Cheque especial poderá ter regra parecida com rotativo

22/02/2018 15:17:54

Por: Camila de Lira / Agência CMA

Extrato bancário e talão de cheque. (Marcos Santos/USP Imagens)

São Paulo – Com a maior taxa de juros da modalidade de crédito livre, o cheque especial passará por alterações ainda este ano. O Banco Central (BC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) discutem alterações para o produto nos moldes do que ocorreu com a cobrança do rotativo do cartão de crédito num movimento que visa o corte da taxa de juros da modalidade, mas que poderá afetar diretamente a margem financeira dos bancos.

Desde outubro de 2016 até dezembro de 2017 a taxa básica de juros (Selic) caiu 50,8%, indo de 14,25% ao ano (aa) para 7% aa. Além disso, a taxa média de inadimplência do sistema financeiro como um todo caiu 23%, de 3,9% para 3% – a tarifa média para pessoas físicas foi de 4,2% para 3,5%, enquanto a para pessoa jurídica caiu de 3,6% para 2,9%.

Com esses dados, o caminho seguido pela taxa de juros do cheque especial, tanto para pessoa física quanto para empresas, deveria ser o de queda, mas o BC indica que não foi essa a realidade da tarifa cobrada pelos principais bancos.

Entre outubro de 2016 e dezembro de 2017, a taxa média de juros para cheque especial pessoa física do Banco do Brasil subiu 10,99 pontos percentuais de 303,31% aa para 314,3% aa; no Itaú, a alta foi de 3,7 pp, de 321,04% aa para 324,74% aa.

Para empresas, apenas o Itaú Unibanco teve alta na taxa de juros do período, de 347,69% aa para 352,44% aa; o Santander Brasil teve alta de 1,3% ou 4,9 pp – nesta taxa, indo para 368,84% aa. Tanto para pessoa física quanto para pessoa jurídica, as taxas praticadas Bradesco caíram, mas longe do passo de queda da Selic: a desaceleração da taxa de cheque especial pessoa física caiu 4,68% – ou 14,55 pp – para 296,34% aa ; para pessoa jurídica desacelerou 12,4%, a 323,85% aa.

Se a comparação for feita entre outubro de 2016 e fevereiro deste ano, o comportamento continua o mesmo, ante queda de 52,6% da Selic no período, as taxas de cheque especial de pessoa física do Banco do Brasil subiram 3% para 321,57% aa; as do Itaú Unibanco subiram de 321,04% aa para 321,57% aa; as do Santander caíram 6,13% para 418,8% aa; e as do Bradesco caíram 7,46% para 287,67% aa.

Segundo o diretor de economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Roberto Vertamatti, há pressão do BC para reduzir as taxas de juros. “O Ilan [Goldfajn, presidente do BC] sabe que o juros tem que equacionar um pouco melhor. É uma anormalidade na economia o juros alto e rentabilidade excepcional dos bancos, e a anormalidade, na economia, nunca se mantém num longo prazo”, disse.

De fato, a queda dos spreads é o objetivo inicial das possíveis alterações do cheque especia, informou a Febraban, em nota. “A Febraban e os bancos estudam formas de melhorar o ambiente de crédito no país e trabalham continuamente para garantir uma redução estrutural no spread bruto. O cheque especial faz parte desse conjunto de ações do setor bancário”, indicou o comunicado da Federação.

No lugar de retirar o modelo de crédito que, em dezembro de 2017, foi responsável por 2,55% do saldo de crédito para pessoa física e de 1,25% do total do saldo da carteira de pessoa jurídica, a mudança que será feita seguirá o molde do rotativo do cartão de crédito: o de diminuição do tempo do cliente consumindo este tipo de crédito.

“A discussão está mais em torno de orientar a utilização do cheque especial para que este seja usado como produto de utilização eventual e não de utilização contínua”, explicou o presidente do Itaú Unibanco, Cândido Bracher. Segundo o executivo, o produto final ficaria parecido com o ocorrido no mínimo do cartão de crédito, com o banco oferecendo ao cliente um outro tipo de financiamento da dívida – de juros menor.

Para Vertamatti, esta é a única saída possível para não tirar o cheque especial do produto. “As discussões que estão sendo feitas até o momento não trarão soluções diferentes do que encontraram no caso do rotativo do cartão de crédito. Poderá usar até 30 dias, depois será oferecido um crédito comum, com juros ainda altos, mas menores do que o do cheque especial. Não tem como ser muito diferente”, diz o executivo.

Caso a redução das taxas de juros sigam o mesmo comportamento do que ocorreu com as taxas do rotativo entre abril de 2017 – quando a regra foi estipulada – e fevereiro deste ano, os números não são tão animadores. A taxa total do rotativo do cartão de crédito do Santander Brasil foi de 563,57% aa para 241,26% aa no período; já as praticadas pelo Banco do Brasil foram de 299,07% aa para 214,39% aa; as do Itaú Unibanco tiveram desaceleração de 604,56% aa para 217,01% aa e as do Bradesco tiveram pequena queda de 688,94% aa para 681,8% aa.

Com relação ao prazo, o vice-presidente do Bradesco, Alexandre Gluher, informou, no início deste mês, que o anúncio das alterações poderia ficar ainda para este trimestre. Para Vertamatti, a semelhança com as alterações feitas no rotativo é tanta que deverão tomar o mesmo passo. “Lembrando que as discussões do rotativo começaram no final de 2016 e início de 2017”.

Se, para os consumidores a alteração trará mudança no comportamento e na visão do cheque especial como uma dívida – e não como uma parte extra do saldo em conta corrente – para os bancos a nova regra poderá reduzir a margem financeira e os spreads bancários. “Isso poderá afetar um pouco as margens dos spreads, mas o crescimento da demanda compensará”, disse Bracher.

Edição: Eduardo Puccioni (e.puccioni@cma.com.br)

 

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