China crescerá menos que 6% ao ano mesmo com estímulos

POR: CRISTIANA EUCLYDES / AGÊNCIA CMA


(FreeImages.com/MorganeConstanty)

São Paulo – Os riscos à economia da China estão aumentando e a desaceleração deve aprofundar-se este ano, diante de dificuldades estruturais domésticas agravadas pelas tensões comerciais globais, de acordo com analistas consultados pela Agência CMA. As medidas de estímulo do governo chinês devem demorar a ter efeitos na economia real, ainda segundo os especialistas.

A China terminou 2018 com crescimento econômico de 6,6%, após expansão de 6,8% registrada em 2017, segundo dados do departamento oficial de estatísticas do país. A taxa é a menor desde 1990, de acordo com a série histórica do Banco Mundial, mas ficou acima da meta do governo, de manter o crescimento próximo de 6,5%.

Para 2019, o governo definiu a meta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em entre 6,0% e 6,5%. Ao anunciar o novo alvo, na reunião anual do Congresso Nacional do Povo – o parlamento da China – no início de março, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, disse que o país enfrenta este ano um ambiente com mais riscos e desafios, e chamou as metas projetadas de “ambiciosas, mas realistas”.

“O principal obstáculo para a economia da China é a desaceleração do crescimento do crédito, que é o resultado de uma política prévia de endurecimento do Banco do Povo da China [Pboc, o banco central do país]”, disse o economista da Capital Economics, Chang Liu. Com isso, o setor privado do país está em dificuldades, uma vez que historicamente contou com amplo financiamento dos bancos do país, tanto no sistema formal quanto no sistema não regulado.

Os dados mostram que a atividade industrial da China está desacelerando, assim como as vendas no varejo, evidenciando uma redução na demanda. A produção industrial no país cresceu 5,3% em janeiro e fevereiro na comparação com igual período do ano anterior, após alta de 5,7% em dezembro, segundo o departamento de estatísticas chinês, marcando o início de ano mais fraco em dez anos. Já as vendas no varejo subiram 8,2% em janeiro e fevereiro, mesma taxa de dezembro.

“A maior parte da desaceleração da China em 2018 deve-se a uma campanha de desalavancagem lançada em 2017”, disse o economista do IMA Asia, Ricahrd Martin. “Paralelamente, houve limites à poluição, que atingiu a indústria, e limites à bolha nos preços das casas, que afetaram os setores imobiliários e de construção civil”.

Martin citou que o IMA tem cerca de 180 clientes na China em todos os setores e, em geral, eles sentiram o crescimento enfraquecer-se no quarto trimestre de 2018. “A taxa de crescimento oficial de 6,6% da China em 2018 provavelmente superestimou o crescimento em de 0,5 ponto percentual (pp) a 1 pp”, disse.

A IMA rebaixou suas projeções para o crescimento da economia da China de 6,0% para 5,8% este ano, e de 5,8% para 5,4% para 2020. “Os fatores contrários para o crescimento da China estão aumentando e esperamos que o estímulo de Pequim amorteça, mas não pare uma queda no crescimento”, de acordo com relatório.

Para o economista-chefe para a China do TS Lombard, Bo Zhuang, a meta de entre 6,0% e 6,5% este ano não representa uma mudança significativa e é alcançável para a China, ritmo que deve ser mantido no ano que vem. “Depois de 2020, a China deve reduzir sua taxa de crescimento para abaixo de 6,0%”, disse. Segundo ele, a “atual desaceleração é uma segunda perna da desaceleração anterior”, quando a China começou o processo de desalavancagem de sua economia.

GUERRA COMERCIAL

Além das dificuldades internas, as exportações do país estão em queda, diante da desaceleração da demanda global em meio ao menor crescimento econômico e com a ameaça do protecionismo. No ano passado, os Estados Unidos impuseram uma série de tarifas adicionais à importação de produtos chineses.

“As tarifas dos Estados Unidos começaram a arrastar as exportações chinesas nos últimos três meses, mas os danos causados pelas taxas impostas até agora têm sido pequenos. Estimamos que seja inferior a 0,2% do PIB. A desaceleração das exportações chinesas no ano passado deve-se a um enfraquecimento da demanda global”, disse Chang, da Capital Economics.

Em fevereiro, as exportações da China recuaram 20,7%, em base anual, revertendo a alta de 9,1% de janeiro, segundo dados da alfândega do país. Já as importações caíram 5,2% no período na mesma base de comparação, ante a queda de 1,5% em janeiro.

De acordo com Martin, do IMA Asia, os fluxos comerciais foram atingidos, mas as exportações representam apenas cerca de 15,0% da produção industrial da China, que assim como os Estados Unidos possui um grande mercado interno.

“As exportações mais fracas vão prejudicar as empresas de manufatura leve no Delta do Rio das Pérolas”, disse Martin, acrescentando que seus clientes relataram que a terceirização de certas funções em um país diferente já está em andamento desde meados de 2018.

“Isso aponta para um impacto maior, que é uma desaceleração nas decisões de investimento em manufatura, já que as empresas não sabem se cadeias vitais de suprimentos funcionarão em todo o Pacífico”, afirmou.

Para Bo Zhuang, do TS Lombard, “no ano passado, os investimentos domésticos e exportações foram prejudicadas pela ameaça da guerra comercial”. Segundo ele, “em geral, a confiança na China está bem fraca”, também devido às taxas aplicadas pelos Estados Unidos aos produtos do país.

Um possível acordo comercial entre Washington e Pequim, porém, não deve ter muito impacto sobre o crescimento econômico da China. “Um acordo comercial parece próximo”, segundo o IMA Asia, em relatório. “No entanto, a maioria dos observadores da China concordam que o acordo não levará a uma mudança de curso para a China, e que isso significa fricções continuadas com os Estados Unidos”.

Para o estrategista do Rabobank, Bjorn Giesbergen, há sinais de que um acordo sobre comércio deve alcançado mais cedo ou mais tarde, ainda que uma reunião entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente norte-americano, Donald Trump, não aconteça antes do final de março. A expectativa é de que eles assinem o acordo comercial na reunião.

Segundo, Giesbergen, há até mesmo uma chance de que os Estados Unidos reduzam pacotes protecionistas no curto prazo, caso a China atenda algumas exigências norte-americanas. Porém, “no médio prazo, consideramos que não é realista que a China dê seguimento a exigências mais complicadas, como a abertura de certas partes da economia, transferência forçada de tecnologia, apoio excessivo de empresas estatais. Como resultado, achamos que um acordo geral será quebrado no final, resultando em renovadas tensões sobre o comércio”.

MEDIDAS DO GOVERNO

Para conter esta desaceleração econômica e estimular o crescimento do país, o governo da China e o banco central têm adotado uma série de medidas.

O governo anunciou cortes de impostos, enquanto aumenta a emissão de títulos do governo local para investimentos em infraestrutura.

O Pboc reduziu a taxa de compulsório bancário em 1 pp em janeiro, em uma tentativa de apoiar o crescimento econômico e reduzir custos financeiros, liberando liquidez no sistema bancário. Autoridades já afirmaram que novos cortes podem ser realizados.

“O Pboc levou para baixo as taxas de juros do mercado nos últimos meses e o governo anunciou cortes de impostos e aumentos de gastos para apoiar o crescimento econômico. Esperamos mais medidas de afrouxamento nos próximos meses. Mas uma recuperação rápida da atividade é improvável”, disse Chang, da Capital Economics.

Segundo ele, normalmente há uma defasagem de seis a nove meses antes de as alterações no crédito passarem para a economia real. “Apesar das recentes medidas de afrouxamento do Pboc, o crescimento do crédito ainda estava próximo de um mínimo de vários anos em fevereiro. Não esperamos uma recuperação econômica até o segundo semestre deste ano como resultado”, disse.

“Os analistas políticos também estão preocupados com o fato de que outro aumento no investimento impulsionado pelo crédito possa piorar os problemas estruturais da China, sugerindo que a escala de estímulo será menor desta vez do que no passado”, acrescentou Chang. Para ele, o governo parece relutante em permitir uma forte recuperação dos empréstimos, mesmo que isso aconteça ao custo de um crescimento mais lento.

Bo, do TS Lombard, destacou que o Pboc tem adotado uma política monetária de “afrouxamento comedido”, e que a escala do afrouxamento de crédito atual será menor que nos ciclos anteriores. Para Bo, o crescimento econômico vai continuar a desacelerar até que o impacto das medidas seja sentido no curto prazo, no segundo semestre deste ano.

Segundo as analistas do Société Générale, Wei Yao e Michelle Lam, um dos anúncios mais significativos do governo chinês, no início de março, foi pacote de corte de impostos maior que o esperado, o que deve apoiar o setor privado. “Os cortes de impostos funcionam mais lentamente do que os estímulos de infraestrutura alimentados pela dívida, mas incentivam uma melhor alocação de recursos”, disseram em nota.

Segundo elas, os formuladores de políticas têm buscado consistentemente uma dose comedida de realavancagem, mas com um aumento significativo no apoio fiscal, incluindo um aumento considerável tanto nos cortes de impostos quanto no financiamento fiscal formal para a infraestrutura.

“Mas há uma nota de cautela: com o déficit fiscal elevado de apenas 0,2% do PIB para 2,8% e o financiamento irregular sendo reprimido, o governo local estará sob enorme pressão financeira. A menos que o governo utilize outros recursos fiscais para implementar esses cortes, isso vem com riscos de implementação”.

“Ao mesmo tempo, a intenção de encontrar um equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade permanece muito viva”, disseram, acrescentado que o governo chinês enfatizou a luta para conter riscos e combater o financiamento ilegal de governos locais. “Isso é consistente com a nossa visão de que os formuladores de políticas estão apenas facilitando a estabilidade, em vez de uma grande aceleração”.