que teve mais uma revelação de voto envergonhado, ou seja, pessoas que já queriam votar no Bolsonaro, não queriam dizer, e depois do atentado se sentiram mais encorajadas para poder assumir esse voto”, explica Leonardo Barreto. Para André César, no segundo turno o “antibolsonarismo” vai falar alto. “A rejeição é muito grande”, explica.

O especialista Rafael Cortez acredita que o cenário é o mesmo de antes do ataque contra Bolsonaro. Segundo Cortez, o que houve foi uma “cristalização” dos votos do presidenciável pelo PSL, que se mostra principalmente no índice de votos espontâneos – Bolsonaro tem 12% neste cenário.

Cortez explica por que o candidato do PSL pode perder caso vá a segundo turno. “À medida em que ele fidelizava o eleitorado, o outro lado da moeda foi perder contato com eleitores diferentes daqueles que ele conseguiu mobilizara partir da mensagem contra o mainstream, de reforçar críticas a grupos minoritários de toda natureza, especialmente pelo canal da rede social. Ao fazer isso, ele dificulta sua vitória no segundo turno contra qualquer candidato e esse cenário se manteve mesmo com o atentado e, portanto, não há alteração relevante nesse ponto”, diz.

Por fim, Cortez esboça como vê o cenário eleitoral a partir desses dois fatos novos (Haddad e ataque a Bolsonaro). “Novamente, é uma questão de voto útil. Na esquerda, entre Ciro e Haddad e na direita, entre Meirelles, Álvaro Dias e João Amoêdo. Na centro-direita, o ponto focal ficou muito mais definido agora. Ficou claro que esses nomes da centro-direita não têm condições de crescimento, na centro-esquerda essa diferenciação vai ser muito mais complicada para ser desenhada, portanto gerando também uma incerteza do quadro final”, diz.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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