Corte de juros não é sinal de ciclo de afrouxamento, diz Powell

Por Carolina Gama

São Paulo – O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, disse que o corte da taxa básica anunciado hoje não é necessariamente o início de um ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos. Ele classificou a decisão – que reduziu os juros em 0,25 ponto percentual (pp), para a faixa de 2,00% a 2,25% – como uma precaução contra os riscos às perspectivas econômicas do país.

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell. Foto: Divulgação/ Federal Reseve

“O comitê está realmente encarando essa decisão como uma forma de ajustar a política a uma postura um pouco mais acomodatícia para promover três objetivos: garantia contra os riscos negativos, apoio à economia e à inflação. Achamos que o corte de juros de hoje servirá a esses objetivos. Estamos encarando essa decisão como a natureza de um ajuste de ciclo intermediário da política monetária”, disse Powell coletiva de imprensa.

Após a declaração de Powell, o mercado de ações norte-americano passou a cair mais de 1%, os juros dos títulos de dívida do governo dos Estados Unidos subiram e o dólar se fortaleceu, aparentemente porque os investidores entenderam que novos cortes de juros não devem ser anunciados até o final do ano.

“Não é o começo de uma longa série de cortes de juros. Eu não disse que é apenas um [corte] ou qualquer coisa assim. Eu disse que quando você pensa em ciclos de corte de taxa, eles duram muito tempo. O comitê não está vendo isso, não estamos nos vendo neste lugar”, afirmou Powell.

“Seria necessário fazer isso se víssemos uma fraqueza econômica real e pensássemos que a taxa de juros precisa de um corte profundo. Não é isso que estamos vendo. O que estamos vendo é que é apropriado ajustar a política a uma postura um pouco mais acomodatícia ao longo do tempo. E é assim que estamos olhando para isso”, acrescentou.

Embora tenha afirmado que o corte da taxa anunciado hoje foi mais uma precaução aos riscos negativos, o chefe do Fed fez questão de reforçar que as decisões de política monetária seguem ligadas a dados econômicos futuros.

“Dei três razões para o que fizemos – que é garantir contra os riscos descendentes derivados das perspectivas de fraco crescimento global e das tensões comerciais. Esse é um ponto de gerenciamento de risco. E essa é uma precaução. Mas também sentimos que o fraco crescimento global e as tensões comerciais estão afetando a economia dos Estados Unidos”, afirmou.

Segundo ele, no segundo trimestre, os Estados Unidos registraram um investimento fraco e uma manufatura mais branda. “Por isso, precisamos apoiar a demanda e também o retorno da inflação para 2%”, disse.

MUDANÇAS SOBRE O BALANÇO

O corte mais recente da taxa do Fed ocorreu no final de 2008, quando o banco central reduziu os juros para perto de zero após a crise financeira, mantendo-os nesse nível por sete anos. A decisão de hoje encerra um esforço de quatro anos para devolver a política monetária aos níveis pré-crise financeira.

Na ocasião, além de manter os juros próximos de zero, o Fed comprou mais de US$ 3,5 trilhões em bônus do Tesouro e hipotecas para estimular o crescimento econômico. Quando esse processo começou, as autoridades esperavam que as taxas de juros retornassem para entre 3% e 4% e que o balanço de ativos do Fed caísse para entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2,5 trilhões.

Hoje, o Fed decidiu que manterá seu portfólio em torno de US$ 3,8 trilhões em ativos, igual a cerca de 18% do Produto Interno Bruto (PIB), ante menos de US$ 800 bilhões, ou cerca de 5% do PIB, no final de 2007.

“Acredito que a decisão de hoje sobre o balanço é consistente com o posicionamento do Fed e não significa nada além disso”, afirmou Powell.

PRESSÃO DE TRUMP

A decisão de cortar os juros e acabar com a redução do balanço de ativos em agosto, dois meses antes do previsto, acontece em um momento no qual Powell e o Fed são pressionados pelo presidente norte-americano, Donald Trump, a afrouxar a política monetária para tornar a economia dos Estados Unidos mais competitiva.

Ontem, Trump disse que esperava um grande corte da taxa de juros e o fim do que chamou de aperto quantitativo, fazendo referência à redução gradual do portfólio do Fed.

Hoje, no entanto, Powell fez questão de reforçar a independência do Fed na tomada de decisões. “Não cedemos às pressões políticas. Nossas decisões não levam a política em consideração, mas sim o mandato do Congresso de estabilidade de preços e pleno emprego”, afirmou.

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