Da tribuna, Maia exalta Congresso e cobra respeito do Planalto

Por Gustavo Nicoletta

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, durante comemoração da aprovação do texto-base da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados. (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

São Paulo – O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), elogiou o Congresso e os deputados e disse que o governo precisa restabelecer uma relação de respeito com os parlamentares daqui para frente.

Maia discursou ontem após a aprovação do texto-base da reforma da Previdência. Num gesto simbólico, ele deixou a presidência da Câmara temporariamente e encaminhou-se à tribuna, como fazem todos os demais deputados, para agradecer os políticos pela confiança depositada nele.

“Eu estou muito feliz, hoje, por estar conduzindo esta sessão, com o respeito que tive ontem principalmente, no dia mais difícil, de todos os deputados, especialmente dos que fazem oposição. Eu já vi sessões aqui muito mais difíceis e sei que a boa relação de confiança que nós construímos entre todos é que nos permitiu chegar ao momento de agora”, disse Maia.

Ele disse considerar que a reforma da Previdência é um avanço em direção à “posição correta” e ressaltou que a Câmara ouviu os apelos contrários a trechos da proposta considerados injustos.

“Quando nós construímos o texto, nós não construímos um texto dos sonhos de cada um de nós. O meu texto não teria regra de transição nem para os servidores públicos, nem para a Polícia Federal, mas existem muitos representantes dos servidores públicos aqui, e alguma transição foi construída”, disse Maia.

“É por isso que olhamos a bancada feminina, e ela fala: ‘Não é justo que as mulheres tenham que contribuir 20 anos.’ Há uma emenda, um texto reduzindo para 15 anos. A partir desses 15 anos, há o aumento de 2% [no valor da aposentadoria] – como para os homens é a partir de 20 anos”, acrescentou o presidente da Câmara, sob aplausos.

O presidente da Câmara afirmou que, em sua visão, há três eixos que precisam ser trabalhados para restaurar a saúde econômica no Brasil – a reforma da Previdência, a reestruturação das carreiras do funcionalismo público e a reforma tributária.

“Quem fala em redução de carga tributária no Brasil de hoje não está falando a verdade, porque quase 100% das despesas públicas federais são despesas obrigatórias. Quem é que vai cortar arrecadação? E como é que vai cobrir salários e aposentadoria e dar assistência? Então, quem fala em reduzir impostos hoje não está falando a verdade.”

“Nós temos que, primeiro, enfrentar esse monstro que são as despesas públicas, concentradas em poucas corporações, públicas e privadas. O setor privado também tem responsabilidade, porque leva 400 bilhões por ano, muitas vezes sem eficiência na sua empresa e sem gerar emprego para os brasileiros. Não é só o serviço público que é responsável”, acrescentou.

RELAÇÃO COM O PLANALTO

Maia também aproveitou o discurso para reclamar do que considera críticas “equivocadas” aos deputados e líderes de partidos, em particular aos de siglas que integram o chamado ‘centrão’ – bloco informal e majoritário da Câmara dos Deputados, composto por partidos ao centro do espectro político.

“‘O Centrão é essa coisa que ninguém sabe o que é, mas é do mal’, mas é o Centrão que está fazendo a reforma da Previdência, esses partidos que se dizem do Centrão. E tenho muito orgulho de presidir a Câmara e de ter a confiança de cada um dos Líderes, e não só daqueles que pensam como eu penso, mas também daqueles que pensam de forma distinta da que eu penso”, disse o presidente da Câmara.

Ele avaliou que o Congresso hoje demonstra um “protagonismo que não tem há muitos anos”, mas disse também que não há “nenhum interesse em tirar nenhuma prerrogativa do presidente da República.”

“Está aqui o Brasil e estão aqui também os problemas do Brasil, e é daqui que nós vamos resolver os problemas do Brasil. As soluções dos problemas da pobreza, dos problemas dos brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, dos problemas de milhões de desempregados passam pela política”, disse Maia, numa crítica ao sentimento antipolítico que permeia a sociedade e, particularmente, a base eleitoral de Bolsonaro.

“Investidor de longo prazo não investe em país que ataca as instituições”, disse ele. “Acho que este conflito nós temos hoje, e temos que superar: o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal têm sido atacados muitas vezes de forma exagerada.”

O presidente da Câmara também fez um aceno direto ao Poder Executivo, cumprimentando o secretário da Previdência, Rogério Marinho, e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a quem chamou de “meu amigo”. “Diziam que eu estava brigado com ele, desde o primeiro dia. Todo dia saía uma notinha.

Almoçando com ele, falei: ‘Estou cansado de ter que almoçar com você por causa de notinha de jornal’. Mas, Onyx, parabéns pelo seu trabalho”, afirmou.

No entanto, Maia também cobrou que a postura do Planalto seja mais respeitosa em relação ao Congresso, em referência às várias críticas sobre o caráter e a honestidade dos congressistas vindas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao longo dos últimos meses.

“Eu sei que é difícil, num momento de transição, coordenar um governo que foi eleito de forma legítima, com outra proposta – respeitamos isso. Mas nós vamos precisar construir, daqui para a frente, uma relação diferente, em que o diálogo e o respeito prevaleçam em relação a qualquer tipo de ataque”, disse o presidente da Câmara.